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O futebol brasileiro nasceu em Itu antes de Charles Miller

Alunos e padre jesuíta seu reúnem com uma bola de futebol em 1897 no colégio São Luis de Itu - Acervo Colégio São Luís
Alunos e padre jesuíta seu reúnem com uma bola de futebol em 1897 no colégio São Luis de Itu Imagem: Acervo Colégio São Luís

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

11/04/2014 06h00

A foto acima, de 1897, é muito provavelmente a primeira imagem de uma bola de futebol no Brasil. Os garotos em trajes de missa, alunos do colégio São Luis rodeiam um padre jesuíta no interior de São Paulo. Um deles pisa em uma imensa calota que lembra uma atual bola de basquete.

Eles a usavam durante as manhãs e tardes em que se dividiam em duas equipes defendendo lados opostos do pátio do colégio. Uma marca na parede mostrava o local onde os garotos deveriam empurrar a bola. Eles só podiam usar os pés ou a cabeça. O jogo já era mais ou menos popular nas universidades europeias, mas era novidade no Brasil.

Foram os padres jesuítas, dizem pesquisas recentes, que trouxeram o futebol para o país na segunda metade do século 19, antes do filho de britânicos Charles Miller voltar da Europa com duas bolas e um livro de regras debaixo do braço.

Em 1895, Miller reuniu funcionários de uma companhia de gás e de uma ferrovia para bater bola no centro de São Paulo, naquele que é considerado o nascimento “mítico” do nosso futebol.

Muito antes disso, porém, em 1878 um religioso chamado José Maria Mantero, recém-empossado reitor do colégio São Luis, viajou à Europa para saber quais eram as novidades pedagógicas propostas pelos padres jesuítas do Velho Mundo.

Ele voltou de lá com um livro em francês chamado “Os jogos do colégio”, um compêndio de cerca de 80 jogos praticados em escolas jesuítas no mundo todo. Na primeira página havia uma descrição e o modo de jogar do “Ballon au camp” (Bola no campo). “Esse jogo é o mais bonito e o mais interessante de todos”, escreveram os padres.

O “Ballon au camp” (ou bate-bolão, como os brasileiros o batizaram) foi o embrião do futebol no país, afirma o pesquisador Paulo Goulart, que em maio lançará o livro Pontapé inicial para o futebol no Brasil – O bate-bolão e os esportes no Colégio São Luís: 1880-2014, que contará essa história com detalhes.

“No bate-bolão”, diz Goulart, “havia uma bola própria trazida especificamente para o jogo, o direcionamento dada a ela era apenas com os pés, e o objetivo era acertar um ponto específico defendido pelo adversário. Esses três elementos são o tripé que fundamenta o futebol na minha concepção.”

Foi o historiador José Moraes Neto, autor de Visão do Jogo - Os Primórdios do Futebol, de 2002, quem levantou pela primeira vez a tese da contribuição jesuíta para a importação do futebol.  

“O futebol association, o campo regulamentar, o 11 contra 11, isso tudo vem com o Charles Miller mesmo, não tem como negar”, pondera o historiador da PUC-Campinas. “Mas o jogo em si, a bola, a disseminação em escolas, nas fábricas, isso é anterior a ele.”

Uma grande contribuição de Moraes a essa discussão foi o cruzamento da lista de matriculados no colégio São Luis no final do século 19 com a ata de fundação da Liga Paulista de Futebol alguns anos depois.

Moraes descobriu que muitos alunos do colégio continuaram a jogar futebol no Estado, o levaram para suas cidades natais e, anos mais tarde, fundaram a primeira federação de clubes da região.

“Esse garotos que vão fundar a liga deram seus primeiros chutes na bola no colégio de Itu”, diz Moraes. "Foi a escolinha de futebol deles", complementa Goulart.

O PRIMEIRO CAMPO

No começo, pela falta de espaço adequado para jogar bola, os alunos bateram suas primeiras peladas no pátio do colégio, um descampado que os jesuítas arrumaram para as aulas de educação física, grande novidade da época.

Alguns anos depois, outro reitor do São Luis, notando a popularidade do esporte entre os alunos, arranjou um terreno contíguo ao colégio e mandou fazer um campinho com dimensões semelhantes às especificadas pela International Board, a entidade secular que define as regras do esporte.

Esse terreno, na vila de Santa Maria, em Itu, é provavelmente o primeiro campo de futebol do país.

Hoje em dia, no prédio em que funcionava o colégio São Luis há um destacamento do Exército brasileiro.

No colégio, que completa 147 anos de fundação, continuam estudando os filhos da elite do Estado. Ele funciona agora no centro de São Paulo, em uma das transversais da Avenida Paulista.

Entre seus ex-alunos estão o velejador Amyr Klink, o piloto Airton Senna, o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab e o deputado federal Paulo Maluf. 

O PAI DA CRIANÇA

A discusão sobre a paternidade do futebol brasileiro existe praticamente desde que ele nasceu. O próprio Paulo Goulart, autor do livro sobre os jesuítas boleiros, conta que há registros de jogos de futebol no final so século 19 em outro colégio jesuíta no Rio de Janeiro.

Em Visão de Jogo, José Moraes Neto descreve registros de peladas de marinheiros de navios estrangeiros que atracavam nas praias do país, além de operários batendo bola durante suas folgas.

Pesquisadores de Bangu, por exemplo, levantam a tese de que um escocês que vivia lá e jogava futebol em sua terra natal teria levado o esporte para o Rio de Janeiro alguns meses antes de Miller fazer seu famoso jogo de 1985.

No meio dessas informações, Moares explica qual a sua visão sobre o nascimento do futebol no Brasil: "Você tem a memória oficial de que o futebol começou nas elites e depois foi disseminado nas classes populares. O que eu discuto é que fora das elites, mesmo nesse momento inicial, você também tem o futebol no meio ferroviário e nos meios operários, nas escolas".

A GÊNESE DO FUTEBOL NO BRASIL*

1879-80 — O padre Antero, reitor do São Luis, vai à Europa conhecer as novidades pedagógicas e esportivas.

1880 — Ele volta com um livro de regras do futebol e algumas bolas. O esporte começa a ser jogado em Itu de maneira embrionária (chutes para o alto, contra a parede...)

1887 — Os alunos começam a se dividir em duas equipes. Os padres fazem marcas na parede e dizem que a bola deve chegar ali (o futuro gol).

1894 — O novo reitor institui mudanças profundas no campo, marca a grande área, distribui camisas coloridas para que se visualizem times diferentes e levanta as traves (ainda sem travessão).

1895 — Paralelamente ao que acontece em Itu, Charles Miller reúne amigos e funcionários de fábricas para a primeira partida oficial de futebol no país, no centro de São Paulo. Esse é o nascimento “mítico” do esporte no Brasil.

1895 — Os jesuítas de Itu instituem o prêmio de “campeão de futebol” que era dado não a uma equipe, mas ao jogador que mais se destacasse no ano. O primeiro campeão foi o aluno Arthur Ravache, que mais tarde teria participação decisiva na organização do futebol paulista.

1897 — Dezenas de estudantes do São Luis se reúnem para a foto que abre essa reportagem, possivelmente a primeira imagem de uma bola de futebol de que se tem notícia no Brasil.

*Informações de Paulo Goulart, pesquisador da história do futebol.

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