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Geraldo revive história de luta e ganha tudo em Angola. Agora quer voltar

Geraldo jogou os dois últimos anos no país onde nasceu e virou ídolo - Divulgação/1º de Agosto
Geraldo jogou os dois últimos anos no país onde nasceu e virou ídolo Imagem: Divulgação/1º de Agosto

Gabriel Carneiro

Do UOL, em São Paulo

28/11/2017 04h00

Autor de gols decisivos em três finais de Campeonato Paranaense e carrasco do Atlético-PR com a camisa do Coritiba, o meia-atacante angolano Geraldo praticamente sumiu de cena há dois anos. Neste período, ele voltou a morar no país onde nasceu, revisitou sua história de luta até virar jogador de futebol e se tornou um ídolo local com dois títulos nacionais e o posto de melhor jogador de Angola na temporada 2016/2017. 

"Agora estou com a bateria recarregada", brinca, em entrevista ao UOL Esporte, o angolano que jogou 11 anos no Brasil e quer voltar em 2018.

"Decidi voltar à Angola em 2015 para ficar perto da minha família. Estava no Atlético-GO, brigando contra o rebaixamento em uma temporada desgastante, e senti a necessidade de resgatar um pouco do meu começo. Quis voltar e sentir calor humano, porque não cresci perto da minha família. Foi fundamental. Agora estou animado e querendo voltar para o Brasil, onde deixei um ponto de interrogação", diz o jogador de 26 anos.

O "ponto de interrogação" a que se refere Geraldo é seu potencial no futebol. Apesar de ter surgido bem no Coritiba e marcado gols importantes após ser contratado em 2010, pelo técnico Renê Simões, ele jamais se firmou como titular até o fim da passagem, em 2014. Foi em Angola que ele encontrou o sucesso no futebol com a camisa do 1º de Agosto, que não vencia o campeonato nacional, chamado Girabola, há dez anos, mas ganhou duas vezes seguidas nas duas participações do "brasileiro".

"Tive uma experiência muito vasta no Brasil que me ajudou nesses dois anos na Angola. As coisas ficaram mais fáceis. Nunca tinha jogado profissionalmente na Angola e era muito cobrado de vir para cá. Seria injusto só jogar no meu país em fim de carreira, então já resolvi isso enquanto sou novo para dar meu melhor futebol às pessoas que torcem por mim. Meu contrato termina em dezembro e agora posso voltar mais tranquilo para o Brasil", ele conta.

Angolano Geraldo - Divulgação - Divulgação
Geraldo também defende a seleção local
Imagem: Divulgação

Geraldo diz que está "analisando possibilidades" sobre o futuro em 2018. De acordo com seu estafe, clubes como Paraná e Ceará já manifestaram interesse, mas ainda não há decisão tomada. Os clubes não confirmam.

Na infância, risco de nem conseguir andar direito

Aos dez anos, quando ainda vivia em Angola, Geraldo foi diagnosticado com poliomielite, doença mais conhecida como paralisia infantil - um problema praticamente erradicado no Brasil, mas que ainda pode ser encontrado no continente africano e alguns países da Ásia. Os sintomas foram claros: perda de reflexos e fraqueza muscular, que atrapalharam os movimentos do garoto por quase um ano. Do sonho de jogar futebol, Geraldo precisou se preocupar logo cedo em simplesmente conseguir andar.

Um dos tratamentos recomendados para a doença é fisioterapia, que garante qualidade de vida ao paciente. De origem humilde, Geraldo não teve a oportunidade de realizar muitas sessões por falta de dinheiro: "A insistência em jogar futebol me ajudou. Fiz muito esporte, mesmo mancando no começo, e também recebi muitas massagens da minha avó. Na cabeça da minha família havia a percepção de que eu nunca voltaria a andar normalmente porque não tínhamos condição de pagar fisioterapeuta. Mas aos poucos eu fui melhorando", relembra Geraldo, que encarou a zoeira dos amigos no momento da superação da doença.

