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Lea T: "Não queria falar que eu era Cerezo por medo de prejudicar meu pai"

Agência Brazil News
Imagem: Agência Brazil News

Karla Torralba

Do UOL, em São Paulo

27/10/2018 04h00

Lea T e Leandra Cerezo hoje são “tudo uma só”, como brinca a própria. Mas nem sempre foi assim. No início da carreira de modelo, em 2010, ela teve medo que o preconceito por ser mulher transgênero prejudicasse a carreira do pai famoso, Toninho Cerezo, ex-jogador que defendeu o Brasil em duas Copas do Mundo e, hoje, é técnico de futebol.

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“Tive medo por causa do futebol. Meu nome não foi Leandra Cerezo inicialmente, porque o Riccardo me ajudou, mas também porque eu não queria que falassem que eu era Cerezo. Eu tinha medo de que isso pudesse prejudicar a carreira do meu pai”, contou em entrevista ao UOL durante desfile de comemoração dos 30 anos da Le Lis Blanc, em São Paulo, na última semana.

Riccardo é Riccardo Tisci, estilista italiano, na época à frente das criações da grife francesa Givenchy. Foi ele quem ajudou Lea a conseguir o primeiro emprego no mundo da moda: uma campanha para a conceituada Givenchy.

Lea T, filha de Toninho Cerezo, na campanha para a Givenchy - Reprodução - Reprodução
Lea T, filha de Toninho Cerezo, na campanha para a Givenchy
Imagem: Reprodução

O presença de Lea na campanha foi tão impactante no mercado que, apenas dois meses após a campanha, Lea posou nua para a "Vogue Paris", a bíblia da moda. A partir dali, a carreira decolou, com mais campanhas, desfiles para as principais grifes, editorais e capas de revistas como "Love", "Grazia", "Elle", entre outras. “Ficou Lea T por causa do meu amigo. Ficou o T, foi a mãe dele que me deu, uma pegada de família. Não voltou o Cerezo, mas é tudo um”, disse sorrindo.

Lea T. e Kate Moss na capa da revista "Love" - Reprodução - Reprodução
Lea T. e Kate Moss na capa da revista "Love"
Imagem: Reprodução

A aceitação da família foi um processo e Lea exalta o carinho do pai Toninho Cerezo. “Meu pai foi tão maravilhoso que, quando falaram isso [dele ser prejudicado na carreira por causa da filha] ele me ligou: ‘Lea, eu posso perder todo o trabalho do mundo, ir para rua, mas terei orgulho de ser seu pai e não quero que pense que sua felicidade tem que depender do meu trabalho’. Para o meu pai e minha mãe, a minha felicidade é a deles”.

Apesar da proteção do pai, Lea T acredita que o pai perdeu, sim, trabalhos como treinador por sua causa. “Ele não me conta, mas eu descobri que sim. Eu não tive prova de coisas, mas eu acho que em algum aspecto tiveram reações negativas. Ele nunca me contou e acho que não me contaria. Ele não gostaria que isso fosse um peso. Uma escolha tão forte na minha vida”.

Antes de a família aceitar que Lea era mulher trans, a modelo passou por momentos de reflexão e medo. “Eu não desejo a ninguém, mas infelizmente a realidade existe e isso me serviu muito. Eu vivia em um castelo de fadas. Eu era filhinha de papai, privilegiada, com pai famoso, rico e, de repente, eu me vi por um tempo em uma situação em que pensei ‘calma, não é bem assim’. Eu me vi numa situação como todas”. Pessoas transgênero figuram entre grupos socialmente vulneráveis, principalmente pela dificuldade de aceitação da família. Nos Estados Unidos, por exemplo, a estimativa é de que 20% da população viva em situação de risco, na rua.

Lea T - Carol Caminha/GShow - Carol Caminha/GShow
Lea T e Toninho Cerezo em participação no Conversa com Bial
Imagem: Carol Caminha/GShow

Lea explica que teve medo de não conseguir trabalho por conta do preconceito. Quando descobriu que muitas mulheres transgênero acabavam se prostituindo por não arrumar outro trabalho, a modelo resolveu levantar a bandeira de vez e lutar não só por ela, mas pelo próximo. Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), cerca de 90% das mulheres trans recorrem à prostituição em algum momento da vida.

“É triste viver essa realidade e se sentir sozinha em um certo aspecto. Antes de conversar com minha família, o meu medo era ser rejeitada e abandonada, que é o que acontece, infelizmente. Eu não estava criando e fantasiando, estava me orientando como grande parte da estatística. Eu tive a benção de ter conseguido de novo uma resposta positiva com minha família”, explicou.

“Eu entendi que isso acontecia com outras meninas e meninos. A coisa me tocou. Eu prometi não esquecer o que aconteceu comigo e foi ali que comecei, que prometi lutar pelo direito das pessoas que não estão tendo esse direito. Para mim, foi muito importante e amadureci muito. Coloquei o pé no chão e entendi a realidade”, ressaltou.

Em 2017, Lea foi escolhida como uma das embaixadoras da campanha #ElesPorElas, versão brasileira do movimento "He For She", da ONU Mulheres, que trabalha pela igualdade de gênero e o empoderamento feminino. Em seu vídeo para as Nações Unidas, Lea pergunta: "Se uma mulher já sofre preconceito, imagina quem precisa lutar para ser reconhecida como mulher?", ampliando o foco da campanha também para a transfobia.

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