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Blogueiros: "vexame do River está ligado à decadência e ao futebol-colônia"

River Plate, do técnico Marcelo Gallardo, foi eliminado do Mundial pelo Al Ain - Andrew Boyers/Reuters
River Plate, do técnico Marcelo Gallardo, foi eliminado do Mundial pelo Al Ain Imagem: Andrew Boyers/Reuters

Do UOL, em Santos (SP)

20/12/2018 04h00

Na última terça-feira (18), o River Plate, atual campeão da Libertadores, foi eliminado de maneira vexatória do Mundial de Clubes da Fifa pelo modesto Al Ain, dos Emirados Árabes - ao contrário do Real Madrid, que passou pelo Kashima Antlers. O papelão entra para a história, mas já não é nenhuma novidade. O time argentino foi o quarto sul-americano a decepcionar nas semifinais do torneio: em 2010, o Internacional perdeu para o Mazembe, do Congo; três anos depois, foi a vez de o Atlético-MG cair para o Raja Casablanca, de Marrocos; já em 2016, o Atlético Nacional foi eliminado pelos japoneses do Kashima Antlers.

Diante desse cenário, o UOL Esporte resolveu pedir a opinião de seus blogueiros para tentar descobrir o que vem acontecendo com as equipes da América do Sul. E todos eles concordam que a derrota no Mundial ainda nas semifinais continua sendo uma vergonha. Além disso, eles veem os sul-americanos cada vez mais distantes dos europeus, acreditam que a corrupção influencia - e muito - e apontam que os vexames também estão ligados ao reflexo do "futebol-colônia". Confira?

Já não é mais zebra/vergonha a América do Sul perder na semifinal do Mundial?

ANDRÉ ROCHA

Já não é mais incomum. Mas continua sendo zebra e vergonha, sim. O River investiu muito e não há mais aquele longo hiato entre o título da Libertadores e a disputa do Mundial para perder jogadores e criar aquela expectativa absurda, com o clube vivendo meses em função de um torneio de duas partidas.

JUCA KFOURI

Vergonha é, mas deixou de ser zebra. Vergonha porque espelha o quanto ficou para trás o futebol na América do Sul, conformada com seu papel de exportadora de pé de obra.

MARCEL RIZZO

Não é mais zebra. Já não é possível mais um sul-americano ir ao Mundial pensando na final e no europeu. Esse é um dos problemas, inclusive. Certo menosprezo a outros rivais.

MENON

Continua sendo uma vergonha, sem dúvida. Mesmo que os países árabes e africanos tenham evoluído, os times da América do Sul têm obrigação de ganhar. Basta ver a escalação das equipes. O empate do Al Ain foi marcado por Caio, um brasileiro totalmente desconhecido em nosso país. Achar que não é uma vergonha é um grande passo para se acostumar com a derrota, é aceitar a mediocridade como companheira.

PERRONE

Não dá mais para chamar de zebra. A tendência é que esses confrontos sejam cada vez mais equilibrados.

PVC

É zebra. É vergonha. É preciso pensar sobre como evitar que novos vexames aconteçam.

RODRIGO MATTOS

Pelos resultados dos últimos anos, não é mais zebra um sul-americano perder na semifinal já que foram quatro eliminações desde 2010. Mas, para avaliar se é um vexame, temos que analisar quem é adversário. Não é um vexame perder para o representante da Concacaf ou mesmo para o campeão asiático. O campeonato mexicano tem o mesmo nível do Argentino e Brasileiro, o Japonês está abaixo, mas a diferença não é grande. Para um time do Oriente Médio, sim, pode ser classificado como uma derrota atípica.

O futebol da América do Sul está cada vez mais próximo de Ásia e África do que da Europa?

Enzo Perez - Giuseppe Cacace/AFP - Giuseppe Cacace/AFP
Imagem: Giuseppe Cacace/AFP
ANDRÉ ROCHA

Está cada vez mais distante da Europa em termos de evolução do entendimento do jogo. Não é só dinheiro. Sem crescer acaba ficando mais suscetível aos reveses contra qualquer um. Mas é óbvio que Ásia e África seguem evoluindo e, por consequência, a distância diminui ano a ano.

JUCA KFOURI

O futebol europeu é a NBA. Os demais se esforçam.

