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Marcel Rizzo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que Fifa vai mudar o calendário para agradar clubes rebeldes da Europa

Gianni Infantino (ao centro) e presidentes de clubes após criação da Associação Mundial em 2019; Real Madrid articulou acordo - Divulgação/Real Madrid
Gianni Infantino (ao centro) e presidentes de clubes após criação da Associação Mundial em 2019; Real Madrid articulou acordo Imagem: Divulgação/Real Madrid
Marcel Rizzo

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

Colunista do UOL

19/04/2021 09h48

Em todas as suas recentes declarações, Gianni Infantino disse que é preciso mudar o calendário do futebol e valorizar os torneios de clubes. O movimento do presidente da Fifa está diretamente ligado ao anúncio feito na noite deste domingo (18) que abalou a estrutura do esporte: a oficialização de que a maioria dos clubes mais ricos da Europa planeja formar uma liga independente.

Infantino tem dito estar aberto ao diálogo, principalmente com os clubes é claro, mas não só: o cartola afirmou que qualquer pessoa que tiver uma ideia de como acomodar um novo calendário a partir de 2024 que não diminua a importância dos confrontos de seleções, mas ao mesmo tempo agregue valor aos campeonatos dos clubes que escreva para ele.

2024? Sim, até lá o calendário do futebol mundial está engessado. A Fifa trabalha por ciclos, e o de 2020/2024 já tem contratos comerciais amarrados que dificultariam muito uma mudança radical. A própria Liga dos Campeões da Uefa tem seus principais acordos válidos até a temporada 2023/2024.

Para encaixar o que seria um primeiro passo para um protagonismo maior dos clubes no calendário da Fifa, o Super Mundial com 24 participantes, oito europeus e seis sul-americanos e promessa de receita que passaria do bilhão de dólares, a Fifa precisou decretar o fim da pouco lucrativa Copa das Confederações. A pandemia adiou indefinidamente esse Super Mundial, deixando um vácuo nas datas para a criação da Superliga Europeia.

A nota da Fifa, na noite de domingo, criticou a criação da Superliga, mas fez um aceno aos clubes pelo diálogo. Por quê? A Fifa sonha que possa realizar uma Copa do Mundo de Clubes ainda mais ampliada do que a dos 24 concorrentes planejada, que englobe centenas de participantes. A questão é: a Fifa estaria disposta a abraçar um modelo que ignore critérios técnicos, como promoção e rebaixamento e privilegie uma elite que faz o dinheiro girar? Pode ser que sim.

Galinha dos ovos de ouro
Para entender um pouco mais esse processo precisamos voltar um pouquinho no tempo, para novembro de 2019: naquele mês foi anunciada a criação da Associação Mundial dos Clubes, com inicialmente oito integrantes de todos os seis continentes: Real Madrid (Espanha), Milan (Itália), Auckland City (Nova Zelândia), Boca Juniors (Argentina), River Plate (Argentina), América (México), Guangzhou (China) e Mazembe (RD Congo).

Na foto do anúncio publicada, entre outros meios, no site oficial do Real Madrid aparece os dirigentes desses clubes e um importante convidado: Gianni Infantino. Ao perceber o movimento de clubes por ligas independentes, Infantino procurou o maior incentivador para isso, Florentino Pérez, chefão do Real Madrid, e costurou a criação dessa associação que já flertou até com outros clubes, como o Flamengo durante o Mundial de Clubes de 2019.

Internamente há quem defendesse na Fifa que o Super Mundial de Clubes, que inicialmente teria "só" 24 clubes para conseguir se adequar ao calendário atual, tivesse convidados. Ricos convidados. O assunto não foi adiante porque sabia-se que haveria chiadeira daqueles que defendem critérios técnicos para se classificar a torneios, mas a sementinha estava plantada. E dela nasceu essa Associação Mundial de Clubes, que é a versão mundial para a liga europeia, com uma diferença: tem a Fifa participando, enquanto a Uefa está fora do processo, por enquanto, da Superliga anunciada neste domingo.

A Fifa sabe que o movimento rebelde dos clubes europeus é um caminho sem volta. Mesmo que a Superliga não saia do papel, talvez por questões jurídicas, haverá repercussão que vai gerar alterações em formatos que privilegiem essa elite financeiramente. A Fifa, portanto, quer participar desse bolo.

Mas há também um instinto de sobrevivência para a federação internacional abraçar torneios de clubes que podem ignorar a periferia: se deixar de regular o calendário, a Fifa corre o risco de que jogos de seleções caiam em desuso, o que seria catastrófico para a entidade já que sua galinha de ovos de ouro continua sendo a Copa do Mundo de seleções.

Caso amanhã acabassem os confrontos de seleções, e consequentemente a Copa do Mundo, a Fifa iria à falência. No ciclo de quatro anos entre as Copas, a Fifa tem prejuízo em três e (muito) lucro somente em um, justamente o ano em que 32 seleções (hoje) se encontram em um ou mais países para a Copa.

Em 2022, a previsão da Fifa é faturar US$ 1,6 bilhão com a Copa do Qatar e ter um lucro líquido ao final do ano de US$ 1,5 bilhão. Em 2020, por exemplo, o prejuízo da entidade foi de US$ 683 milhões e a previsão para 2021 é de um rombo de mais de US$ 500 milhões. Tem perda de receita com a covid-19, claro, mas é natural a Fifa ter prejuízos nos anos anteriores à Copa.

A Fifa vai tentar se equilibrar entre não afrontar suas confederações, como a Uefa, mas de olho no retorno financeiro que pode ter com torneios de clubes mais rentáveis. Se vai conseguir é outro capítulo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL