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Pai rebate fama de 'cai-cai' de Neymar e o compara a "vareta de churrasco"

AFP PHOTO / JACQUES DEMARTHON
Imagem: AFP PHOTO / JACQUES DEMARTHON

Do UOL, em São Paulo

24/02/2019 00h54

Em entrevista veiculada entre ontem e hoje pelo canal SporTV, o pai de Neymar, Neymar da Silva Santos, rebateu mais uma vez a fama de "cai-cai" do filho. Desta vez, usou um exemplo incomum para defender a estratégia do filho para fugir de pancadas mais fortes, comparando-o a uma vareta.

"Todo mundo achava que o Neymar simulava essa situação (...). Podem falar: 'Neymar é cai-cai, simula'. Ele não simula, não é cai-cai. É um artifício que ele usa desde a base. Nós estamos completando 10 anos de Neymar de sua estreia - ele tem 11 anos de profissional. Quem viu ele estrear, sabe que ele não tinha porte físico para um atleta profissional. Era estanho ver ele numa equipe profissional", disse.

"O Neymar não simula situações, mas ele foge do contato. Por mais que a gente diga que futebol é contato, não é. O Neymar tem que ter potência, não força. Ele tem que fugir do contato. Eu sempre dei um conselho para ele que eu escutei do Romário: 'não divida com goleiro e não perca gol fácil'. Isso entrou na minha cabeça. Eu falei com o meu filho: 'toda dividida que você entrar, você vai perder. Não adianta, você não vai ganhar, é contra a física'. Mas chegar antes, sim. Se vê que vai receber o choque, que esteja protegido, projetado no ar. Você entendeu o que estou falando. Sabe aquelas varetas do churrasco? Pode jogar uma para o alto e dar com uma marreta de ferro, que ela não quebra. Mas apoia ela no solo, e qualquer peteleco ela vai quebrar. Eu precisava dar essa advertência para ele", completou.

A comparação foi um momento leve em uma entrevista de quase duas horas, marcada por eventuais momentos de uma discussão mais acalorada - em especial com o comentarista Walter Casagrande Júnior, um dos presentes. Não raro, Neymar pai adotava uma postura defensiva.

Questionado, por exemplo, se Neymar ainda pode sonhar com o prêmio de melhor jogador do mundo, o pai do astro deixou claro: precisa de um time que brigue por títulos para que possa se destacar individualmente.

"Nunca coloquei isso como objetivo para o meu filho. Acho que ele nunca colocou. Mas disputar grandes campeonatos, estar nos grandes centros, acho que ele tem essa ambição. Se ele vai ganhar? Ninguém é hipócrita: dizem que isso faz bem para nossos currículos, para o nosso ego. Ele tem tempo para conquistar isso. Mas as coisas precisam cooperar. Isso é uma coisa coletiva. Por mais que você fale do melhor do mundo, ninguém foi eleito individualmente. Foi necessário o coletivo ter ganho. É necessário que o Neymar coletivamente ganhe para que ele possa ter a esperança de um prêmio desse. O Neymar não pensa individualmente. Ele não vai conseguir ganhar sozinho. Quem ganha uma premiação individual, pode ter certeza de que foi campeão de algum campeonato", disse, negando ainda que o filho tenha trocado o Barcelona pelo Paris Saint-Germain para "sair da sombra" de Lionel Messi.

"Foi complexa essa decisão (de ir para o futebol francês). Era um país pedindo: 'vem cá, nos ajude nesse projeto de dar visibilidade para essa liga'. O Neymar tinha a oportunidade de ser um dos primeiros a dizer: caramba, tivemos jogadores importante na França, mas saíram desse centro e foram para outros centros maiores. A França tentou o inverso: trazer dos grandes centros alguém que pudesse dar visibilidade maior para nós (franceses). A responsabilidade do Neymar apanhar na liga é de toda a liga. Todo mundo perde com o Neymar fora desse campeonato. Quando você não tem o todo preparado para isso, as coisas acontecem e você não vai ter sucesso. Mas não é um projeto do Neymar. É um projeto da liga francesa, de um país. Se você olhar entre linhas, vai ver que não é uma ambição só do Neymar", completou.