"Eu tentava brincar de futebol, mas ainda mancava. E muitas pessoas davam risada vendo. Hoje vejo que aquilo foi me fazendo bem, porque continuei e continuei. Mas quem dava risada hoje está aplaudindo".

Outro drama vivido na infância passa mais distante das lembranças de Geraldo: a Angola viveu até 2002 uma guerra civil que teve 500 mil mortos e mais de um milhão de deslocamentos e refugiados. O garoto nascido em Luanda em 1991 só ouviu falar deste problema, que até hoje assola muitos países vizinhos.

"Eu era criança e não pude perceber bem o que era uma guerra civil. Hoje, crescido, vejo imagens, ouço histórias, fico sabendo de familiares que perdi e situações horríveis. Infelizmente a África tem muitos problemas de guerra e política, e isso é triste e lamentável, porque tira o brilho de um continente com pessoas alegres e de compaixão. Mas tenho fé que futuramente esses problemas serão sanados", diz o jogador, que se considera "meio angolano, meio brasileiro".

Angolano Geraldo  - Divulgação/1º de Agosto - Divulgação/1º de Agosto
Em 2017, Geraldo foi o melhor jogador do "Girabola", o Campeonato Angolano
Imagem: Divulgação/1º de Agosto

Em campo, de Angola ao Brasil... à Angola

Geraldo começou no futebol em um clube angolano chamado Norberto de Castro, que funcionava basicamente como uma escolinha para descobrir talentos. Quando atuava na categoria sub-15 foi visto por Djalma Campos, um ídolo do futebol local que atualmente joga no PAOK, da Grécia. Campos conhecia alguém que conhecia um treinador que conhecia um empresário que trouxe o garoto para o Brasil. A ideia é que ele disputasse uma edição da Taça BH de Futebol Júnior e fosse visto pelos grandes clubes. Geraldo jogou pelo Fabril, da cidade mineira de Lavras, e foi bem mesmo com idade inferior ao limite da categoria.

Do Fabril, Geraldo foi para o Rio Claro, clube do interior de São Paulo, e jogou uma Copa São Paulo de Juniores. Ele ainda foi avaliado por um time italiano, mas não ficou por lá e acabou parando no modesto Andraus, do Paraná, clube pelo qual disputou um amistoso contra o Coritiba. Foi aí que se destacou e assinou com o clube paranaense um longo vínculo que rendeu o título da Série B e um tetracampeonato estadual. Ele também defendeu Paraná, Red Bull e Atlético-GO por períodos mais curtos, mas tem verdadeiro apreço pelo Coxa.

"Fiz gols em clássico, gols importantes, em finais, e isso me dá uma credibilidade boa com o torcedor do Coritiba. Foram quatro títulos seguidos, cinco com a Série B, também teve dois títulos que queríamos muito, de Copas do Brasil que fomos para a final, mas não conseguimos. Sempre que vou para Curitiba e mesmo em redes sociais pedem para eu voltar, então é um clube que tenho muita paixão. Sou muito grato por tudo que o Coritiba fez por mim e desejo voltar um dia", conta o jogador, que saiu em 2014 após desentendimentos com o técnico Marquinhos Santos.

No fim de 2015, após passagem de apenas 15 jogos pelo Atlético-GO, Geraldo voltou para Angola e defendeu o 1º de Agosto em duas temporadas. Foi bicampeão nacional, campeão da Supertaça de 2017 e eleito como melhor jogador do ano. Ele descreve sua história com felicidade e diz que o país está crescendo no esporte.

"É totalmente diferente do que eu estava acostumado no Brasil, outra realidade. Mas aqui está crescendo muito, principalmente depois da passagem do Rivaldo (o pentacampeão atuou pelo Kabuscorp em 2012), deu uma credibilidade ao campeonato, que está evoluindo. Os times estão se organizando melhor, montando estruturas, com estádios próprios e bons públicos. Minha contribuição foi com boas atuações, e o que tinha que ganhar em Angola eu ganhei tudo. Fico feliz por deixar uma história bonita, mas chegou o momento de voltar e dar continuidade à carreira no Brasil", torce o ídolo do futebol angolano.

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