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Vadão conta como lançou dois jogadores que foram o melhor do mundo

Luis Augusto Símon

Do UOL, em São Paulo

23/02/2014 06h00

Quando, em 1992, viu o centroavante alto e magro sair da área, buscar a bola e arrancar com ela, grudada ao pé esquerdo, antes do chute fatal, Vadão sentiu que a sorte estava ao seu lado. Nove anos depois, teve a certeza, sim, de que o raio pode cair duas vezes no mesmo lugar. Foi quando viu a mesma arrancada, reta, sem firula, rumo ao gol. O autor, agora, era um típico garoto de classe alta. Destro.

Rivaldo foi eleito o melhor jogador do mundo em 1999. Kaká, em 2007. Ambos foram revelados por Vadão, no Mogi Mirim e no São Paulo. E o treinador teve de ser rápido para que os craques pudessem ser bem aproveitados.

Rivaldo foi um presente de Wilson de Barros, presidente do Mogi Mirim, que, decidido a renovar o time, ouviu alguns olheiros do Nordeste e contratou Rivaldo e Valber, ambos do Santa Cruz. O time pernambucano pediu apenas que os jovens participassem da Copa São Paulo de Juniores. “Vai lá dar uma olhada nos jogadores que eu trouxe”, disse o presidente. Vadão viu Rivaldo. E imaginou o que aquele pernambucano poderia fazer se tivesse uma melhor preparação física.

“Perguntei ao Wilson se estava tudo certo. Ele falou que precisava apenas acertar uns documentos e eu pedi para ele ir de avião para Pernambuco resolver o assunto para que a gente não perdesse os jogadores”, afirmou o técnico, que hoje comanda a Ponte Preta.

Vadão, ex meia esquerda habilidoso do Monte Azul, havia encerrado a carreira no Derac, de Itapetininga, em 1982. Paralelamente, havia feito o curso de Educação Física na cidade. “Foi de graça, porque entrei em primeiro lugar”.

Em 91, havia substituído interinamente os treinadores Pedro Rocha e Geraldo Duarte no Mogi Mirim. Wilson resolveu efetivá-lo. Era uma época em que o 3-5-2 era algo execrado, pela péssima campanha do Brasil de Sebastião Lazaroni na Copa do Mundo de 90. Mas Vadão percebeu que tinha alguns jogadores versáteis na mão e resolveu apostar no mesmo esquema que transformou o treinador da seleção em um pária.

“Eu tinha Polaco e Ademílson, dois laterais que avançavam por fora e por dentro. Tinha o Capone, um zagueiro que jogava na sobra e que tinha sido volante. E tinha o Fernandinho, que era meia, jogando como volante. Então era só avançar o Capone e o Fernandinho que o 3-5-2 virava 4-4-2. O Rivaldo, que era o centroavante, virava um meia e permitia o avanço do Valber, que era o cérebro do time. Era um 3-5-2 influenciado por aquela movimentação da Holanda de 1974”.

O “carrossel caipira”. Venceu oito jogos seguidos, Valber foi o artilheiro do Paulistão, com 17 gols. Foi campeão do torneio Ricardo Teixeira, vencendo o Bangu na final e levando o Mogi Mirim ao Rio-São Paulo.

O Corinthians foi contratar Valber e Vadão disse a Nelsinho Baptista que Rivaldo era o craque. E lá se foram os dois e mais Ademílson e o incansável Leto. Vadão ficou. Não houve um convite de time grande. Em 95, foi para o Guarani, brigou com Djalminha e saiu depois de três meses. E começou de novo. Treinou Araçatuba, XV de Piracicaba (foi campeão da Série C), voltou ao Mogi Mirim, voltou ao Guarani, foi para a Matonense, foi campeão paranaense com o Atlético em 2000 e... enfim, a grande chance. O Corinthians, multicampeão de Luxemburgo e Osvaldo Oliveira.