Com a seleção brasileira, Neymar deverá disputar a Copa do Mundo de 2022, no Qatar. Será a terceira edição do torneio que o atual camisa 10 disputará. Para Neymar pai, poderá ser uma oportunidade para que ele brigue pelo título - coletivamente - e tente se destacar - individualmente.

"Eu espero que seja uma oportunidade, mais uma oportunidade para que ele possa não ser o melhor do mundo, mas levar a seleção a mais um título de campeão do mundo. (...) Quando o Brasil for campeão, vai ter mais brasileiros concorrendo, porque temos muita qualidade na seleção brasileira", acrescentou, sem acreditar que o filho seja o melhor jogador brasileiro pós-Pelé.

"Fazer esse tipo de comparação é meio sem sentido. Eu sou ?pelezista?, eu vi o Pelé jogar. Pouco, mas vi. Para mim, é o melhor de todos. O Pelé, para quem viu jogar, para quem ama o futebol, sabe o que eu estou falando. A gente achava que não ia ver mais nada igual. O ídolo do meu filho no futebol é o Robinho, porque foi inspirado por esses jogadores. O Neymar foi inspirado por outro grande jogador. Quem viu o Robinho jogar em 2002... O Santos tinha faixa de cabeça para baixo (nos estádios). Quando a gente ia para a Vila ver o Robinho jogar, era como ver o novo Pelé. Todo santista falava: 'nós não vamos ver alguém tão maior que Robinho'."

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Mimado? Nada disso!

Responsável pela gestão da carreira do filho, Neymar pai garantiu que filho tem autonomia para tomar decisões. E assegurou que o astro não é mimado pela família ou por seu staff.

"Acho que meu filho hoje está bem crescidinho - ele tem 27 anos - para saber o que é bom para ele: se é continuar ouvindo meus conselhos ou não. Ele não está amarrado, preso em um sistema de negócio, de opressão. Pelo contrário: meu filho é muito feliz, livre para fazer o que quiser, da forma que quiser. Agora, eu estar na vida do Neymar não quer dizer que eu controlo a vida do Neymar. Eu administro, é diferente. Eu tenho a gestão de carreira dele. Não dá para o Neymar, como atleta profissional, tomar conta da carreira dele. Ele não consegue fazer a agenda comercial dele. Não é só uma gestão de carreira de futebol: é imagem, a personalidade que ele virou", disse, indo além.

"Eu sou o cara do não. Eu sempre criei meus filhos com muito não. Tudo é não. Primeiro: eu fui muito pobre, sei das dificuldades que tinha. Como você vai oferecer se não tem dinheiro? Não dá, não pode. Hoje eu continuo falando não para ele. Eu controlei o dinheiro do Neymar até determinado momento, depois é impossível. Dinheiro não aceita desaforo. Sempre aconselhei: guarda (...). O médico pode trabalhar até os 80 (anos), o jornalista até os 80. O jogador de futebol tem o tempo determinado, só um terço dessa vida. Se ele não se preparar, tenha certeza de que está fadado ao erro. O Neymar não teve tempo de estudar. Não fez nenhum curso profissionalizante, não teve experiências de trabalho. Essa administração, essa gestão, a gente que faz", acrescentou.

Neymar pai foi mais de uma vez questionado se Neymar seria mimado, e sempre discordou.

"Eu estou dando estrutura. Não confunda mimar com estrutura. Meu filho joga toda quarta e domingo. Ele vive a vida dele, ele está livre, tem a casa dele, tem os amigos dele", disse. E embora tenha dito que a "imprensa é muito maluca", evitou críticas duras à postura dos jornalistas na relação com o camisa 10.

"A imprensa também noticia coisas boas do Neymar. É um balizador. Você pode ficar tranquilo; tudo que vocês falam aqui, a gente escuta - acho que ele não, muito pouco. Às vezes, chega pelos amigos. Ele vê muito pouco", afirmou, negando também que projete sua própria carreira de jogador na do filho.

