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Quem é a vice-presidente do Corinthians eleita na chapa de Andrés Sanchez

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

17/02/2018 04h00

Corintiana fanática há décadas e sócia do clube desde o nascimento, Edna Murad, é uma mulher de hábitos comuns, segundo ela mesmo. Professora de português e mãe de quatro filhas, ela terá agora de conciliar a rotina com o cargo de vice-presidente do Corinthians.

Eleita após a vitória de Andrés Sanchez nas eleições alvinegras, Edna recebeu a reportagem do UOL Esporte no Parque São Jorge, falou sobre a nova posição que ocupa no clube e descartou que siga os passos de Marlene Matheus, presidente do Corinthians entre 1991 e 1993.

Conselheira desde 2006, Edna frisa que pode se tornar uma voz das mulheres em um ambiente predominantemente masculino. A vice-presidente também comentou a saída de Maria de Lourdes Mattavo, que foi anunciada com uma das vices durante a campanha, mas acabou substituída por Alexandre Husni.

UOL Esporte - A Marlene Matheus é uma inspiração para você na política do Corinthians?
Edna Murad - Tenho bastante respeito pela Marlene. Ela foi presidente, mas ela foi presidente numa época em que o Vicente Matheus estava vivo. E a gente sabe que quem dava as cartas era ele mesmo. Mas de qualquer maneira ela é uma figura importante aqui no clube. Ela foi a primeira mulher presidente. Temos de ter respeito por ela.

Você tem contato com ela?
Não, ela é de outro grupo político, embora há algum tempo ela estava apoiando o Andrés. Ela escolheu outro grupo, isso é democracia, cada um tem suas escolhas.

Quais são suas referências no esporte ou até mesmo na política?
Tenho referências. Eu trabalho num ambiente que tem muitas mulheres. Tenho referências no meu trabalho, mulheres que são diretoras de escola. São supervisoras de ensino. Mulheres que são deputadas, senadoras. A gente se inspira nelas. Não foi fácil para elas chegarem onde chegaram. E tem a minha avó também, que já faleceu. Ela era síria, uma mulher à frente do tempo. Ela era muito forte.

Quais nomes ligados à política?
Prefiro não abordar o tema político.

Quando você virou sócia do clube?
Quando eu nasci, no título do meu pai. Minha mãe faleceu muito jovem e meu pai ficou para baixo e deixou de vir ao clube. Depois, no meu próprio título, em 1978. Sempre frequentei, desde menina. Depois vinha com as minhas filhas. Agora sou avó e venho com a minha neta.

Como você ingressou na política do clube?
Havia eleições aqui, mas sempre era chapa única. Era um negócio esquisito até. Vinha votar para referendar. Não me envolvi antes porque tenho quatro filhas e elas eram pequenas. Na correria não dava. Em 2006 começou a Renovação e Transparência [grupo político de Andrés Sanchez] e comecei a participar das reuniões. Fiz parte dos chapões e fique na Renovação por três mandatos consecutivos. Foi a partir do período que a minha filha caçula tinha 15 anos. Tive mais tempo para me dedicar. Gosto muito de participar.

Qual é a sua profissão?
Dou aulas. Sou professora na escola pública, municipal e estadual. Sou professora de português e da educação infantil. Na rede estadual trabalho com alunos do ensino médio e na municipal com os pequenininhos. Estou quase para me aposentar. Minha vida é bem comum.

Como vai conciliar?
Eu vou vir a maioria dos dias, no fim de tarde, começo da noite. Vai dar certo. Eu vinha mesmo sem ser vice-presidente.

Andrés - Daniel Vorley/AGIF - Daniel Vorley/AGIF
Edna Murad (à esquerda) ao lado de Andrés Sanchez no CT Joaquim Grava
Imagem: Daniel Vorley/AGIF

Como você conheceu o Andrés? E como se deu o convite para ser a vice da chapa?
Aqui no clube mesmo. Na chapa, quando a gente começou. O grupo me convidou e levei até um susto. Mas eu fique feliz, apesar de ficar apreensiva. Pensei em aceitar porque iria representar as mulheres aqui do clube. É um jeito de participar das decisões.

Como viu a saída da Maria de Lourdes da chapa?
A saída da Maria de Lourdes foi uma decisão colegiada e que não se deve à questão de gênero. Mas não podemos negar que a Renovação e Transparência é a única com presença feminina. Isso comprova que estamos numa sociedade machista que precisa mudar.

A senhora pensou em deixar a chapa como forma de solidariedade?
Não deixaria de ocupar esse espaço e de aproveitar a oportunidade de inserir a mulher de forma igualitária na política de clubes. O objetivo é fazer o Corinthians maior, mais forte e mais diverso.

As chapinhas eleitas, juntas, têm 11 mulheres apenas, de um total de 200 conselheiros eleitos. O que você acha disso?
Eu achei péssimo. Muitas chapas, que inclusive as que apoiaram o Andrés, só tinha homens. Há poucas mulheres na política porque quando elas vêm adquirir o título no clube, ela traz o marido e compra o título no nome dele. Ela não pode participar. Isso precisa mudar. Elas precisam comprar no nome delas. Vamos ver como as pessoas vão ver isso. Tem muita mulher no clube. As mulheres precisam estar representadas. Muitas são chefes de família, vão ao estádio.

Você costuma ir ao estádio?
Eu vou, mas já fui mais. Agora tenho compromissos de avó e estou um pouco atrapalhada. Ia com outras amigas, ficávamos na numerada. Mas um dia vou na arquibancada.

Seu marido é sócio?
Sim, ele é tímido, gosta de ficar na dele. Ele tinha um título e passou para a mãe dele. Aí depois eu trouxe ele para o meu, como meu dependente. A gente até brinca com isso.

Quais são seus planos imediatos?
Primeiro precisamos definir as diretorias. Sentar com elas para direcionar algumas coisas. Precisamos ainda definir entre nós.

Como será a divisão do trabalho com o outro vice? Você pode representar o clube numa reunião da CBF, por exemplo?
Eu sou a primeira vice, mas nós não vamos trabalhar com esse rótulo. Vamos trabalhar os três juntos. Se o Andrés achar que é necessário que eu vá, eu vou. Mas a princípio vou ficar com essa parte mais do clube. Se precisar, eu vou, o Alexandre vai também.

Qual a sua opinião sobre o futebol feminino do Corinthians?
Ele faz parte agora do clube, estatutário. Foi campeão da Libertadores como parceiro do Audax. Não é pouca coisa. Agora é do Corinthians mesmo. Vai ser um ano bem promissor. Tenho certeza que vai dar certo.

Há alguma medida em mente para a sede social?
Está bom na comparação do que era, mas pode melhorar ainda. Eu vou escutar. Por exemplo, não temo um espaço kids aqui. Precisa melhorar a parte da sauna, a piscina, o berçário. Uma série de coisas que não estão ruins, mas pode melhorar. Acessibilidade nos vestiários, fraldário. Já tem muita gente com ideias.

Há um grupo de corintianas que lutam por igualdade e no ano passado até conseguiu reverter uma decisão da Nike. A senhora conhece?
É um movimento de corintianas, de fora. São as mulheres que querem mudanças. Devagar vai avançar.

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