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Por que comprei um time de futebol profissional nos EUA?

George Best, pelo Fort Lauderdale Strikers, na NASL League  de 1978 - Getty Images
George Best, pelo Fort Lauderdale Strikers, na NASL League de 1978 Imagem: Getty Images

Ricardo Geromel

Especial para o UOL

07/10/2014 06h00

Faz mais de um ano que comecei a investigar a fundo se valeria a pena comprar um time de futebol profissional nos EUA. E tudo começou graças a uma pergunta do Elias, craque da seleção brasileira e do Corinthians (deixaremos o relato dos primórdios da minha exploração sobre “soccer profissional” na terra do tio Sam como investimento para outro dia – mas ressalvo que nem o Elias nem nenhum outro jogador de futebol em atividade está envolvido). Estas mal traçadas linhas almejam esclarecer por que eu e meus sócios –Rafael Bertani e Paulo Cesso – decidimos comprar o único clube de futebol profissional do Sul da Flórida: o mitológico Fort Lauderdale Strikers, onde jogaram Gordon Banks, George Best, Gerd Muller, Elias Figueroa, Nene Cubillas, Marinho Chagas, Ray Hudson e outras lendas do futebol. 

Um dos nossos objetivos chave, além de conquistar títulos, é transformar o Strikers na referência global para inovação em esportes de alto rendimento. Sempre respeitando todas as leis da Fifa, queremos transformar nossos jogadores em “super-atletas” e implementar tecnologia de ponta na gestão do único clube de futebol profissional do Sul da Florida. Já estamos com negociações adiantadas com algumas das empresas mais inovadoras do planeta e algumas das mais prestigiosas universidades do mundo. Assim como o uso da estatística revolucionou o baseball – como é retratado no filme Moneyball - buscaremos inovações no setor de tecnologia, saúde, esportes, gestão e mídia para revolucionar o esporte bretão. Convidamos startups (empresas nascentes) nesses setores a entrarem em contato para nos ajudar a mudar o mundo da bola um gol de cada vez.
 
Afirmei que investiguei durante mais de um ano a viabilidade de investir em um clube de futebol nos EUA, mas sinto que me preparei para isso a vida inteira. Na adolescência, fui capitão da equipe de futsal do Juventus, o moleque-travesso da Mooca. Minhas duas principais paixões (antes de eu conhecer minha noiva) sempre foram estudar e jogar futebol. No Brasil era (e ainda é) quase impossível seguir estas duas paixões ao mais alto nível depois do ensino médio. Então, mudei para os Estados Unidos em 2005,  graças a uma bolsa de estudos da Universidade Farleigh Dickinson (FDU), em New Jersey. A contrapartida para a minha bolsa era que eu teria que defender a equipe de soccer da faculdade. Eu nem sabia o que era o SAT (espécie de vestibular dos EUA), mas aceitei a proposta da FDU sem ter aplicado para nenhuma outra universidade nos Estados Unidos pois a equipe de futebol da faculdade havia sido campeã em quatro dos últimos cinco campeonatos e o departamento de Business havia sido eleito o sétimo melhor do país em empreendedorismo pela Princeton Review. Durante os anos de estudante-atleta, fui colega de classe e de campo de Alejandro Bedoya (titular da equipe norte-americana na última Copa, que atualmente joga no FC Nantes da França) e de outros amigos que acabaram se tornando jogadores profissionais. Contudo, tive mais sucesso com os livros do que com a bola e resolvi aposentar as chuteiras ao me formar. 
 
Respeitando meu slogan pessoal da época: “Não sei qual a pergunta. Mas a resposta certa sempre é viajar”, trabalhei em cinco continentes em diferentes setores: mercado financeiro na Europa, logística na África, futebol na Ásia e jornalismo nos Estados Unidos. Meu trabalho favorito foi, sem a menor sombra de dúvidas, cobrir (investigar, descobrir e revelar) bilionários para a revista americana Forbes,  em que descobri que os bilionários têm mais em comum do que os nove zeros antes da vírgula nas suas contas bancárias. 
 
Talvez a decisão mais difícil que eu tenha feito na vida foi deixar de trabalhar em tempo integral para a Forbes para empreender – ainda contribuo com a revista fundada em 1917. Contudo, não tenho dúvidas de que estou fazendo a coisa certa pois estou seguindo uma paixão tão grande quanto o jornalismo. Jeff Bezzos, bilionário fundador da gigante loja de varejo eletrônica Amazon e dono do jornal Washington Post, afirmou “um dos grandes erros que as pessoas fazem é que elas tentam forçar um interesse em si mesmas. Você não escolhe suas paixões; suas paixões escolhem você.” Steve Forbes, que concorreu a presidência dos EUA duas vezes e é o chefão-mor da publicação e neto do fundador da revista fundada em 1917, segue na mesma linha, 
 
"Você tem que ver onde sua paixão o vai levar… Se você está focado apenas na ideia de se tornar um bilionário, você vai gastar suas energias, mas não vai criar qualquer valor real que dure. Sendo assim, se aperfeiçoe e foque na sua paixão. É um clichê, mas é absolutamente verdadeiro".
 