"O futebol não foi bom para mim. Parei aos 32 anos, sem dinheiro algum. Eu tinha um terreno na Praia Grande (SP) em que não conseguia construir nem um baldrame. Quando parei, eu não tinha outra profissão. Quando avistei meu filho correndo atrás da bola, eu falei a mesma cosia que meu pai falou para mim: 'vai estudar'."

Fratura na Copa de 2014

Um dos raros momentos em que Neymar pai baixou a guarda na entrevista foi ao falar da lesão sofrida pelo filho nas quartas de final da Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Na ocasião, jogando em Fortaleza diante da Colômbia, o então jogador do Barcelona levou uma joelhada nas costas e fraturou uma vértebra.

"Eu estava no estádio, assistindo ao jogo. Foi perto do final da partida. O jogo termina, a gente sabe que o Neymar foi levado ao vestiário, mas não tínhamos informação nenhuma do que tinha acontecido. Saímos do estádio. Quando o telefone toca, a gente (família) estava indo em direção à van. A gente estava indo encontrar todos para ir embora para o hotel. O telefone toca, era o pessoal da CBF pedindo que eu retornasse ao estádio. Eu achei estranho. 'Seu Neymar, você está aí? Retorna, que o Neymar está fora da Copa do Mundo.' Naquele momento, eu fiquei praticamente revoltado, não entendi. Minha família ligando para mim, perguntando o que estava acontecendo. Eu não sei, estava voltando ao estádio, 'já falo com vocês'."

"Quando chego, eles me conduzem ao vestiário, o Felipão, as pessoas estão vindo na minha direção para me confortar. 'Ele não está aqui, está no hospital. Vamos trocar de roupa e vamos para a Granja (Comary). O Neymar teve uma pequena fratura na coluna.' O Felipão estava chorando também, tinha muita gente comovida com essa situação. As pessoas tentam me tranquilizar, vamos ao ônibus para o aeroporto. Os jogadores embarcam, eu fico para o final com um pessoal da segurança para receber o Neymar. A gente consegue ver a ambulância esperando todos embarcarem, e eu sabia que ele estava na ambulância. Eles pedem que eu suba (no avião). Estava todo mundo em silêncio. O Felipão havia pedido para que a gente ficasse tranquilo. O Neymar estava desesperado, gritando pelo meu nome. Eles tinham desmontado um pedaço do avião para passar a maca. Estavam todos sentados, e o primeiro lugar do avião era onde estenderiam a maca. Eu sentei atrás, só a aeromoça em pé. Eu me tranquilizo para não chorar na frente do Neymar, mas ele entra de uma forma que emociona a todos. Ele começa a gritar meu nome, eu digo 'força, filho'. Ele começa a perguntar o porquê. Eu não sabia dizer o porquê, era uma situação difícil para a gente, o sonho dele naquele momento. Todo mundo começa a chorar. A aeromoça começa a chorar. Quando o avião começa a taxiar e entra para decolagem, ela percebe que o Neymar não parava. Ela deixa decolar mesmo comigo em pé."

Perguntado se temeu por sequelas na recuperação de Neymar, o pai do jogador reconheceu que sim.

"Tinha esse risco. Porque era uma alça da vértebra que tinha se partido. A gente sabia que ia cicatrizar, mas para um atleta... Ter um problema de ciático, de púbis, leva um tempo muito grande. E não sabia se essa dormência que ele tinha seria um processo demorado. Poderia ser que não tinha sequela nenhuma. Dependeria de muita coisa. Ficamos atônitos por um bom tempo, até a gente ver ele retomar a suas atividades. Mas para nossa família, o desespero da minha filha ao telefone... Eu e o Neymar, a gente dorme lá (na Granja Comary), embarca de outro dia para voltar para casa de helicóptero. A gente viu o Brasil todo com o Neymar, o mundo inteiro. A gente viu como ele era amado naquele momento. Como as pessoas participaram e sentiram aquele drama dele. Aquilo deu força para a gente", acrescentou.

Horas depois da exibição da entrevista, o pai de Neymar usou as redes sociais para ressaltar que o filho não é mimado pela família ou por seu staff.

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