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Di Stéfano: o primeiro Pelé não foi brasileiro, foi argentino

Luis Augusto Simon

Do UOL, em São Paulo

07/07/2014 18h00

Alfredo di Stéfano morreu nesta segunda-feira no hospital Gregorio Maranon, de Madri. Vítima de um ataque cardíaco. Estava internado desde 5 de julho, um dia depois de completar 88 anos. Passou mal almoçando com a família em um restaurante a 400 metros do Santiago Bernabeu, o estádio onde construiu seu nome e se transformou em lenda.

Status, esse, confirmado pela Fifa. Argentino transformado em espanhol pelas estradas tortuosas do futebol, ele é considerado pela Fifa um dos cinco maiores da história. Do grupo que tem Pelé, Maradona, Beckenbauer e Cruyff, é o mais antigo. O primeiro. É o único que nunca disputou um Mundial.

Em 1954 (quando ainda defendia a Argentina) e em 1958 (já pela seleção da Espanha), o país que defendia não se classificou para o Mundial. Em 1962, uma contusão não o deixou entrar em campo no Chile, mesmo sendo submetido a tratamento intensivo. Ironicamente, morreu no meio de uma Copa do Mundo, a do Brasil.

418 gols em 510 partidas

Era chamado de Flecha Ruiva. Jogou em Huracán, River Plate, Millonarios de Bogotá e transferiu-se para o Real Madrid. Ali, jogador e clube se transformaram nos maiores do mundo, no início da segunda metade do século 20.

Foram 510 partidas e 418 gols. Ganhou a Liga dos Campeões cinco vezes seguidas, entre 1956 e 1960. Venceu também o Mundial de 1960. Sem contar os oito títulos espanhóis (1953/54, 1954/55, 1956/57, 1957/58, 1960/61, 1961/62, 1962/63 e 1963/64). Por duas vezes, ainda, foi eleito o melhor do mundo.

Fifa colocou Di Stéfano no Real

Para ter Di Stéfano, o Real Madrid travou uma guerra particular com o Barcelona. Sua vitória mudou a história do futebol mundial.  Em janeiro de 1953, o Barcelona comprou 50% do passe do atacante do River Plate. O jogador viajou a Madri e ficou por quatro meses na concentração do clube, esperando a definição do negócio. Chegou a jogar alguns amistosos.

Mas o Real comprou a metade do passe de Di Stéfano que pertencia ao Millonarios de Bogotá. E coube à Fifa decidir onde ele jogaria. Ficou definido que o jogador faria um rodízio entre os dois times, entre 53 e 57. Uma temporada em cada equipe.

O Barcelona protestou, ameaçou vendê-lo ao futebol italiano, mas acabou desistindo. Por muito tempo, se disse que houve a interferência do ditador Francisco Franco para que Di Stéfano terminasse em Madri.

Menino achava “40 garotos melhores” que ele

O craque começou a jogar em equipes de garoto do bairro Barracas de Buenos Aires. Jogava no “Unidos venceremos” e era fã do paraguaio Arsenio Erico. Foi para o River Plate, algo que disse algumas vezes, nunca esperava. “No bairro, havia uns 40 jogadores melhores do que eu, mas foram estudar, foram desistindo e eu tive sorte”.

Chegou ao River em 1944. O time era conhecido com A Máquina, com um ataque mítico formado por Moreno, Muñoz, Pedernera, Labruna e Lostau. Por eles, os argentinos garantem que venceriam as Copas de 1942 e 1946, que não foram realizadas por causa da Segunda Guerra Mundial.

Estreou em 1945 contra o Huracán, clube que defendeu no ano seguinte, por empréstimo. Fez dez gols em 25 jogos e voltou ao River. Em 1947, foi campeão com 27 gols em 30 jogos. Era ruivo e muito rápido, dando nova dinâmica a um time de estilo tranquilo, como era o River. Veio aí o apelido de “Flecha Ruiva”, dado pelo jornalista Roberto Neuberger.

