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Lembra do Chuchu? Ele foi 10 do Fla e ídolo de time de senador cassado

Presidente Luiz Estevão conversa com o meia Iranildo em treino do Brasiliense - Lula Marques/Folhapress - Lula Marques/Folhapress
Imagem: Lula Marques/Folhapress

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

17/02/2018 04h00

Iranildo Hermínio Ferreira. Ou Chuchu para os mais íntimos – entre eles Romário e o Papai Joel Santana. Ambos foram os responsáveis pelo apelido no mínimo curioso do meia que realizou o sonho de infância ao defender o Flamengo na década de 90. Mas por que Chuchu? Em entrevista ao UOL Esporte, Iranildo – hoje aos 41 anos e já aposentado – revela a origem do apelido e fala sobre a emoção de ter tido a oportunidade de defender o time que torce desde a infância.

Natural de Igarassu, cidade do litoral de Pernambuco, Iranildo tinha 13 anos quando chegou ao Rio de Janeiro acompanhado do pai, que buscava mudar de vida em terras cariocas. Mas quem mudou mesmo de vida foi o filho, que aos 15 anos conseguiu passar em um teste no Madureira com cerca de 400 concorrentes. Desde então, Iranildo e o futebol viraram uma coisa só.

Narciso, do Santos, salta sobre o meia Iranildo, do Flamengo, em jogo pelo Campeonato Brasileiro de 1999, no Maracanã - Ana Carolina Fernandes/Folhapress - Ana Carolina Fernandes/Folhapress
Imagem: Ana Carolina Fernandes/Folhapress
“A minha vida foi igual aquelas de nordestino: meu pai foi tentar ganhar a vida no Rio, conseguiu um emprego, e a minha carreira começou no Madureira. Eu fui para o Rio de Janeiro com 13 anos de idade. Aí jogando bola numa comunidade no Rio das Pedras eu fui fazer teste no Madureira e fui aprovado. Tinham 400 garotos, e no primeiro teste que eu fiz eu fui aprovado, cara. Ali eu falei: ‘caramba, então é agora’. Naquela época tinham três testes para ser aprovado e, com 400 garotos no primeiro teste, eu consegui ser aprovado”, recorda.

Do Madureira, Iranildo foi parar no Botafogo. E as coisas não paravam de melhorar para o meia. “Aí no Estadual de 95 eu fui bem demais, joguei contra o Flamengo, que tinha Romário, Branco, e foi onde o Botafogo me contratou por empréstimo, depois do Estadual, para disputar o Brasileiro de 95, quando eu fui campeão pelo Botafogo”, acrescenta.

O SONHO DE SER O CAMISA 10 DO FLAMENGO

Depois de brilhar pelo Botafogo, Iranildo parou no Flamengo e conseguiu realizar seu grande sonho de infância. Foram cinco anos vestindo a camisa rubro-negra, de 1996 a 2000. “Eu sempre quis ser jogador de futebol e o meu time sempre foi o Flamengo. E, na minha época de garoto, sempre se falava do Zico, o camisa 10, eu sempre fui fã dele. E eu realizei o meu sonho, jogar no Flamengo, com a camisa 10, do Zico. Realizei todos meus sonhos possíveis: jogar ao lado do Romário, ganhar títulos, então todo sonho possível foi realizado. É coisa de Deus, e também foi determinação minha, perseverança, de querer. A oportunidade que eu tive, eu agarrei. Independente de sorte, tem que correr atrás, tem que trabalhar”, diz.

Eu sempre quis ser jogador de futebol e o meu time sempre foi o Flamengo. E eu realizei o meu sonho, jogar no Flamengo, com a camisa 10, do Zico"

Além de Zico, Iranildo tinha outro grande ídolo: Romário. Ainda aos 18 anos, antes de profissionalizar, viu o Baixinho ser o grande nome do tetra da seleção brasileira. Poucos anos depois, Iranildo jogava ao lado do camisa 11. Mais um sonho realizado: “Em 94 eu vi o Baixinho levantando o caneco da Copa do Mundo e, dois anos depois você estar ao lado do ídolo, de um dos maiores jogadores da história do futebol, campeão do mundo... Pô, foi bacana demais”.

Iranildo recorda que Romário, o “Rei do Rio” na época, costumava fazer algumas promessas, e geralmente as cumpria. “Ele mandava, desmandava, ele era tudo [risos], mas o importante é que ele resolvia. Ele me chamava de chuchu, tinha dia que ele falava: ‘chuchu, hoje eu vou fazer três gols’. Porra, e o cara fazia três mesmo. Fazer um gol já é difícil, imagina três. Ele era fera”.

APELIDO VEIO DE MÚSICA DOS MAMONAS ASSASSINAS

Iranildo - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução
Mas por que Chuchu? Um ano antes de Iranildo chegar ao Flamengo, os Mamonas Assassinas haviam lançado o cd que viria a ser sucesso absoluto no Brasil. O próprio meia rubro-negro era fã das músicas da banda, e costumava cantá-las, inclusive junto de seus companheiros. E uma delas, o hit Pelados em Santos, acabou dando origem ao apelido – dado por Romário e Joel Santana, então técnico do Fla.

“Eu sempre fui fã dos Mamonas Assassinas. A carreira dos Mamonas foi meteórica, foi rápida demais, e eu ganhei o apelido em 95/96. Nessa época eu gostava de cantar as músicas dos Mamonas Assassinas, e tinha uma parte naquela música, ‘você é meu chuchuzinho’, e o Romário e o Joel colocaram o apelido em mim. Pegou e até hoje eu tenho esse apelido [risos]”, disse.

