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Ex-Corinthians, Gléguer vira técnico campeão na 3ª divisão da Coreia do Sul

KFA
Imagem: KFA

Fábio Piperno

Colaboração especial para o UOL

20/10/2018 04h00

Do outro lado do mundo, o ex-goleiro Gléguer ganhou o primeiro título como técnico. Ele comanda desde o ano passado o Sihueng FC, que acaba de se sagrar campeão da terceira divisão da Coreia do Sul. A conquista veio no início de outubro, na penúltima rodada da competição, disputada por 12 equipes. Valorizado pela excelente campanha, o técnico tem proposta para renovar. Mas o assédio de clubes chineses, que tradicionalmente recrutam técnicos no futebol sul-coreano, pode fazê-lo novamente mudar de país.

Gléguer é campeão na Coreia do Sul - KFA - KFA
Gléguer é jogado para o alto por seus jogadores após título do Sihueng
Imagem: KFA
O prestígio do técnico está em alta com os torcedores, e principalmente, com o dono do clube. O controle do Sihueng FC pertence a um sul-coreano que Gléguer conheceu por acaso no Brasil em 2012, logo após defender o Bragantino e encerrar a carreira de jogador profissional - iniciada no Guarani e que teve passagens por Corinthians, Portuguesa, Vitória e América-MG, entre outros. Na época, o empresário estava contratando um grupo de jogadores brasileiros sem vínculos com clubes para uma série de jogos amistosos na Coreia do Sul.

Para fechar o time, faltava um goleiro. Gléguer foi convidado a integrar a caravana. Encerrada a excursão, retornou ao Brasil para trabalhar como treinador dos goleiros do Guarani. Alguns anos depois, foi procurado pelo mesmo empresário. Ele tinha se tornado o novo controlador do pequeno Siheung FC, um modesto time da terceira divisão.

De início, Gléguer imaginou que a intenção fosse levá-lo para trabalhar como treinador de goleiros do clube, área em que há carência de especialistas em todo o futebol oriental. Para sua surpresa, o emprego era para função de auxiliar-técnico. Aceitou prontamente o desafio a temporada de 2017 estava para começar quando ele chegou ao país e se instalou em com a esposa e a filha em Siheung, cidade a cerca de 45 minutos de metrô da capital Seul.

Mal o campeonato havia começado e o técnico principal da equipe acabou saindo, seduzido por uma proposta para trabalhar na China, o novo eldorado do futebol oriental. Em vez de trazer outro profissional, a direção decidiu apostar em Gléguer. Ao final da temporada de estreia, o brasileiro quase levou o time ao acesso (que escapou na reta final).

A recompensa veio agora. O Siheung fez ótima campanha e esteve perto de assegurar o título na antepenúltima rodada. Um gol sofrido aos 43 minutos do segundo tempo adiou em uma semana a comemoração. Por fim, no jogo seguinte, a equipe de Gléguer venceu em casa o Buyeo Gun por 2x1 e ficou com o título por antecipação. Na partida decisiva, o Siheung não contou com o brasileiro do elenco, o atacante Rodrigo, que atuou por Londrina e Rio Claro antes de desembarcar há cinco anos no futebol sul-coreano.

Siheung City, do técnico Gléguer - Siheung City FC - Siheung City FC
Siheung City, o time do agora técnico Gléguer
Imagem: Siheung City FC
O Siheung entrou em campo com a situação bem tranquila. A vantagem para o vice-líder era de seis pontos, mais uma confortável diferença no saldo de gols. Mesmo assim, havia certa apreensão por conta da derrota no jogo anterior. Na comemoração após o final do jogo, o técnico brasileiro era o mais festejado do grupo, carregado e atirado para cima pelos jogadores.

Em campo, Gléguer dava instruções para os jogadores por meio de um dos dois intérpretes que o acompanham. Um deles chegou a morar no Brasil. A dupla ainda é fundamental na vida do técnico, que fala poucas palavras em coreano. Em casa, o idioma já é mais bem assimilado graças à filha de 11 anos do ex-goleiro. "Antes, nos restaurantes, só conseguíamos pedir um prato quando era possível identificá-lo pelas fotos. Agora, nossa filha consegue conversar em coreano. Está falando bem", diz, orgulhoso.

Por conta da barreira do idioma, Gléguer enfrentou algumas dificuldades no cotidiano. No metrô, por exemplo, chegou a desembarcar em destino errado por não compreender mapas de itinerário e não conseguir se comunicar. Para evitar percalços comuns a estrangeiros que não conhecem a língua do país, agora raramente sai de casa sem ter ao lado um dos intérpretes que o acompanham. Ou a filha.

No trabalho é diferente. Bem integrado ao clube, elogia as condições oferecidas. A cidade onde mora, que considera de excelente padrão, fica a pouco mais de 100 quilômetros da zona desmilitarizada que separa as Coreias do Sul e do Norte. "Chegamos a fazer amistosos em um Centro de Treinamento de onde era possível ver as cercas da área desmilitarizada. Mas nunca fui além dali. Não cheguei a conhecer a Coreia do Norte".

O técnico diz que há momentos de tensão por conta da rivalidade com o vizinho do norte, mas que as hostilidades não mudam a rotina da população e do futebol. "A Coreia do Sul é um país pronto para a guerra, mas não há receio de que isso realmente aconteça. Há jogadores que servem o Exército durante o dia. É obrigatório. Ficam lá por dois anos. Um dos meus intérpretes foi motorista do Exército".

Em lua-de-mel com o clube e torcedores após a conquista, o técnico por enquanto não confirma a renovação. "Vamos conversar com calma", diz ele.

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