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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Menon: Caro Abel, você não entende nada do Brasil do samba e de Graciliano

O escritor Graciliano Ramos - Divulgação
O escritor Graciliano Ramos Imagem: Divulgação
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Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

01/10/2021 12h33

Bom dia, Abel. Não sei se você vai ler essa cartinha. O seu trabalho é árduo, com muita disciplina, rigor e dedicação diária e falta tempo para outras coisas.

É sobre esses atributos que você diz faltar às vezes aos brasileiros que eu gostaria de falar, caro Abel.

Você já viu um desfile de Carnaval? O rigor de não ultrapassar o tempo permitido, o trabalho árduo realizado o ano inteiro, a sincronização fruto de treino e disciplina? Aquilo é coisa de um ano de amor e dedicação.. E tudo resulta em uma explosão de alegria e criatividade.

Somos assim, Abel. A gente trabalha muito e com alegria e criatividade. É a diferença entre um samba e um fado.

Você acha que Santos Dumont não trabalhou muito para fazer o 14 Bis?

Você acha que Graciliano Ramos, meu escritor preferido, escreveu Angústia, Insônia, São Bernardo, Vidas Secas e outras maravilhas assim, de uma sentada? Aquele estilo seco, duro, conciso - impossível acrescentar ou tirar uma vírgula - tem muito trabalho árduo, dedicação diária, rigor e disciplina.

Carlos Gomes? Guimarães Rosa?

Paulinho da Viola, Cartola? Delegado, Jamelão e Martinho da Vila?

Ah, vamos falar apenas de esporte?

Adhemar Ferreira da Silva, bicampeão olímpico no salto triplo, trabalhou tanto como Nelson Évora e Pedro Pichardo os campeões portugueses da mesma prova. Só que Évora é caboverdiano e Pichardo, cubano. Foi só naturalizar, Portugal não teve trabalho algum.

Eder Jofre? Ayrton Senna? Aurélio Miguel? Trabalho e dedicação diária.

Vamos falar de futebol?

Pelé não trabalhava muito? Com rigor, disciplina, dedicação diária? Tanto quanto Cristiano Ronaldo ou Morais, o zagueiro carniceiro da Copa de 66.

E há muitos outros. Não vou gastar linhas falando da maravilha que é o futebol brasileiro.

O fato é que aqui se trabalha muito Abel. Cuca, que você derrotou novamente, trabalha muito. Renato que você enfrentará, trabalha muito.

Trabalho não é exclusividade de europeu. Aliás, nós, historicamente, trabalhamos muito pra vocês. Explorados.

Abel, você caiu em uma pegadinha. Caiu em um clichê ridículo e preconceituoso. O mesmo que usamos naquelas piadas infantis ridicularizando a inteligência dos portugueses.

No nosso caso, foi uma maneira criativa de ironizar os colonizadores, aqueles que tiraram os brasileiros de nossas casas para abrigar nobres portugueses que fugiram de Napoleão e abandonaram o povo português à própria sorte.

Abel, não vou entrar em discussão quando você diz que o presidente de Portugal é "o mais titulado do Mundo".

Aí, a vantagem é clara.

Um abraço Abel. Você talvez fique muito tempo no Brasil. Abandone a postura de José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, abra os olhos e se permita a entender e amar o Brasil.

PS - Entre um treino e outro, ouça "Construção" de Chico Buarque de Holanda.

Uma obra prima que deu muito trabalho e que exigiu dedicação, rigor e disciplina.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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