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Estádio de R$ 1,5 bilhão, Mané Garrincha tem jogo com 60 pessoas e prejuízo

Estádio Mané Garrincha, em Brasília, vazio, como tem acontecido com frequência depois da Copa 2014 - Comitê Rio-2016
Estádio Mané Garrincha, em Brasília, vazio, como tem acontecido com frequência depois da Copa 2014 Imagem: Comitê Rio-2016

Adriano Wilkson e Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

29/03/2019 12h00

Existe um contraste recorrente há quase cinco anos no estádio mais caro da Copa do Mundo de 2014. Arena erguida a um custo de R$ 1,5 bilhão, o Mané Garrincha mantém a incidência de públicos baixos nos jogos locais e amarga uma série de prejuízos financeiros nas partidas. O pior resultado, por exemplo, ocorreu em fevereiro passado, quando apenas 60 pessoas assistiram à partida entre Real e Santa Maria.

Após a Copa do Mundo, 50 jogos com pelo menos um time de Brasília envolvido foram disputados no Mané Garrincha. Quase 80% deles fecharam no vermelho, com despesas superiores às receitas. O déficit acumulado chegou quase R$ 87 mil, com 38 duelos marcados por prejuízo - o maior deles aconteceu em fevereiro do ano passado: perda de R$ 7,9 mil no confronto entre Brasiliense e Oeste, pela Copa do Brasil.

Nesses 50 jogos pós-Copa, o público pagante somado foi de 81.051, pouco acima da capacidade total do estádio, de 72 mil - o público total chegou a 90.250, com média de 1.805 torcedores pagantes por partida e renda acumulada de R$ 885 mil (média de R$ 17,7 mil por jogo). Ou seja, 10% dos torcedores entraram no Mané Garrincha de forma gratuita.

A reportagem do UOL Esporte questionou a Secretaria de Turismo do Distrito Federal sobre as gratuidades ocorridas nas últimas quatro temporadas. De acordo com a pasta, as promoções dos jogos são de responsabilidade do produtor do evento, a Federação de Futebol do DF.

Nos borderôs publicados pela entidade, essas entradas aparecem geralmente com o custo simbólico de R$ 1. Segundo a assessoria de imprensa da FFDF, esse valor é repassado pelos clubes à federação para arcar com os custos das partidas.

Lucro é raro em Brasília

Atrair público é um desafio para a maioria dos clubes que disputam o Campeonato Brasiliense. O advogado português Antônio Teixeira, presidente do Bolamense, que recentemente jogou para 53 pagantes no Abadião, em Ceilândia, costuma abrir os portões do estádio para evitar prejuízo com confecção de ingressos. O clube, assim como outras equipes, costuma liberar a entrada ou distribuir ingressos de cortesia.

"Se você colocar um funcionário em cada portão e pagar os custos da gráfica, vai gastar mais do que arrecadar com a venda", disse o cartola, que afirma nunca ter levantado mais de mil reais em uma partida no Estadual. "O futebol aqui acaba só valendo a pena para os times que são campeões ou têm outra fonte de renda."

O público baixíssimo não afeta apenas os clubes. O Estado também sai com prejuízo grande. Os 50 jogos geraram R$ 45.288,88 de receita de aluguel. Para jogar no estádio mais caro da Copa, os clubes precisam repassar 13% da renda bruta das partidas - até 2017, era 15%.

A manutenção do Mané Garrincha, de acordo Secretaria de Turismo do Distrito Federal, é de R$ 700 mil mensais. Em 56 meses, os gastos superaram as cifras de R$ 39 milhões. A empresa estatal Terracap, a Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal, é a responsável pelo pagamento.

Há solução?

A própria Secretaria admite dificuldades em levar público para a arena em jogos locais. "Brasília não tem um time nem na série B ou na série A. Caso a cidade tivesse algum time de representação no futebol nacional, isso implicaria em uma média de 20 jogos por ano", explicou a pasta em resposta à reportagem

A secretaria ainda ressaltou a importância de uma parceria com o setor privado para amenizar a situação e citou que o Governo do Distrito Federal já prepara um edital de licitação para conceder o estádio a empresas.

Enquanto isso não acontece, o Mané Garrincha sobrevive graças às partidas de clubes do Rio de Janeiro e a eventos realizados no local. Em 2018, foram 65, incluindo o Fórum Mundial das Águas, o Circuito BB de Vôlei de Praia, o Campus Party e shows grandes, como de Roberto Carlos, Tribalistas e Roger Waters.

Depois do Mundial, o Mané Garrincha foi palco de 27 partidas de times do Rio de Janeiro. O público total passou de 638 mil, com média de 23.634 por duelo. A renda atingiu quase R$ 36 milhões - média de R$ 1,33 milhão por confronto. O estádio também recebeu dez partidas nos Jogos Olímpicos 2016, entre jogos masculinos e femininos.

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