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Cirurgia ou tratamento conservador: o que está em jogo no futuro de Neymar?

Neymar chorou após se machucar na partida entre PSG e Olympique de Marselha no domingo - REUTERS/Stephane Mahe
Neymar chorou após se machucar na partida entre PSG e Olympique de Marselha no domingo Imagem: REUTERS/Stephane Mahe

Gabriel Carneiro

Do UOL, em São Paulo

28/02/2018 11h47

Uma reunião entre Paris Saint-Germain, seleção brasileira e o estafe do atacante Neymar decidiu nesta quarta-feira que o atacante terá de ser operado para correção de uma fissura no pé direito. Com a decisão, Neymar espera alcançar recuperação total de seu problema físico, o que exigiria cerca de dois meses sem atuar. A possibilidade de um tratamento conservador, sem intervenção cirúrgica, era defendida pelo PSG em um primeiro momento, mas o clube acabou concordando com a opção pela cirurgia. 

As dúvidas sobre o que está em jogo para o futuro de Neymar mobilizaram torcedores ao redor do mundo. E também levantaram debates entre profissionais da medicina esportiva sobre a viabilidade do tratamento conservador em detrimento da cirurgia para lesões desta natureza: a opção então defendida pelo PSG poderia atrapalhar o camisa 10 da seleção na Copa do Mundo? A não realização de cirurgia aumentaria os riscos de retorno da lesão?

Osso metatarso - Divulgação/Pés_sem_dor - Divulgação/Pés_sem_dor
Quinto metatarso é o último osso do lado externo do pé, antes dos ossos do mindinho
Imagem: Divulgação/Pés_sem_dor

Renê Jorge Abdalla, ortopedista e diretor médico do Hospital do Coração (HCor), tem na lembrança um caso semelhante ao de Neymar ocorrido em 2010, em seu trabalho como consultor médico do São Paulo. Revelação do Campeonato Brasileiro de 2009 pelo Grêmio Barueri, o atacante Fernandinho foi contratado pelo Tricolor no ano seguinte, mas demorou para estrear justamente por conta de uma fissura no quinto metatarso do pé direito. Na ocasião, o clube optou pelo tratamento conservador, mas acabou mudando para a cirurgia.

"Primeiro tentamos com imobilização e retirada de carga, mas (a fissura) não consolidou. Então optamos pela cirurgia, em que a técnica não é muito complicada. Coloca-se um parafuso em meio a dois fragmentos ósseos, o que dá compressão e promove uma cicatrização mais anatômica e rápida. Me lembro que o técnico era o Ricardo Gomes e ele queria o Fernandinho de todo jeito, mas o prazo era de oito semanas. Ele disse que se eu entregasse em quatro ou seis semanas ele pagaria um jantar. Colocamos pronto em seis semanas e ele cumpriu a palavra (risos)", conta Abdalla, ao UOL Esporte.

O especialista alerta que a decisão depende muito do tipo de lesão. "Tudo depende da intensidade da fratura ou fissura no exame de imagem, se é completa ou incompleta e se tem ou não desvio, porque se tiver pode acontecer de não consolidar, não grudar em caso de tratamento sem cirurgia. Se for uma fissura sem desvio, tratar conservador é uma boa solução. Mas se o osso se separa totalmente não vejo alternativa melhor que a cirurgia, porque você coloca tudo no lugar e dá compressão com parafusos próprios no foco do problema e induzindo uma cicatrização mais rápida, minimizando muito a chance de acontecer de novo. Veja bem que estamos no campo da especulação, sem acesso a exames", disse.

O quinto metatarso é o último osso do lado externo do pé (no dedinho do pé), exatamente antes das falanges, que são os ossos que formam os dedos. Existem duas modalidades em termos de fratura ou fissura: por estresse (relacionada a movimentos de repetição e sobrecarga) ou na base, geralmente ocasionadas por entorse, como foi o caso de Neymar. Se este problema ocorre na vida de uma pessoa "normal", é possível tratar só com retirada de carga e imobilização. Mas mesmo assim existe a chance de não haver cicatrização e a cirurgia ser necessária, de acordo com especialistas. Em caso de atletas profissionais geralmente evita-se que o risco seja corrido e a opção é por uma fixação mais bem feita.

De 2015 para cá, o Fluminense teve sete casos diferentes de lesões no quinto metatarso dos pés de seus jogadores. Todos foram cirúrgicos. Douglas Santos, coordenador médico do clube, explica que o problema é comum e o tratamento conservador acarreta riscos que a cirurgia não tem.

"É a forma de reabilitar com mais segurança e a chance de dar errado é menor. A diferença é o local da fratura: quando é mais proximal, bem na base, cabe tratamento conservador. Quando é distal da base do quinto metatarso é 90% cirúrgico para o atleta, porque o conservador teria um risco de demorar mais na consolidação e ter recidiva. Mas não é uma lesão tão incomum, pelo contrário. Porque ela se dá pelo esforço repetitivo em um local de muito atrito do pé do jogador com o solo, e esse atrito leva a um estresse naquela região do osso, o que leva à fratura", explicou o profissional do Fluminense.

O Corinthians também viveu um caso semelhante ao de Neymar em 2013: operar ou não uma fissura no pé do atacante Guerrero? No caso do peruano, o problema foi uma avulsão óssea, ou fratura por avulsão, em que uma parte do osso é quebrada, ou "rasgada". O jogador teve a lesão diagnosticada e iniciou tratamento conservador no CT do Corinthians. Ele teve evolução no processo de recuperação, mas após duas semanas as dores voltaram e foi feita a opção pela cirurgia. Lesionado em outubro, ele só voltou ao futebol em 2014.

"Você pode tratar conservadoramente para ver como vai reagir. Porque se agride cirurgicamente pode acabar prejudicando o jogador. Muitas vezes a agressão cirúrgica agride mais que a própria lesão. Se há uma fratura incompleta, por exemplo, não tem necessidade de operar. E mesmo operando corre-se o risco de ter problema. Não é "operou, está resolvido". Cirurgia tem risco de infecção e de não consolidação também. Precisa de calma, porque não é matemática, é corpo humano", avaliou Joaquim Grava, consultor do departamento médico do Corinthians, e que vê o departamento médico dos clubes como responsáveis pela última palavra em casos do tipo.

"Você pode dar opções ao paciente, porque tem fraturas que podem ser tratadas conservadoramente ou cirurgicamente. Qual sua opção? Há fraturas que não têm opção, aí depende das vistas do exame. Mas uma agressão cirúrgica é sempre uma agressão cirúrgica".

Neymar se lesionou no último domingo, durante partida contra o Olympique de Marselha pelo Campeonato Francês. O brasileiro tomou a decisão de realizar cirurgia após exames que diagnosticaram a fissura no quinto metatarso do pé direito, mas o PSG não confirmou de imediato. A decisão só foi confirmada após reunião entre as partes e que teve a presença do médico Rodrigo Lasmar, da CBF.

A expectativa é que Neymar volte aos gramados em maio a tempo de disputar as últimas partidas do Campeonato Francês e a semifinal e a final da Liga dos Campeões, caso o PSG atinja tal fase.

O atacante Gabriel Jesus, companheiro de Neymar no ataque da seleção brasileira, passou por uma cirurgia no mesmo local (quinto metatarso do pé direito) após sofrer a lesão na partida contra o Bournemouth, em 13 de fevereiro de 2017. Ele voltou a treinar em sete semanas, mas foi relacionado pelo técnico Pep Guardiola apenas para um jogo no dia 28 de abril, dois meses e meio após a cirurgia.

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