JOGO INESQUECÍVEL E OS GRITOS DE ‘ÃO, ÃO, ÃO, IRANILDO É SELEÇÃO’

Um jogo em especial ainda está mais do que guardado na memória de Iranildo. Era 10 de outubro de 1998: o Flamengo recebia o Corinthians – futuro campeão nacional daquele ano – em um Maracanã completamente lotado. Romário, grande astro do time carioca, saiu machucado ainda no primeiro tempo, abrindo espaço para outros jogadores brilharem. Iranildo fez um dos quatro gols da goleada por 4 a 1 (Marcos Assunção, Beto e Jorginho marcaram os outros), e nunca mais esqueceu esse dia.

“98 foi marcante porque teve um jogo no Maracanã que tinham 120 mil flamenguistas. O Romário saiu machucado logo no primeiro tempo e foi uma das melhores partidas que eu fiz com a camisa do Flamengo. E tinham 120 mil flamenguistas gritando: ‘ão ão ão, Iranildo é seleção’. Pô, aí foi demais. Foi Flamengo x Corinthians, Campeonato Brasileiro de 98, 4 a 1 para o Flamengo. Depois eu peguei uma sequência boa”, lembra Iranildo.

“O Flamengo foi tudo para mim, em todos os sentidos. Foi a realização de um sonho. Foram cinco anos de Flamengo, e ser reconhecido até hoje pela torcida, receber o carinho da torcida, para mim não tem preço, foi a melhor coisa da minha vida. E o meu ano no Flamengo foi 98, que eu até era para ter sido convocado para a seleção brasileira”, acrescenta.

O FUTURO DE IRANILDO: “TÉCNICO NÃO”

Casado e pai de um casal, Iranildo, que hoje mora no Rio de Janeiro e está aposentado desde 2013, quando se despediu do Brasiliense, já tem planos para o futuro. Porém, destaca: não passa pela sua cabeça virar treinador de futebol. Segundo ele, é ‘muita dor de cabeça’.

Ex-jogador Iranildo acompanhado da mulher e dos filhos - Arquivo pessoal/Iranildo - Arquivo pessoal/Iranildo
Imagem: Arquivo pessoal/Iranildo
“Ser treinador de futebol jamais [risos]. Dá muita dor de cabeça, deixa quieto. Agora mesmo eu estou acompanhando o meu filho... Ele estava jogando no núcleo do Barcelona, é uma franquia, e ele foi bem e o Fluminense contratou ele, fez três anos de contrato, e eu estou acompanhando ele lá em Xerém. Ele tem 16 anos, é meia-atacante, chama Yago Ferreira. Ele gosta muito de fazer gol, é bom jogador, e eu estou acompanhando. Agora eu tenho um projeto junto com um amigo para escolinhas de futebol lá na minha terra mesmo, em Igarassu (PE), e quero ajudar a empresariar alguns jogadores, estou pensando nisso, gestão empresarial”, completou.

VEJA OUTROS TRECHOS DA ENTREVISTA

Saída do Flamengo e chegada ao Brasiliense

Iranildo, meia do Brasiliense - Débora Amorim/Jornal de Brasília - Débora Amorim/Jornal de Brasília
Imagem: Débora Amorim/Jornal de Brasília
Eu fui para a Grécia jogar no Aris. Foi naquela época da ISL. Trouxeram Edilson e todo mundo, aí eu fui emprestado para a Grécia, mas fui para lá, não joguei e não recebi nada, foi um ano difícil, e quando eu voltei para o Flamengo, em 2002, eu já estava há alguns meses sem receber salários, e em comum acordo eu disse: ‘Eu quero que vocês me paguem meus direitos’, isso já em 2003, e foi aí que entrou o Luiz Estevão, presidente do Brasiliense. A história do Luiz Estevão é interessante [risos]. Naquela época o Luiz Estevão era senador cassado... Ele foi no Flamengo e não conseguiu entrar porque o Flamengo não podia receber pessoas assim, e o Luiz Estevão bateu na minha casa e falou: ‘Iranildo, você não me conhece, mas eu tenho um time em Brasília, vai chamar Brasiliense, eu sou ex-senador’, e comentou comigo: ‘eu fui barrado, assim e assado’, e eu estava há meses sem receber e ele falou: ‘Eu te pago o que você tem para receber e você vem jogar para mim, você faz esse contrato comigo? Eu falei: ‘faço’, e fui com ele até a Gávea. Fizemos e fiquei no total quase dez anos no Brasiliense.

Luiz Estevão: “um dos melhores dirigentes”

Foi um dos melhores dirigentes que eu trabalhei. O que ele te prometer, ele cumpre. Comigo ele nunca deixou a desejar em nada, como com todos os atletas. Eu passei oitos anos seguidos campeão no Brasiliense e o Luiz Estevão sempre cumpriu tudo direitinho, sempre. Sempre pagou em dia, inclusive bichos, e foi corretíssimo comigo e com vários jogadores.

O ex-senador está preso desde 2016 cumprindo a pena de 31 anos no Complexo da Papuda por condenação em segunda instância por crimes relacionados às obras do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, nos anos 1990.

Xodó de Joel Santana logo em sua chegada ao Fla

Quando eu cheguei, em 96, eu fui campeão invicto, e eu era o garoto do Joel [risos]. O Papai Joel me colocava sempre no segundo tempo. Eu adoro o papai Joel [risos], ele tinha um carinho por mim.

Saída do Bota para o Fla em 1996: “dormiram no ponto”

[Risos] Ah, o Botafogo naquela época dormiu no ponto. Tinha um acordo de que quando terminasse o meu contrato a prioridade era do Botafogo, mas, como o Botafogo não depositou, o Flamengo do Kleber Leite foi lá e depositou e fez a compra. Aí eu fui para o meu clube de coração, sempre foi o meu sonho [risos].

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