Na seleção, estreou com seis gols em seis jogos

A grande temporada o levou à seleção argentina. Jogou dez vezes e fez seis gols. Em 48, foi vice-campeão com o River, marcando 13 gols. Em 1949, houve uma grande briga entre jogadores e dirigentes. Os jogadores fizeram uma greve. E muitos deles foram jogar na Colômbia, que havia formado uma liga pirata. Pagava-se muito. Era o Eldorado.

Fez 267 gols em 294 partidas e foi três vezes campeão. Nessa época, as federações da América do Sul reclamaram à Fifa que os colombianos levavam seus jogadores sem nenhuma compensação. A Fifa definiu que os jogadores poderiam ficar por mais dois anos e depois voltar aos times de origem.

O Millonarios resolveu, então, fazer muitos amistosos para arrecadar dinheiro. Um deles foi contra o Real Madrid, que derrotou por 4 a 2, com gol de Di Stéfano. Começou aí a guerra entre os gigantes espanhóis, que levou o grande craque ao grande time de Madri.

Dívida mundial

Em 1956, Alfredo Di Stéfano se naturalizou espanhol. Estreou dia 30 de janeiro de 1957, contra a Holanda. Fez três gols da vitória por 5 a 1.  Mesmo com sua presença, a Espanha ficou fora da Copa da Suécia.

Em 1962, já com 36 anos, contundiu-se durante o período de preparação. Junto com ele, estava Puskas, húngaro naturalizado espanhol. Viajou até Viña del Mar e ficou fora das três primeiras partidas. Se a Espanha se classificasse, ele, enfim, participaria de um Mundial. O Brasil vence e Di Stéfano nunca pode cumprir seu desejo. Pelé, que já pintava como seu sucessor, também se contundiu no Mundial. Não esteve na partida que eliminou a Espanha.

Pela Espanha, fez um gol de chaleira contra a Bélgica. Não há imagens de sua mais bela obra prima com a Fúria. Di Stéfano fez também quatro partidas não oficiais pela seleção da Colômbia.

Foi sequestrado e ficou em cativeiro por 57 horas

Depois de tantas glórias no Real Madrid, Di Stéfano passou por um grande susto. Em 20 de agosto de 1963, foi sequestrado em Caracas, na Venezuela, onde disputava um Mundialito de Clubes. Os militantes da Frente Nacional de Libertação da Venezuela o detiveram por 57 horas, em busca de reconhecimento midiático à causa. Di Stéfano nada sofreu. No ano seguinte, despediu-se do Real perdendo a Copa Europa para a Inter de Milão. Foi para o Español, onde jogou por dois anos, marcando 14 gols em 60 partidas.

Depois de um ano de descanso, virou técnico. Dirigiu o Elche e foi para a Argentina, onde ganhou o título de 1969 com o Boca. Voltou à Espanha e foi campeão com o Valencia. Trabalhou no Sporting de Lisboa, no Rayo Vallecano, no Castellon e ganhou a Recopa novamente com o Valencia em 79. Em 81, foi campeão com o River Plate.

No ano seguinte, foi técnico do Real Madrid. Perdeu cinco títulos: o espanhol na última rodada e também as finais da Copa do Rei, da Recopa e da Copa da Liga. Voltou ao Boca em 85, ao Valencia entre 86 e 88 e, novamente, ao Real em 90. Sem títulos.

Um oitentão (quase) casado com uma moça de 30

Teve seis filhos. Todos revoltaram-se quando o pai, no ano passado, decidiu casar-se com a secretária Gina Gonzalez, de 36 anos. Conseguiram, na Justiça, o direito de gerir o dinheiro do pai. A noiva desistiu do casamento.

Em sua casa, em Madri, construiu uma estátua de mármore. Uma bola. Na base, a inscrição “Gracias, vieja”, que também foi o título de sua autobiografia. Di Stéfano e a bola foram uma simbiose que levou o mundo ao êxtase. Ele foi o primeiro grande ídolo mundial e transformou ela no grande objeto de desejo de garotos do mundo todo.

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