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Por passaporte, "Jesus Christian" teve de dizer "sim" a português no altar

Almeida Rocha / Folha Imagem
Imagem: Almeida Rocha / Folha Imagem

Marcus Alves

Colaboração para o UOL, em Lisboa (Portugal)

24/11/2017 04h00

A cada janela de transferências, é cena comum a corrida de atletas e seus estafes para providenciar os documentos de dupla nacionalidade e, assim, facilitar uma possível negociação. Em outros casos, o novo passaporte serve também para abrir uma vaga de estrangeiro dentro do elenco de seu clube e afastar qualquer risco de sair dos planos por esse motivo.

Quase todos os jogadores já passaram por essa situação no futebol europeu. Nem todos, no entanto, tiveram de subir ao altar para conseguir isso.

Foi o caso de Christian, ex-atacante com passagem pela seleção brasileira, dupla Gre-nal, Corinthians, São Paulo e PSG, dentre outros.

Hoje trabalhando no ramo da construção e prestando consultoria a equipes do velho continente, “Jesus Christian”, como ficou conhecido ao longo de sua carreira, penou no início ao deixar o Inter com apenas 17 anos e se mandar para Portugal. Ele acabou desembarcando na Ilha da Madeira, berço de Cristiano Ronaldo, para defender o modesto Marítimo.

A transação foi intermediada pelo falecido empresário Manuel Barbosa, o primeiro agente Fifa do futebol mundial.

Ao chegar, Christian recebeu logo de cara luvas de US$ 30 mil e um salário de US$ 2 mil suficientes para fazerem brilhar os seus olhos e suscitar planos de vida melhor para toda a sua família. Com a companhia de outros brasileiros e sendo treinado por Paulo Autuori, surgiu a necessidade de abrir vagas para outros estrangeiros, o que resultou em um pedido inusitado por parte da diretoria: casar com uma portuguesa para obter dupla nacionalidade. O problema? Ele não tinha nenhuma namorada na época.

Ainda assim, topou o ‘casamento de mentira’.

Não contava apenas em ser largado no altar por uma mulher que, não bastasse nunca tê-la encontrado na vida, ainda mandou uma procuração para que outra pessoa a representasse na cerimônia na Madeira. No caso, um “português bigodudo” que viraria motivo de piada no vestiário do Marítimo.

“Esse foi um caso curioso na época. Na verdade, era um costume, não tenho certeza se continua. Estávamos todos com 17, 18 anos e seis meses ou mais em Portugal, então, já podíamos passar pelo processo se quiséssemos. Naquela altura, o clube nos perguntou se poderíamos nos casar. Não só o Christian, mas todos os brasileiros. Ele deu o azar, contudo, de ter mais tempo de casa e ser o primeiro na fila (risos)”, conta o ex-zagueiro Rodrigo Costa ao UOL Esporte.

“Foi bem engraçado no dia. Eu estava como uma das testemunhas, algo assim e a mulher não apareceu. Ela acabou sendo representada por um homem, talvez alguém do clube. Imagina, então, a cena como foi”, prossegue.

Até hoje, Christian nunca encontrou aquela que, ao menos no papel, foi a sua esposa por mais de um ano em uma aventura que o propiciou defender cinco clubes em quatro temporadas em Portugal. Ficou apenas uma lembrança do episódio: Maria do Céu, o nome da ex-mulher.

“Eu era novo e, para jogar, acabei aceitando aquela situação. Mas essa história me deu muita dor de cabeça, nem gosto de falar nisso”, afirmou posteriormente. Sete anos depois, quando estava no PSG, ele foi abordado pelas polícias portuguesas e francesa após um treino por causa de uma investigação sobre passaportes falsos, mas acabou esclarecendo tudo.

Em entrevista à revista Placar, em 1997, “Jesus Christian” chegou a dar risada do assunto e posar para foto com os dois passaportes.

O laço com Portugal ainda persiste até hoje, através de contatos nos clubes para auxiliar com atletas, porém, no fim das contas, a despeito das brincadeiras no vestiário e do sucesso que teria a partir de sua volta ao Brasil, Maria do Céu nunca bateu à sua porta pedindo metade do que era seu.

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