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Montillo relata luta e aprendizado diário com o filho com síndrome de down

Santino Deian, de 8 anos, é filho do jogador Walter Montillo - Arquivo pessoal
Santino Deian, de 8 anos, é filho do jogador Walter Montillo Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Oliveira

Do UOL, em São Paulo

23/12/2018 04h00

Walter Montillo conquistou muito no futebol. Fez sucesso no Brasil, vestiu a camisa da seleção argentina e hoje atua no Tigre, cube de seu país. Mas é em casa que ele tem seu maior tesouro. O meia é apaixonado pela família e aguarda a chegada do terceiro filho. Ele já é pai dos pequenos Valentin e Santino Deian. E foi com o caçula, que é portador de síndrome de down, que ele sofreu sua mais intensa transformação.

Santino hoje tem oito anos e está sempre com um sorrisão no rosto. A felicidade do menino pode ser vista no Instagram onde compartilha momentos da vida brincando, estudando ou se divertindo com o irmão. O menino já ganhou muitos fãs e até fazia sucesso nas arquibancadas na época que Montillo jogava no Botafogo.

Montillo se enche de orgulho e amor pelo filho. "Continuo aprendendo com ele todo dia. Às vezes estou chateado ou triste por alguma coisa que acontece, nem todo mundo está feliz todo dia, mas ele sempre está com um sorriso me recebendo. Isso mudou a minha maneira de pensar. Pode acontece qualquer coisa, se ele está feliz, eu estou feliz. Posso estar chateado, mas ele vem com um carinho, um abraço e eu esqueço de tudo. Com certeza ele veio para nos mudar".

Santino é uma inspiração de vida não só para o pai. Ele lutou pela vida desde que nasceu. O jogador e sua mulher Melu não sabiam da deficiência da criança durante a gravidez e só descobriram após o parto. Ali começou uma batalha. Santino teve muitos problemas de saúde e precisou passar por várias cirurgias (quatro na região intestinal e outra no coração) ainda nos primeiros dias de vida.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Na época, a família morava em Belo Horizonte, já que o meia jogava no Cruzeiro, e teve que superar tudo sozinha longe dos parentes. "Foram três anos muito difíceis para a gente. Ele ficou muitos dias na UTI. Eu tinha que continuar jogando. Eu treinava, jogava e voltava para o hospital para acompanhar ele na UTI. Mas nesse momento tivemos muita força da Universidad do Chile e do Cruzeiro, eles estiveram com a gente. Todo mundo me tratou com muito respeito. Ninguém quer passar por uma coisa assim. Mas agora já passou tudo".

Os problemas de saúde foram só o início de uma luta que ele sabe que vai durar a vida toda. Santino hoje é saudável e tem uma infância feliz. É cheio de amigos e estuda em uma escola com professores atenciosos. Mas muitas vezes ainda tem que se deparar com uma sociedade despreparada e preconceituosa contra quem tem a síndrome de down.

"Já aconteceu de a gente ir a algum lugar que tem muitas pessoas que ficam olhando para ele. Às vezes tem pessoas ou meninos que não querem brincar com ele. Mas faz parte da vida, estou acostumado. Nem ligo".

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

No início do ano passado, a família voltou a morar na Argentina quando Montillo assinou contrato com o Tigre. E na própria terra natal, teve dificuldades para encontrar uma escola para Santino. O jogador chegou a desabafar em sua conta no Twitter que uma escola mentiu sobre a existência de vagas quando soube que o futuro aluno era portador de uma síndrome.

"Deu raiva porque a gente procurava escola para ele e no começo falavam que tinha vaga. Mas quando falávamos que ele tinha síndrome de down falavam que não tinha mais vaga. Saiu na imprensa, na TV, o caso ficou conhecido aqui em Buenos aires, aí que a gente conseguiu achar escola".

Depois de passar por tudo isso, Montillo se sente feliz e realizado pela trajetória de Santino. Mas tudo foi um aprendizado. "Você não espera um menino com capacidade diferente, ele chega. Eu não sabia como era síndrome de down, não sabia como era a luta com ele. A gente foi aprendendo. Para saber, tem que passar. E a minha esposa sabe ainda mais que eu, às vezes estou viajando, jogando. Fui aprendendo. É no dia a dia, é uma luta constante".

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

E ele sabe que essa luta ainda está longe do fim. Até agora foi só o primeiro tempo da partida. "Eu acho que a luta vai continuar por muito tempo. Graças a Deus ele está muito bem de saúde, está muito feliz, ele tem muitos amigos, brinca muito e eu fico muito feliz de vê-lo com um sorriso. Temos o primeiro tempo ganho. Falta o segundo tempo. Tomara que ele consiga ser independente, vamos tentar que ele seja o mais independente possível, que não precise muito da gente para desenvolver na vida. Esse segundo tempo é uma briga constante, vou ver lá no futuro se a gente conseguiu".

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