MARCEL RIZZO

Sem dúvida. Os melhores times da América do Sul têm nível muito próximo dos melhores da Ásia, Concacaf ou África. Os melhores jogadores dul-americanos, que são melhores, na média, que atletas da África ou Ásia, não jogam nos times da América do Sul, nivelando essas equipes por baixo. 

MENON

No Mundial de Clubes, sim. Foram quatro derrotas desde 2010. Mas essa aproximação não é respaldada pelo que se vê na Copa do Mundo, quando as seleções sul-americanas conseguem, ainda que com pouco tempo, reunir seus melhores jogadores.

PERRONE

A Europa abriu uma enorme vantagem em relação a todos os outros continentes. Só que o futebol sul-americano está cada vez mais decadente, enquanto outros mercados que eram bem inferiores se organizaram e melhoraram seu futebol.

PVC

O futebol de clubes está cada vez mais distante da Europa. Basta lembrar que em 1996, ano do caso Bosman, havia 20 títulos sul-americanos e 14 europeus. De la para cá, somando intercontinental com mundial, são 17 vitórias europeias e 5 sul-americanas. O escândalo é por causa da exportação de jogadores para a Europa. As quedas na semifinal por causa da obrigação de ganhar sem ter jogadores para isso.

RODRIGO MATTOS

O futebol europeu de clubes está em um patamar muito acima do restante do mundo e portanto a distância é maior do que da América do Sul em relação aos outros. Os times sul-americanos ainda são bem superiores aos africanos que não retêm nenhum jogador. Já em relação à Ásia, o Japão e China têm campeonatos abaixo dos sul-americanos, mas, em geral, seus melhores times podem fazer frente aos sul-americanos. 

Quem são os maiores culpados por essa decadência da América do Sul no Mundial?

ANDRÉ ROCHA

A cultura de Libertadores, com uma espécie de "futebol testosterona" preponderando, acaba tirando o foco da evolução do jogo. Mas a parte mental tem pesado também. O time sul-americano entra com toda a responsabilidade e já vive a ansiedade de desafiar o campeão europeu. Jogar tudo na semifinal e correr o risco de ficar de fora da partida mais esperada do ano? Esse dilema atrapalha.

JUCA KFOURI

Os cartolas dos clubes sul-americanos que pararam no tempo, basta ver os três últimos presidentes da CBF, eleitos por eles, e a última Libertadores da dona Conmebol.

MARCEL RIZZO

O principal problema é a perda precoce de bons jogadores, e não só mais para a Europa, mas China e futebol árabe, que por causa da Copa-2022.voltou a investir pesado. Mas não é só isso. O calendário também prejudica, o River praticamente emendou a final da Libertadores com o Mundial. 

MENON

Tamanha vergonha merece um estudo bem apurado. Talvez os treinadores e jogadores já projetem o grande jogo contra um europeu e entrem em campo sem o foco necessário. Agora, mesmo, dizia-se que, após muito tempo, um time da América do Sul poderia sonhar grande porque o Real Madrid vive um período instável tecnicamente, mas havia um Al Ain no meio do caminho.

PERRONE

A decadência é reflexo do caos que impera no futebol sul-americano. Cartolas irresponsáveis, tanto nos clubes como nas federações e na Conmebol, estão entre os principais culpados. São competições bagunçadas, calendários insanos, regulamentos esdrúxulos, clubes praticamente falidos, juízes incompetentes. Tudo isso colabora.

PVC

A corrupção é parte disso. Porque ela tira boa parte da possibilidade econômica. A falta de ambição e o futebol-colônia, que nos tornamos, também é.

RODRIGO MATTOS

Há dois fatores para a decadência sul-americana: 1) liberação de estrangeiros na Europa com a Lei Bosman o que incentivou venda em massa de atletas sul-americanos 2) corrupção e desorganização vista em clubes, federações e na Conmebol. Quando a Europa deu um salto com a Liga dos Campeões, a Conmebol vendia a Libertadores a preço de banana para seus cartolas receberem por fora. Dentro dos clubes, só recentemente há exemplos de clubes que se ajeitaram administrativamente. Com a casa arrumada, a América do Sul não vai atingir a Europa, mas tende a pelo menos superar os adversários de outros continentes.

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