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Ex-técnico do Atlético-PR abre bastidores e quer time grande no Brasil

Fabiano Soares conta bastidores no Atlético-PR: ele quer voltar ao futebol brasileiro - Arquivo Pessoal
Fabiano Soares conta bastidores no Atlético-PR: ele quer voltar ao futebol brasileiro Imagem: Arquivo Pessoal

Napoleão de Almeida

Colaboração para o UOL

20/02/2018 15h49

Fabiano Soares dirigiu o Atlético Paranaense no último Campeonato Brasileiro e marcou por vender a imagem de ser um europeu trabalhando no Brasil. Mas o carioca de 51 anos, quase 30 deles vividos entre Espanha e Portugal – o que lhe rendeu o sotaque ibérico que o caracteriza hoje – quer mostrar que é possível unir o idealizado em debates nas mesas redondas do País: o estilo brasileiro com os métodos de treinamentos da Europa.

Ele teve sondagens recentes do Paraná Clube e chegou a ser especulado em Santos e Botafogo, mas não fechou contrato.

O UOL Esporte falou com o Soares, que voltou para a Espanha enquanto espera por propostas. No papo, ele abriu a “caixa preta” dos tempos de Furacão, onde passou com alguma polêmica, seja pelos métodos atribuídos a ele no comando da equipe, pelas rusgas públicas com o meia Felipe Gedoz ou seja pelo sotaque que marcava as coletivas – entrevistas, aliás, das quais ele sentiu falta: “Eu estava pisando em ovos”, disse o treinador.

UOL Esporte – Fabiano, por que voltar a trabalhar no Brasil?
Fabiano Soares - Estou desde 1989 aqui, na Espanha. A minha mãe está velhinha, pede para que eu volte... é a vontade de trabalhar no Brasil, de ensinar um pouco o que vivi aqui. Eu sou um brasileiro, não um europeu, mas que sei como eles se comportam. Tive a sorte de trabalhar e aprender aqui e espero que outros venham.

UOL – Quais as diferenças entre conduzir um time no Brasil e na Europa?
FS - Logicamente o brasileiro tem mais imaginação, são jogadores mais criativos. Mas na hora do tático, são pouco trabalhados. Você tem mais dificuldade em organizar a equipe na hora de defender ou de atacar. Precisa de mais organização, de uma melhor escolha. Alguns são muito verdes ainda, foi trabalhoso taticamente. Como eu fui para um time grande, imaginei que eles estariam melhor trabalhados. Mas me custou muito, por que não era assim. Lógico que não são todos, alguns você diz duas coisas e já pegam.

Soares 1 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Soares dirigiu o Atlético em 26 jogos em 2017
Imagem: Arquivo pessoal

UOL – Como você avalia sua passagem pelo Atlético?
FS - Foi boa, eu peguei uma equipe na zona de rebaixamento (NR: na verdade, na 14ª posição, encerrando na 11ª), jogando de uma maneira, tive a coragem de assumir, trocar a maneira de jogar, propor sempre o jogo, por mais que estivesse mais exposto. De propor aos jogadores, que confiaram em mim, de buscar a vitória sempre. A equipe ficou na Sul-Americana, mas falhou em quatro pênaltis e se tivéssemos feito estaríamos na Libertadores ou na prévia. Mas foi boa a experiência e quero exaltar uma pessoa que estava ao meu lado, que foi o Paulo Autuori.

No início eu tinha uma ideia de jogo, mas o Paulo falava: “Não renuncia a tuas ideias, mas com alguns ajustes. O futebol brasileiro é diferente do europeu. Só te digo isso, o resto você sabe.” Alguns ajustes tive que fazer e me valeu para depois a equipe funcionar.

UOL – Como foi essa experiência aqui no Brasil? Por muitas vezes víamos que você não conseguia passar ao público as ideias de jogo, especialmente nas entrevistas.
FS - Eu cheguei e o clube tinha uma forma de atuar com a imprensa e seus torcedores, e eu logicamente vindo de longe tive que respeitar e foi assim, respeitei. É um pouco diferente, por que às vezes havia rumores que não eram certos e nós gostaríamos de falar, de esclarecer, mas eu sabia que o clube tinha uma maneira de ver as coisas e eu respeitei. Algumas vezes me faltou um pouco de dialogo público para aclarar algumas coisas. Eu lembro que quando cheguei a equipe vivia um risco de descenso e uma briga entre torcida e direção. E algumas notícias não eram verídicas e nos molestavam, mas tive que aceitar as normas do clube, por mais que não concordasse.

UOL – Como era a relação com o DIF, o departamento que idealizava o modelo de jogo do time?
FS - Sinceramente, eu quando fui contatado pelo presidente... depois o Paulo teve... quando saiu o Eduardo (Baptista, ex-técnico), ele (Paulo) saiu, houve a chance dele voltar e tivemos uma reunião, no Rio de Janeiro. Ele explicando um pouco do modelo de jogo que estavam praticando, e era bem parecido com o que eu queria. Mas a proposta do Paulo era propor o jogo, de ter iniciativa para isso, tentando ganhar os jogos. Coincidiu com o que eu pensava, cada treinador tem seus ajustes, mas foi muito parecido. O Autuori filtrava muito bem as coisas, o clube tem uma estrutura impressionante. Muito passava pelo Paulo e ele não deixava chegar até a mim.

