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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Campeões de 1994 e 2002, talvez por mágoa, não foram ao velório de Pelé

Pelé em comemoração com jogadores do Santos - Pictorial Parade
Pelé em comemoração com jogadores do Santos Imagem: Pictorial Parade

Colunista do UOL

03/01/2023 14h50Atualizada em 04/01/2023 10h30

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Por que os ex-jogadores do tetra e do penta não compareceram ao velório do Pelé?

Não vou generalizar, mas a grande maioria tem mágoa do Rei. Porque quando ele era comentarista da Band e, depois, da Globo, fez críticas em alguns momentos.

Já faz um bom tempo que os jogadores brasileiros não aceitam críticas. Ficam magoados, sentidos. E, obviamente, escolhem como o pior comentarista aquele que não passa pano e nem paparica — e não sou só eu que faço esse papel, e muito bem, por sinal.

Não aceitaram críticas do Rei do futebol. Sem dúvida, chamaram Pelé de ultrapassado ou disseram que não entendia nada de futebol.

O Romário, por exemplo, falou que o Pelé calado era um poeta.

Ele falou primeiro para o Pelé e depois para mim, coincidentemente dois comentaristas que foram críticos a ele em algum momento.

Em 1994, a seleção que seria tetra nos Estados Unidos foi muito criticada pela grande maioria dos jornalistas, pelo futebol truculento que apresentava.

Demorou para nós entendermos que o Parreira se preocupou em ganhar o título, em fazer o Brasil sair da fila de 24 anos sem uma Copa do Mundo. Hoje eles são muito reconhecidos, merecidamente, pelo que fizeram. Mas não engoliram as críticas de ninguém, nem do Pelé!

Em 2002, ele também fez críticas ao futebol da seleção em algum momento da Copa. Ele não era mais comentarista, mas estava lá e, nas entrevistas, dava a sua opinião, com todo o direito.

Mas aqueles jogadores também se magoaram. Tanto que, na hora da entrega da taça, o capitão Cafu se recusou a pegá-la das mãos do Pelé e mostrou, batendo a mão na plataforma em que subiu para levantar a taça, onde ele queria que o Atleta do século deveria colocá-la.

Perdeu uma oportunidade única de receber a taça diretamente das mãos do maior jogador da história e único tricampeão mundial.

Cafu justificou que não conseguiu antecipar o voo e ir ao velório, mas só o fez depois de receber muitas críticas. Por que não falou antes?

O tempo passou, mas a mágoa desses mimados, não.

Nunca dedicaram nada ao Rei. Nenhuma fala, nenhuma homenagem, simplesmente ignoraram a existência do Rei Pelé.

Não ter nenhum representante desses dois títulos no velório do Pelé foi vergonhoso para a história do futebol brasileiro.

A exceção foi Mauro Silva, campeão em 1994 e hoje vice-presidente da Federação Paulista de Futebol.

Romário, pelo menos, mandou uma coroa de flores, Ronaldo também, e postaram uma homenagem a ele. Mas o mundo percebeu essa falta de respeito e de consideração.

Os jogadores pentacampeões deveriam se unir, como fizeram para me atacar, em homenagem ao Pelé.

Cadê o Kaká, que falou que o brasileiro não reconhece seus ídolos? Pois bem, Kaká, depois do que vimos no velório do Pelé, ficou claro que quem não reconhece os grandes ídolos é você. Ou talvez você tivesse ido por um cachê interessante.

Não sou só eu que estou destacando esse péssimo comportamento. Vários jornalistas de TV, rádio, portais e jornais ficaram surpresos negativamente com a ausência em massa desses campeões.

Todas as críticas que esses ex-jogadores do penta estão recebendo eu falei durante a Copa do Qatar. Mas algumas pessoas me criticaram, defendendo esses caras. Só que agora, essas mesmas pessoas estão fazendo críticas a eles.

Eu chamei atenção para a diferença de comportamento entre eles e os ex-jogadores argentinos. Enquanto os hermanos estavam vibrando como torcedores, os nossos estavam pagando de dirigentes.

Isso porque esses ex-jogadores devem achar que o futebol começou quando eles nasceram. Serve para muitos jovens que se recusam a estudar o passado, e também para muitos jovens da mídia também.

Não existe e nem existirá um cara como o Pelé, porque tudo mudou. O amor pelo futebol e pelas camisas que vestem diminuiu muito.

Será que ainda continuam achando que quem bate algum recorde de gols ou qualquer outra coisa que o Pelé já fez tem comparação ao Rei?

Será que ainda vão falar que não precisa ser campeão do mundo para virar mito?

Cruijff, Falcão, Sócrates e tantos outros que são reconhecidos, mesmo sem serem campeões do mundo, são idolatrados também pelo comportamento, ideologia e pensamentos. Além de terem jogado demais e amado as camisas que vestiram.

Falei depois da eliminação da seleção na Copa do Qatar que a CBF precisa cortar de vez a panelinha formada há tempos por pessoas que têm influência em algumas escolhas.

E, falando na Copa, não apareceu nenhum componente da seleção. Neymar foi representado pelo pai, mas de madrugada estava numa festa curtindo um samba — isso mostra toda a dor que sentiu pela morte do Rei Pelé.

E os outros?

Daniel Alves, que se acha o maior jogador por ter o recorde de títulos, nem uma postagem fez.

Será que o Tite ou o Juninho Paulista não poderiam aparecer para representar a última seleção a jogar uma Copa?

São tantos detalhes que passaram batido para muita gente, mas para mim e muitos outros, não.

Os jogadores brasileiros devem tudo à existência do Pelé, porque foi ele quem colocou o jogador brasileiro no mapa do futebol mundial.

Somos respeitados porque nascemos na terra do Rei. Pelé foi um cidadão do mundo, e seu passaporte é universal.

Precisamos mudar a mentalidade desses jovens talentos que poderão fazer parte da próxima seleção, e mostrar o que representa o Pelé.

Antes de jogar com a famosa amarelinha, eles precisam conhecer a história do Rei, para valorizarem aquela camisa quando a vestirem.

Agora que ele se foi, sua história deveria entrar nos livros das escolas desde cedo, porque as crianças precisam crescer sabendo a história do cara que fez o mundo conhecer o Brasil. