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'Time de garis' e início invicto ajudam Bielsa a se revigorar na Inglaterra

Site oficial do Leeds United
Imagem: Site oficial do Leeds United

Thiago Rocha

Do UOL, em São Paulo (SP)

23/08/2018 04h00

Marcelo Bielsa não confirmou, mas também não desmentiu. O meia-atacante Pablo Hernandez disse que foi verdade. De acordo com o jornal britânico "Guardian", o técnico argentino, em seus primeiros dias de trabalho no Leeds United, quis saber por quanto tempo em média um torcedor precisa trabalhar para comprar ingresso para um jogo. Após ler e calcular, chegou a um resultado: três horas. Então, ele reuniu o elenco e exigiu que todos recolhessem o lixo no entorno do centro de treinamento do clube por três horas. O objetivo era fazer com que os jogadores valorizassem o esforço que a torcida faz diariamente para vê-los em campo.

A história se junta a outras dezenas de lendas vinculadas a Bielsa, que não recebeu o apelido de El Loco por acaso. Perfeccionista, fascinado por táticas, ele trata o futebol como uma matéria acadêmica. A filosofia de trabalho do argentino influencia até hoje grandes treinadores da nova geração, como Diego Simeone, Jorge Sampaoli, Mauricio Pocchetino, com quem trabalhou como jogador no Newell's Old Boys, e Pep  Guardiola, que fez estágio com o técnico na Argentina, em 2006.

Mas Bielsa paga um preço caro por sua genialidade, aliada a um forte temperamento, que fizeram com que os seus últimos trabalhos, promissores na teoria, virassem uma bomba-relógio na prática. A falta de resultados também pesa. São apenas quatro títulos em quase três décadas de carreira, o último em 2004, quando levou a seleção da Argentina à medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas.

Aos 63 anos, Marcelo Bielsa entrou em processo acelerado para virar apenas uma ideia de futebol, de tática e de estilo de jogo. O que não é bom, necessariamente. De que adianta criar conceitos que inspiram os outros, mas que não trazem sucesso à própria carreira de treinador?

A saída para o argentino revigorar a carreira pode estar na segunda divisão da Inglaterra, com o Leeds United, um gigante adormecido igual a Bielsa. Camisa com tradição, três vezes campeão nacional, a última na temporada 1991-92, o clube sonha em retornar à Premier League depois de 14 anos. No período de decadência, quase faliu e teve três donos diferentes.

Na temporada passada, o Leeds ficou em 13º lugar, distante de qualquer possibilidade de sonhar com o acesso à elite.

Há dois meses na nova casa, Bielsa já registrou o melhor início da história de um treinador pelo Leeds, invicto após cinco jogos. Foram quatro vitórias e um empate, obtido na última terça-feira (21), ao ficar no 2 a 2 com o Swansea, fora de casa. A equipe do norte da Inglaterra lidera a Championship, com 10 pontos.

Neste "recomeço", Bielsa se permitiu até abrir mão de uma de suas marcas registradas: o 3-3-1-3, sistema de jogo com status mítico entre os seguidores de El Loco. Na segundona inglesa, o treinador adaptou suas ideias a um esquema clássico entre os times do país: o 4-3-3.

O início é promissor, mas o mundo peculiar de Bielsa é dinâmico e impulsivo, como mostram os seus últimos trabalhos. Em 2015, após bom trabalho na temporada anterior, El Loco deixou o Olympique de Marselha após perder o primeiro jogo do campeonato. Em 2016, a passagem pela Lazio durou dois dias. Ele desistiu do acordo porque sentiu "que as coisas não estavam bem". No ano passado, chegou ao Lille com carta branca para contratar, mas foi demitido em dezembro, após intenso conflito com a diretoria do clube francês, que lutou para não ser rebaixado até a última rodada.

Ao Leeds United, neste momento, resta desfrutar do que Bielsa tende a oferecer e torcer para que o novo desafio na carreira não se torne mais uma de suas loucuras.

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