UOL – Mas você teve que lidar com jogadores que eram cortados pela EXOS, que fazia a preparação física? Teve problemas com isso?
FS - Sim. Tivemos alguns... a EXOS trabalha muito bem, mas tive alguns encontros com eles com algumas coisas que eu não estava de acordo. Eu sei que passou algumas coisas anteriores a mim, mas a mim não me importava. Eles opinavam, mas se eu tivesse de acordo, perfeito. Se não, eu ia pela minha experiência e levava o jogador comigo.

UOL – Outra passagem que marcou foram as discussões sobre o meia Felipe Gedoz. O que aconteceu?
FS - O Gedoz é uma das mentiras que aconteceram e se tornou uma bola de neve e eu gostaria de aclarar. Quando eu cheguei ele estava afastado, não servia para o clube, perfeito. Depois eu tentei com o Autuori e com a direção parta que revisse a situação dele, por que ele tinha qualidade.

E foi assim, ele começou a treinar, mas tem um grande problema: o jogador brasileiro gordo, com sobrepeso. Estão desde janeiro competindo e está com sobrepeso? Logicamente não aguentava todo jogo. Às vezes tinha um problema físico, eu queria colocar desde o início e não dava. E ficou isso de que o “Fabiano não gostava dele”, é a maior mentira. Eu é que tirei ele do castigo, eu que dei minutos a ele. Mas muitas vezes ele não aguentava jogar por problemas que internamente sabíamos e não saiam para fora. E chegou um tempo em que a própria torcida sentiu e esfriou o tema. Só acho que ele deveria cuidar do tema do peso, por que ele é muito bom jogador, novo.

UOL -  E quais situações você gostaria de esclarecer agora?
FS - Eu acho que ele (Gedoz) sabia que fui eu que trouxe ele de volta, apesar do grupo ter algumas restrições com ele por algumas coisas que ele fazia. Outras coisas eu acho que não, a preparação física logicamente eu tive problema, mas levamos bem, sinceramente, não lembro de outra coisa.

UOL – Você levou a campo mais de 20 formações diferentes.
FS – É, eu sempre questionava, é muito difícil ter uma equipe base. Tem que ter 16 titulares. Mas o problema eu acho que eram as condições físicas. O pessoal reclamava que não pôde fazer pré-temporada e os jogadores iam caindo de intensidade toda semana. Eu queria mais intensidade nos jogos, nos treinamentos, e se você não está tão preparado começa a ter goteiras, a ter lesões, e aí vira um problema.

UOL -  Por que você não ficou no Atlético?
FS - Não fiquei por que, claro, o Paulo Autori era o meu chefe direto. O próprio Petraglia era o chefe dos chefes, mas o Paulo era uma pessoa muito querida por mim e foi uma pessoa que deu uma força para aceitar o convite e eu achava que não era ético seguir sem ele.

Saiu na imprensa quase um mês antes que ele ia sair, pedi uma reunião com ele e avisei que ia sair também, por respeito a uma pessoa que me deu tanto, por agradecimento. No dia em que o Paulo me comentou e eu disse que também não queria ficar, já o avisei e o Paulo disse que ia transladar as palavras ao (vice-presidente) Marcio Lara e eu imagino que ele falou, por que depois do jogo do Palmeiras eu só tive uma última conversa com o Lara, que perguntou se eu estava indo embora e nos agradecemos por tudo. E ele disse que ia mandar uma nota de imprensa e foi o que aconteceu.

UOL – Você nem pôde se despedir.
FS - No último jogo foi o Paulo que deu a entrevista, logicamente que a minha última entrevista foi na sexta dois dias antes. Os seus companheiros de imprensa perguntaram se eu ia ficar e eu disse que já tinha tomado a minha decisão, e como o clube não tinha anunciado nada, eu não quis passar à frente do clube. E no domingo como saiu o Paulo, não pude me despedir mas, tranquilo, vida que segue e o futebol é assim mesmo. Mas aqui está uma oportunidade de agradecer.

UOL – E você teve convites para dirigir outro clube brasileiro?
FS - Sinceramente houve rumores de possibilidade, mas como não firmou, mas não sei se falaram com o pessoal que eu trabalho. Santos, Botafogo, mas não se concretizou, mas imagino que não seria verdade, por quando se interessa, ligam e falam.

UOL – Você se vê em um clube brasileiro de ponta, que brigue por títulos?
FS - Sinceramente é o que eu quero. Eu tenho formação e capacidade de treinar uma equipe de ponta, lutar para ganhar títulos. Tenho uma formação boa, experiência dentro de campo e fora para formar uma equipe e me darem a possibilidade de treinar uma equipe que lute por um título e mostrar que estou capacitado.

UOL – E o que um clube brasileiro ganharia com você? Portas no mercado europeu, por exemplo?
FS - Sim, inclusive quando eu cheguei pude contar um pouco com o Otávio que logo em seguida foi pro Bordeaux. A equipe que me der possibilidade vai ter um treinador que treina parecido com os europeus, com exigências iguais de intensidade e tática, e isso facilita a adaptação dos jogadores. E com meus conhecidos aqui (na Europa) aumenta a possibilidade receber pedido de informações, coisa que sempre acontece.

UOL – E esse sotaque misturado aí (risos)? Te atrapalhou um pouco aqui, não?
FS - Muito, lá em Portugal me sacaneavam bastante (risos). Claro, estive muito tempo na Espanha, meus comandos são todos espanhóis (risos)! Eles achavam um pouco graça, mas foi custoso pra mim mas depois de um tempo fui me adaptando e falando com brasileiros, mas mesmo assim ainda solto bastante termos em espanhol que as vezes vocês mesmos pensam, “que caralho tá falando esse?”

UOL – Como “o Atlético tem que jogar impressionante”.
FS – Isso (risos). “Pressionante”, que pressione muito.

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