Subindo no ombro desses gigantes, decidi me comprometer 100% em apenas trabalhar e investir em ativos que me permitirão passar a maior parte do meu tempo focado nas minhas paixões. Portanto, ter paixão por futebol, para mim, é um pré-requisito e não um motivo para investir no soccer nos EUA. Meus dois sócios também são fanáticos por futebol e conhecem o soccer de dentro. Rafael estudou em uma universidade no Havaí e o filho de Paulo Cesso estudou em Boca Raton, onde ganhou um troféu como melhor jogador de soccer da escola. 
 
Porém, tenho certeza que alguém que pense apenas em retorno financeiro quando investe e não se preocupa com suas paixões também se interessará em investir em soccer nos EUA. Não sou o único a ter esta opinião: Peter Head, executivo do Black Stone, um dos fundos de investimentos mais importantes do mundo, foi perguntado pela NBC sobre a área que ele destacaria com o maior potencial de retorno e ele não titubeou, declarando que “soccer nos EUA é um lugar para ganhar muito dinheiro”. 
 
A primeira reação de amigos, familiares, jornalistas e outros curiosos que entram em contato é geralmente parecida: “Excelente investimento! Soccer será muito grande nos Estados Unidos.” Creio que eles estão certos, mas ressalvo que soccer não só será, como já é uma realidade estrondosa nos EUA. Aqui vão alguns fatos para justificar este argumento:
 •          Os americanos compraram cerca de 200 mil ingressos para a Copa do Mundo de 2014  - mais do que cidadãos de qualquer outro país, excluindo brasileiros. Se somarmos o que os Alemães, Argentinos e Ingleses (os próximos na lista) comparam, não chegamos ao total de bilhetes comprados por americanos.  
 •          Mais de 26 milhões de americanos assistiram à final da Copa do Mundo 2014 pela TV - mais do que a final da NBA, o World Series (final do beisebol) ou a Copa Stanley (final do hóquei). Mais de 21 milhões de americanos assistiram ao jogo EUA x Bélgica, quando a equipe de Bedoya foi desqualificada. Ao todo, a audiência de TV dos Estados Unidos para a Copa do Mundo aumentou 37% se comparada a copa de 2010. 
 •          Mais de 24 milhões de crianças entre 4 e 17 jogam futebol nos EUA, mais do que em qualquer outro país, além da China.  No entanto, a FIFA estima que há apenas 9.000 clubes de futebol nos EUA. Enquanto no Brasil, por exemplo, há cerca de 30 mil  clubes de futebol e pouco mais de 13 milhões de jogadores nas idades entre 4 e 17 anos (cerca de 53% do número total de americanos da mesma faixa etária). Inglaterra, França e Espanha tem menos de 1/5 do total de crianças jogando futebol nos EUA, mas mais do que o dobro do número de clubes 
 
Estamos convencidos de que o futebol já é uma realidade nos EUA e acreditamos fortemente que seguirá crescendo exponencialmente. Um exercício que fará o leitor engajado entender o potencial de crescimento do soccer nos EUA é comparar o tamanho da população e o número de equipes de futebol profissional nas primeiras divisões dos países do oeste europeu com a população e número de equipes profissionais de soccer nos EUA e Canadá.
 
Apesar de o futebol já ser uma realidade nos EUA, acreditamos que clubes de futebol tanto amador quanto profissional terão um efeito mushroom – serão criados em todos os cantos do país com a maior economia do mundo. Consequentemente, esperamos que o nível do futebol dos Americanos aumentará e mais e melhor talento local emergirá. Naturalmente, tanto a equipe nacional quanto as ligas profissionais se fortalecerão com talentos locais e a população começará a se interessar ainda mais em assistir jogos de soccer pela TV. No livro Soccernomics, o autor Simon Kuper, afirma que os EUA estão “destinados a se tornar o rei do esporte mais popular do mundo”. 
 
Enquanto a principal fonte de faturamento dos principais clubes de futebol do mundo é a receita oriunda dos direito de TV, nos EUA essa quantia é irrisória mesmo para os clubes mais consolidados. Acreditamos piamente que isso mudará em breve! 
 
