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ReportagemEsporte

O grito entalado na garganta há 15 anos enfim ecoou

No longinqüo ano de 2008, na primeira final de Libertadores disputada pelo Fluminense, o abjeto e diabólico Sobrenatural de Almeida deu um drible de corpo no Gravatinha e, na última partida contra a LDU, fez chorar um Maracanã lotado de tricolores.

Por isso, dessa vez, 15 anos depois, quando surgiu uma segunda chance de conquistar a América, exorcizando aquele fantasma do passado, o eterno tricolor Nelson Rodrigues, lá em cima, resolveu reforçar a tropa.

Foram convocados, então, Telê Santana, Castilho e Carlos Alberto Torres, ilustres ex-jogadores e técnicos que brilharam por aqui com as três cores que traduzem tradição.

No encontro, discutiu-se como impedir que a hedionda figura agisse, durante a partida, no outrora Maior e Mais Belo Estádio do Mundo.

Fora de campo, desde quinta-feira, viu-se que a torpe entidade já agia à solta. Violência em Copacabana, confusões e pancadaria comendo soltas no entorno e na entrada do Maracanã; sua presença era clara e as previsões de conflitos se tornavam cada vez mais sombrias.

A impressionante invasão da "hinchada" do Boca praticamente dividiu o Maraca, deixando ainda mais apreensiva a "comissão técnica celestial" convocada pelo mais famoso (e talentoso) tricolor de todos os tempos.

- O negócio é esquecer esse "Almeida" e ganhar na bola. Temos time pra isso - garantiu Telê, com a experiência de dois títulos da Liberta e dois Mundiais Interclubes, fora ter sido o artífice de uma das mais famosas seleções brasileiras de todos os tempos, a de 82, reverenciada globalmente apesar de não ter ganhado a Copa.

E os 45 minutos iniciais pareciam confirmar tal tese. O tricolor foi absoluto, diante de um adversário que parecia ter entrado em campo pensando apenas em proteger o 0 a 0, que levaria para os pênaltis, onde seria favorito, graças ao seu extraordinário goleiro Romero.

Cano fez 1 a 0, finalizando uma linda jogada típica do esquema de Fernando Diniz, e o Boca praticamente não ameaçou.

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- O importante é manter o ritmo na etapa final - lembrou Castilho.

Mas não foi bem assim.

- Por que recuaram? - resmungou o Capita.

E veio o castigo, no gol de Advíncula. E a prorrogação, após o empate em 1 a 1:

- Ô, Gravatinha, você tem que marcar o Sobrenatural de Almeida! Vai levar um baile de novo? - cobrou o Nelson.

As saídas de Marcelo e Ganso irritaram Telê, apesar da argumentação de Castilho que era preciso oxigenar a equipe.

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- Mas precisavam sair os mais talentosos? - insistiu Telê, num muxoxo.

- Esse menino John Kennedy é fazedor de gols - comentou o Capita, mantendo o otimismo,

E foi exatamente o artilheiro cria de Xerém que, aproveitando passe de cabeça de Keno, encheu o pé e estufou a rede, recolocando o Fluminense em vantagem.

- Chupa, Sobrenatural de Almeida! - urrou o Gravatinha.

Que logo se arrependeu ao ver a expulsão de Kennedy, na comemoração fora de campo, pois já tinha amarelo. Menos mal que, ao final do primeiro tempo da prorrogação, o lateral-esquerdo Fabra, do Boca, também foi expulso, reestabelecendo a igualdade numérica. E veio o segundo tempo da prorrogação. Foram 15 minutos mais de pressão e sofrimento.

Mãos dadas, Nelson Rodrigues, Telê Santana, Castilho, Carlos Alberto Torres e o Gravatinha, fizeram lá no céu uma corrente de orações e o Fluminense resistiu. E os tricolores que saíram de sua casas, junto aos mortos que saíram de suas tumbas puderam, enfim, comemorar, soltando o grito de campeão entalado há 15 anos na garganta. A América é tricolor.

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DIPLOMADO

Técnico sempre elogiado pela forma que monta seus times, mas até esse ano sem títulos, Fernando Diniz agora pode ser considerado um dos melhores do Brasil, com a conquista merecida da Libertadores. Está diplomado como grande treinador e como profeta, pois disse a John Kennedy, quando o colocou em campo: "Você fará o gol do título". Bingo!

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Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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