“No dia da minha apresentação, o Edílson brigou com a torcida e foi embora. Já tinham saído o Gamarra, o Dida, o Edu e outros. Comigo, ficaram o Marcelinho e o Ricardinho. Não deu certo e saí.” 

No ano seguinte, chegou ao Morumbi com a missão clara de dar chance aos jovens da categoria de base e montar um time renovado. Sem pressão foi a garantia. Tempo para trabalhar foi a promessa. O São Paulo estava disputando a Copa São Paulo e havia pouca gente para treinar entre os profissionais. Vadão, então, pediu a Edinho, treinador da base, que lhe mandasse alguns reservas.

Harison, o craque do time na Copinha, não veio. Veio Kaká. “Logo fiquei impressionado com ele. Um jogador muito vertical, percebi que o potencial era  enorme. Ele foi ganhando chances e entrando no time.”

Já havia participado de sete jogos e feito um gol, quando chegou a final do Rio São Paulo. No primeiro jogo, no Rio, o São Paulo havia vencido o Botafogo por 4 a 1. O time que era bicampeão do mundo estava perto de ganhar seu primeiro Rio-São Paulo. Mas as coisas não estavam caminhando bem.

“Eles fizeram 1 a 0 no primeiro tempo e o jogo estava muito morno. Não acontecia nada. Eles atacavam mais, mas não era um sufoco. Mas, e se fizessem um gol? Resolvi arriscar e coloquei o menino. Kaká fez um  gol aos 34 e outro aos 37 e ficamos com o título”.

Vadão não se assume como o cara que ensinou Kaká a jogar. “Nada disso, se não fosse eu, ele chegaria no mesmo lugar maravilhoso que chegou. Eu só adiantei as coisas. Ele foi jogando tão bem que o Felipão levou para a Copa de 2002”.

As promessas de tempo para trabalhar duraram pouco. A diretoria se entusiasmou, começou a exigir resultados e Vadão foi demitido após uma derrota por 4 a 3 em casa, para o Grêmio. Foram apenas 30 partidas. “Não adianta. Quando a torcida balança o alambrado, o treinador cai. Não existe planejamento”.

Desde então, em 13 anos, foram mais 17 contratos. Alguns times o tiveram por mais de uma vez. Atualmente, é a quarta passagem pela Ponte. Pelo Guarani, também foram quatro.

Vadão é pessimista com o futebol atual. “Está inviável, os contratos são milionarios e os clubes pagam o que não podem. É um círculo difícil de romper. Viu quanta gente ganhou dinheiro com a venda do Neymar. Ora, se todo mundo faturou porque ele, que é o craque não vai querer ganhar muito? “

Ele não acredita em um pacto financeiro que possa salvar os clubes. “Imagina que todo mundo combine um salário máximo. Basta três derrotas seguidas para se romper o combinado. E o que se vê hoje é a tristeza de um time com tradição, com história, campeão brasileiro como o Guarani, em uma situação insustentável. Ou vende o estádio ou arruma um abnegado para sustentar, ou uma empresa para tomar conta. De todo jeito, é triste”.

Vadão sonha com uma nova chance em time grande, mas sabe que é difícil. “Queria ter agora aquelas chances de 2000, 2001. Estou muito melhor, mas acho que errei em não me adaptar a umas regras do mercado. Hoje, tem de ter empresário bom. Tem patrocinador que exige técnico, nem é o clube que resolve. Tem uma máfia e eu não faço parte dela”.

O jeito é continuar trabalhando. Ele comemora o lançamento de Junior, lateral esquerdo da Ponte. “Tem 16 anos, a mesma idade que lancei o Fernandino, esse do Manchester City, lá no Atlético. Lancei o Cícero, também. O Gabiru, que tristeza, não? Chegou no auge e não soube lidar. Ele precisava de carinho, de abraço, de orientação. Muito jogador não sabe lidar com a fama, depois que para, sofre muito”.

E, depois da Ponte, o que virá? “Calma, eu estou chegando agora, começando o trabalho e você já quer que eu saia? Tenho muita coisa boa a fazer aqui”, diz, Vadão. 

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