Animados com a perspectiva de crescimento, decidimos que comprar um time de futebol profissional nos EUA seria um excelente investimento. Tínhamos que escolher entre as duas ligas principais dos EUA e Canadá: a MLS (Major League Soccer) e a NASL (North American Soccer League).
 
A NASL (Liga de futebol da América do Norte) é a versão atual da liga onde Pelé jogou nos dias de glória do futebol nos EUA - um jogo entre New York Cosmos e Fort Lauderdale Strikers na NASL atraiu 77.691 espectadores - recorde em um jogo da liga entre dois times profissionais de futebol dos Estados Unidos.
 
Fui a encontros com todos os donos de times da NASL e perguntei para cada um deles se estavam arrependidos do investimento, o que gostariam de ter descoberto antes de colocar o time na NASL e porque haviam escolhido aquela liga. Diferentemente do Brasil, nos EUA os donos de clubes de futebol são admirados por admitirem que almejam lucrar com seus clubes. (A exceção na NASL é meu amigo Gordon, dono do time em segundo lugar da liga, o San Antonio Scorpions, que destina todos os seus lucros para causas beneficentes). 
  
A resposta mais contundente veio do dono do New York Cosmos, Seamus O’Brien, que me contou em uma reunião no Texas.
 
“Para entrar na MLS eu teria de pagar cerca de U$100 milhões pela franquia, mais os custos operacionais de montar e manter o time, construir meu próprio estádio e tudo mais. Enquanto na NASL eu pagaria uma fração deste valor e poderia investir estes U$100 milhões no meu, meu, meu (o britânico repetiu e enfatizou o pronome sublinhado) próprio ativo. Compare aonde a NASL estava dois anos atrás com onde ela está hoje. Examine cada dono de cada time desta liga. Agora imagine aonde esta liga estará em três ou cinco anos. A NASL não é uma liga inferior a MLS, é apenas uma liga mais jovem”. 
 
Ao ouvir isso, lembrei da lição básica que aprendi com os bilionários megainvestidores Warren Buffett e Howard Marks, “entre em business de grandiosíssimo potencial de crescimento cedo, enquanto ainda esta barato.”
 
Encontrei duas vezes com o executivo que Seamus contratou para tocar o New York Cosmos em seu escritório em Manhattan e ele abriu a estratégia operacional do clube. Outros donos de outros times também me mostraram seus planos para terem sucesso financeiro com suas equipes. Aqui nos Estados Unidos, os donos de clube entendem que quanto mais forte o rival, melhor para a liga inteira. Então rola uma "coopetição" (mix de cooperação e competição) bacana entre os donos. 
 
Pronto, havíamos decidido que iriamos colocar o time na NASL, a liga onde Pelé jogou! O próximo passo foi escolher entre montar um time do zero ou comprar algum time (ou franquia como dizem os americanos) já existente. 
 
Nossa opção número um sempre foi comprar a lendária equipe Fort Lauderdale Strikers. Como explicam meus sócios Rafael Bertani: "Tem coisas que o dinheiro não compra! A história e o legado do Strikers são priceless (não tem preço)”. Paulo Cesso acrescenta, “Quem é o goleiro que fez a melhor defesa de todas as Copas do Mundo? Gordon Banks! Quem os alemães dizem ser o seu próprio Pelé? Gerd Muller! Quem foi que Pelé disse ser o melhor jogador do mundo? George Best! Essas lendas do futebol que me fizeram sonhar jogaram no Fort Lauderdale Strikers! Outras estrelas que vestiram o manto vermelho e dourado foram Elias Figueroa, Nene Cubillas, Marinho Chagas e Ray Hudson.” Porém, os donos do Strikers haviam recebido mais de dez propostas para venderem o clube e as negociações estavam complicadas. 
 
Estudei a fundo o caso do Indy Eleven, time onde joga o campeão mundial Kleberson. No seu primeiro ano de existência, o clube foi lucrativo e teve casa cheia em todos os jogos, mesmo terminando em último lugar na liga. Consideramos montar uma equipe do zero. Mas, a menina dos olhos sempre foi o Strikers.
 
Depois de meses de negociação com os ex-donos do Strikers, que seguem como donos do Carolina Hawks (outro time da NASL), anunciamos a compra do time na ultima sexta-feira. Sabemos da responsabilidade de assumir o time fundado em 1977 e já estreamos com o pé direito: no primeiro jogo do Strikers com novos donos brasileiros (nós!) já batemos recordes! Com apenas 28 segundos de jogo, o atacante Fafa, o artilheiro do nosso time, marcou o gol mais rápido da história do Strikers. 
 
Concluo convidando startups nos setores de tecnologia, saúde, esportes, gestão e mídia a entrar em contato para nos ajudar a quebrar mais recordes e revolucionar o esporte bretão.

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