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"Bairro arrebentado." Moradores dizem sofrer com nova arena do Palmeiras

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

18/12/2015 06h00

O Allianz Parque recebeu quase 40 mil pessoas no último dia 2, na final da Copa do Brasil, entre Palmeiras e Santos. A partida decisiva foi marcada pelo recorde de público da nova arena, mas também por uma imagem marcante: a presença de aproximadamente 20 mil pessoas no entorno do local. A festa palmeirense, porém, causou enormes transtornos aos moradores das ruas próximas ao estádio.

A presença maciça de torcedores do lado externo deixou, por exemplo, um rastro de lixo no local. Além disso, a festa, que terminou somente nas últimas horas da madrugada, evitou que os moradores conseguissem se deslocar normalmente. Os rojões e gritos de incentivo, por sua vez, dificultaram o descanso dos vizinhos. Isso tudo fez a Associação Amigos de Vila Pompéia abrir inquérito civil pedindo apuração dos transtornos ocorridos no bairro em dias de jogos.

Em entrevista ao UOL Esporte, Maria Antonieta de Lima e Silva, presidente da associação, disse que os problemas se agravaram depois da abertura da nova arena, a partir de novembro do ano passado — 39 partidas (38 do Palmeiras) e sete shows musicais ocorrem no local. "Está bem pior. São mais torcedores agora. Não tem onde colocá-los. As pessoas ficam para fora. O bairro todo está arrebentado por causa do Palmeiras. Antes eram 20 mil, na final foram 60 mil", conta a moradora.

Responsável pelo planejamento no entorno do estádio no dia da final, a Subprefeitura da Lapa afirmou que realizou um "trabalho diferenciado e intensivo" no dia 2, a fim de evitar transtornos. "A operação para o jogo final da Copa do Brasil, entre Palmeiras e Santos, realizado no Allianz Parque, já contou com um conjunto de medidas pactuadas entre os órgãos públicos e os entes privados", explicou o órgão em nota.
De acordo a subprefeitura, houve um aumento do efetivo de policiais, além de uma patrulha da própria prefeitura e da presença de carros da Guarda Civil Metropolitana. A medida preventiva, porém, não evitou alguns incidentes no local, como o roubo de celulares e a aglomeração de pessoas em certos pontos da rua Palestra Itália.
"Os foguetes deixaram todo mundo louco. Os vidros tremeram. Nossas casas perderam valor. Ninguém mais consegue viver aqui, nossa vida virou um inferno", disse Maria Antonieta.
Segundo ela, o lixo deixado pelos torcedores só foi retirado às 13h da quinta-feira, dia 3. Na calçada da residência dela, havia oito churrasqueiras usadas na noite anterior. Os resíduos encheram 21 caminhões. No total, 27 papeleiras e oito cestos aramados foram danificados.
A subprefeitura frisa que também criou um plano específico para evitar isso. "Cerca de 160 funcionários trabalharam em três turnos nos dias 2 e 3, com o apoio de caminhões nos serviços de varrição, coleta de papeleira e mecanizada, recolhimento de resíduos domiciliares, além da limpeza de bocas de lobo e lavagem das vias", disse.
Já a WTorre, responsável pela operação do estádio, disse por meio de sua assessoria que os impactos podem ser minimizados nos jogos da temporada 2016. "Nós temos participado das discussões para redução dos impactos na região e estamos dispostos a colaborar com o que for decidido nesses grupos, assim como já foi feito na partida contra o Santos", disse.
Procurado pela reportagem, o Palmeiras, também via assessoria, disse que não comentará o assunto.
Plano
Segundo Jupira Cauhy, integrante de outro movimento de moradores do local, foi aberto um inquérito civil. Nele, são apurados os impactos de vizinhança. Ele está na 2ª Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo da Capital, sob a responsabilidade do promotor Reynaldo Mapelli Jr.
"Passou dos limites. Foi bem acima do que todos estão acostumados a ver. Foi um incômodo psra todo mundo. Vários torcedores ficaram presos. Funcionários do estádio não conseguiram entrar no estádio", explica a moradora.
Cinco grupos de trabalho tentam minimizar os transtornos no entorno: a prefeitura (representada pela Subprefeitura da Lapa e pela CET), o Palmeiras, a administração da Arena Allianz (WTorre), além dos shoppings Bourbon e West Plaza. O processo é conduzido pela vice-prefeita de São Paulo, Nadia Campeão e pelo promotor.
Segundo Jupira, o prazo para entregar os resultados se encerra nesta mês. Em janeiro, o promotor fará um estudo das propostas. Elas irão resultar em termos de ajustes de conduta (TAC). "Tenho esperança que dê resultado, pois não dá para continuar do jeito que está. É impossível", disse a moradora.
Para Maria Antonieta, os erros começaram em 2010, quando a prefeitura autorizou a reforma do estádio. "Foi construída uma arena dentro de um bairro residencial. Tem de ter área de contenção. A Pompéia é um bairro antigo, de ruas estreitas. Não temos praças, não tem onde pôr tanta gente", ressaltou.
Ela explica ainda que não está contra o Palmeiras e os torcedores do clube. "Sou contra um estádio enorme no bairro. O povo foi sacrificado. A gente quer paz", finalizou a presidente da Associação Amigos de Vila Pompéia.

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