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Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Elza Soares, o anjo do Anjo das pernas tortas

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Menon

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

20/01/2022 19h17Atualizada em 20/01/2022 21h33

20 de janeiro de 2021.

Elza Soares morre aos 91 anos

20 de janeiro de 1983.

Garrincha morre aos 50 anos.

Trinta e nove anos separam a partida do casal que marcou época no futebol brasileiro.

Elza e Mané.

Os trinta e nove anos poderiam ser mais. É possível dizer que Manuel Francisco dos Santos, o Garrincha, o Anjo das Pernas Tortas, poderia ter morrido antes dos 50 anos, como morreu, não fossem a companhia e a dedicação da cantora Elza Soares. O Anjo teve um anjo.

Garrincha, retratado muitas vezes como um idiota limítrofe, capaz de comprar, em Estocolmo, um rádio que "falava sueco" e ficar triste porque, de volta ao Brasil, só "falava brasileiro", era um conquistador.

E Elza Soares foi conquistada ou deixou se conquistar em 1961, quando o Brasil se preparava para a Copa de 62.

E continuou durante a Copa. Garrincha prometeu o título a Elza e foi recompensado com muitos beijos dentro do chuveiro, onde todos os jogadores, nus é claro, se banhavam.

O caso era de conhecimento geral. E todos pediam para Garrincha esconder seu amor passageiro. Só que não era passageiro. Ele rompeu com Araci, sua namorada, com Nair, sua mulher e foi viver com Elza no final de 1962.

É fácil imaginar como uma mulher negra, sambista e amante do maior jogador brasileiro da época seria tratada: vagabunda e destruidora de lares.

Um adendo: Garrincha havia destruído na Copa. Fez gol de cabeça, de falta, de pé esquerdo e direito. Pelé, o Rei, estava fora de combate.

E um lar fora destruído mesmo. Ruy Castro conta, em "Estrela Solitária", portentosa biografia de Garrincha, a repercussão de uma entrevista de Nair, abandonada, grávida e com mais seis filhos, em uma televisão. Até tiro ela levou. Não acertou.

A união com Elza logo teria um terceiro elemento. O álcool. E um quarto. A depressão.

Garrincha estava em crise com o Botafogo. Estava com problemas no joelho. Na Copa de 1966, fez um gol, mas já era uma sombra do que foi.

Ficaram juntos até 1977. Elza, que havia feito de tudo por ele, de lutar por contratos melhores a pedir ajuda ao governo por um cargo qualquer, acidente de carro, a decadência física, a péssima passagem pelo Corinthians, os jogos pelo Milionários em troca de migalhas, mas não resistiu a agressões.

Ela não aceitaria aos 44 anos, o que havia conhecido aos 13, quando o pai a obrigou a casar com um colega de trabalho - do pai e não da criança - que a havia estuprado. E a agredia quase todo dia.

Garrincha já não driblava. Batia. E Elza cansou de apanhar. Fez denuncia, mas se recusou a ir além com medo que Garrincha fosse preso por quatro anos.

Foi seu último grande gesto pelo amor de sua vida. Vida que terminou hoje. 39 anos depois de Mané.