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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Meus três minutos no Maracanã de Aguaí

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Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

23/02/2021 15h19Atualizada em 23/02/2021 15h19

A vida era boa. Muito boa. Futebol de segunda a sábado e matinê no domingo, no Cine São José. Um bom farwest, troca de gibis e Cesário e seus Rockets.

Eram os sixties. Os anos 60. O que mais um moleque podia fazer, amém disso.

Nosso campo era em frente de casa, na Washington Luis com a General Osório. Campo de areia, gols de tijolo ou chinelo e cuidado para a bola não cair no terreno do Juca Pires. Os cães eram bravos. Quem chutou, tinha de pular o muro e trazer a bola de volta.

Depois, atravessamos a linha do trem e fomos jogar em um terreno baldio, onde se instalavam os circos. Um dia, a bola acertou a cara do Zu, pai do Perilão. Muito bravo, esparramou com a molecada.

Havia muitos e muitos campinhos espalhados pela cidade. A cena futebolística era intensa. Times como CBD, Cruzeirinho, Flamenguinho, Palmeirinha, Corinthians, São Paulinho, todos de garotos.

Jogavam no campo do Loló, um pasto, mas tinha grama. Ali, já era um nível maior. Nunca cheguei. Era um campo para observação de treinadores como Jaburu, o sapateiro. Treinava os garotos e cobrava ida na missa.

Toda a malha de campinhos e garotos e timinhos era a base do futebol aguaiano. A meta era chegar no Estádio Municipal dr. Leonardo Guaranha, o nosso Maracanã.

Ali, era outro nível. Os times eram Bangu, Posto de Sementes, Real Saragossa (assim mesmo), River, Boca, Siriri, Dínamo, Vila Braga, Vila Nova, São Luiz, Curtume, Comercial.

Ali, jogavam craques como Dirceu, Tião Canela, Valdirzinho (Garrincha Loiro), Valdir Moreno, Provinha, Ratão, Paulo Grilo, Mirtu do Anísio, Zeca do Anísio, Romeu, Nísio, Zé Flecha, Paulo da Leiteria, Paulo do Nofre, João Cró, Serginho Jumento, Roso, Reduzida, Pedrinho Pintado, João Cró, Morcego, Marcelo, Dito Sabino, Gazela, Dinei Preto, Dinei Branco, Gilmar, Osvardão Bordin, Aécio, Geo, Carlos da Carolina e muitos outros.

Minhas maiores lembranças dos domingos de futebol não eram exatamente ligadas aí futebol. Nunca joguei lá. Mas comia os doces do Argemiro Doceiro, chupava sorvete do Sanin e laranjas do João Goiaba. Também ouvia Beatles, que o Cesário linha pra tocar. Foi assim que conheci Molly e Desmond, de Obladi Obladá.

Um dia, em 63, o estádio estava agitado. Todos diziam que havia um olheiro do Atlético-MG observando Geo. Como se fosse possível as qualidades de nosso craque terem chegado até Belo Horizonte. E como se fosse possível um olheiro passar despercebido em Aguaí.

Nesse dia, estava com meu pai. Foi o dia em que o São Paulo venceu o Santos por 4 x 1. O Santos fugiu de campo. Na parede da memória, esse é o quadro que fica.

Bem, o tempo passou. Peguei, como tantos, um ônibus da Viação Nasser e fui tocar a vida.

Aguaí, só nas férias. Já eram os 80. E havia um novo ponto de futebol. Era a chácara do senhor Nelo Bertachini e seus filhos, Miltinho e Nelinho. Era um campo de grama, comprido e iluminado. Maltratei a bola lá. Muitas vezes.

Bem, um dia estava em casa e o Miltinho ligou. "Vai ter um jogo no Estádio. Nós contra os veteranos. Vamos?"

Nós? Já me senti acolhido. Orgulhoso. Peguei um tênis (nunca usei uma chuteira na vida), atravessei a linha e fui.

Um calor senegalesco, como diria meu amigo Renato Fabretti. Escolhi a lateral direita. E montei um plano de jogo. E de sobrevivência. Fico paradão aqui. De olho na bola longa. Olho bem e Renato, sem dominar. Nem pensei na possibilidade de drible.

E lá estou em campo. A caminhada para chegar até a lateral pareceu uma maratona.

E o plano começou a dar certo. Só que não. Veio a primeira bola esticada e me preparei para a bicuda.

Mas a bola não estava só. Zequinha estava junto. E houve o choque. Eu, a bola e Zequinha. Zequinha, a bola e eu. Uma tríade, um bloco só, uma unidade monolítica.

Choque? Um atropelamento.

Zequinha caiu. Eu também. O pavor estava em seus olhos.

"Por que você fez isso. Eu era muito amigo de seu pai".

Não consegui articular um pensamento, uma resposta. Dei a mão a ele e...pedi substituição imediata, sem direito a nenhum pedido para que continuasse.

Foram meus três minutos no Estádio Municipal dr. Leonardo Guaranha, templo do futebol aguaiano, nosso Maracanã, hoje totalmente reformado.

Não há mais Argemiro Doceiro, não há mais Cesário, mas voltarei lá quando a pandemia acabar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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