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Manchester United vê rivalidade de "filhos nutella e raiz" na sexta divisão

Nathan Stirk/Getty Images
Imagem: Nathan Stirk/Getty Images

Caio Carrieri

Colaboração para o UOL, em Manchester (ING)

29/11/2017 04h00

Com milhões de torcedores espalhados em todos os continentes do planeta, o Manchester United observa o surgimento, no quintal de casa, de uma rivalidade na Sexta Divisão do futebol inglês entre times relacionados (in)diretamente com o todo poderoso da Inglaterra, mas com visões ideológicas antagônicas.

Do lado "raiz" está o FC United of Manchester, clube fundado em 2005 por torcedores dissidentes dos Red Devils. Insatisfeitos com a compra do Manchester United por parte da família Glazer, norte–americanos também proprietários da franquia Tampa Bay Buccaneers, da National Football League (NFL), estes aficionados se revoltaram com a grande ênfase dos novos donos na exploração comercial de uma das marcas mais famosas do esporte mundial.

Por isso, ergueram o FC United do zero, “sem fins lucrativos”, como gostam de enfatizar. Os Red Rebels administram o próprio clube e, com arrecadação limitada, até hoje sofrem para pagar os empréstimos feitos para o financiamento coletivo que foi organizado a fim de construir o Broadhurst Park, simpático estádio para 4.400 pessoas, ao custo de 6,3 milhões de libras (cerca de R$ 27 milhões no câmbio atual).

Localizados mais a nordeste da cidade, eles mantiveram o vermelho no uniforme e sempre estendem faixas nas arquibancadas em referência à aversão ao exagero da mercantilização do futebol por parte do clube pelo qual se apaixonaram. “Tortas ao invés de camarões” era o lema mais famoso bem no início da trajetória dos torcedores-dirigentes, em referência à gourmertização do lendário Old Trafford. Após peneiras para garimpar jogadores semiamadores que treinam meio-período, iniciaram a caminhada na Décima Divisão e alcançaram quatro acessos no período.

Torcida do FC United of Manchester - Nathan Stirk/Getty Images - Nathan Stirk/Getty Images
Torcida do FC United of Manchester em um confronto contra o Salford, em janeiro
Imagem: Nathan Stirk/Getty Images

Na parte “nutella” da rivalidade aparece o Salford City, clube do município homônimo e localizado na região metropolitana de Manchester. Criado em 1940, o clube foi adquirido em 2014 por ídolos do Manchester United: os irmãos Neville (Gary e Phil), Ryan Giggs, Paul Scholes e Nick Butt. Da “Classe de 92”, apenas o astro David Beckham não faz parte do projeto, que ainda teve a entrada do magnata de Cingapura Peter Lim, acionista majoritário com 50%, enquanto os cinco ex-jogadores dividem o restante de maneira igualitária.

A participação de Lim no negócio se deu por meio da amizade com Gary Neville, ex-lateral-direito da seleção inglesa. O bilionário até contratou Gary há dois anos para ser técnico do Valência-ESP, do qual também é dono. No entanto, a passagem desastrosa do amigo durou apenas quatro meses, entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016, e o clube espanhol flertou com o rebaixamento naquela campanha.

No Salford City, com investimento pesado, o planejamento a longo prazo coloca competições profissionais (a partir da Quarta Divisão) como objetivo principal. Desde a aquisição pelos novos donos, na temporada 2014/15, os dois acessos consecutivos, até a Sexta Divisão, não foram as únicas transformações imediatas com a chegada do aporte financeiro. O emblema do clube foi modernizado, o time trocou o laranja pelo vermelho no uniforme, herança clara do Manchester United, e o elenco e a comissão técnica passaram a trabalhar em período integral.

No fim de outubro, Sir Alex Ferguson, um dos maiores treinadores de todos os tempos, com inúmeros títulos em 26 anos no comando do Manchester United, foi o convidado de gala para a cerimônia oficial de reinauguração do estádio do Salford City.

Ferguson no Salford - Instagram/Reprodução - Instagram/Reprodução
Ferguson foi convidado de honra na reinauguração do estádio do Salford
Imagem: Instagram/Reprodução

Quando os novos proprietários assumiram o clube se deparam até com “gato” nas TVs da casa do time, que só tinha um setor de cadeiras para torcedores, enquanto o resto dos fãs se misturava entre cachorros para acompanhar a equipe. Ferguson, por sua vez, viu seus pupilos apresentarem um estádio com capacidade ampliada de 2.000 para 5.000 lugares, com direito a bar, camarote, setor VIP e até naming rights para a casa remodelada – estrutura totalmente fora da realidade das demais equipes da Sexta Divisão.

Calendário reserva data nobre para o "clássico"

O reencontro entre os filhos do Manchester United acontecerá em um dos dias mais nobres do calendário do futebol inglês: 26 de dezembro, conhecido como “Boxing Day”. A partida está agendada para a casa mais modesta entre os protagonistas da nova rivalidade, o Broadhurst Park, do FC United.

Na 19ª colocação, apenas uma acima da zona de rebaixamento (há 22 times, três deles caem), a equipe “raiz” vê o irmão “nutella” liderar o campeonato com larga vantagem, de sete pontos.

Camarote do Salford City - UOL - UOL
Estádio do Salford tem alguns luxos como um camarote para os dirigentes
Imagem: UOL

No início de novembro, os times se enfrentaram pelas quartas de final da Copa de Manchester, torneio composto predominantemente por equipes amadoras. Por não ser a prioridade da diretoria, a dupla de técnicos que lidera o Salford City, Anthony Johnson e Bernard Moley, colocou a garotada para atuar em casa e acabou vencida por 3 a 0. No último gol do adversário, Ryan Giggs foi embora.

Com o nível técnico bem baixo, a provocação entre as torcidas foi o que de melhor aconteceu naquela noite gelada do dia 7. “Vocês sempre jogaram de vermelho?”, gritaram os torcedores do FC United, em menção à mudança na troca na cor do uniforme. “Enfiem o dinheiro de vocês no c*”, aumentaram o tom em seguida.

“Eles (donos do Salford City) são lendas do United e fazem o que quiserem com a fortuna deles”, comentou o contador Tony Adams, 58. “No meu caso, decidi parar de ir ao Old Trafford quando a família Glazer roubou o clube dos torcedores. Primeiro que não concordo com a maneira com que passaram a administrar o clube, segundo que não tenho mais dinheiro para levar meus dois filhos às partidas. Até acompanho pela TV, mas sou torcedor do FC United”.

Les Whiteley, 64, técnico do Salford City nos anos 80 e frequentador assíduo dos jogos desde então, expressa a visão do outro lado. “Admiro o que o FC United faz, pela paixão que dedicam, mas um clube precisa de experiência administrativa para ser bem gerido”, analisa. “Se eu ganhasse na loteria, também investiria nesse clube. Certamente eu perderia a minha esposa. Mas não tem problema, já separei três vezes por causa do futebol”.

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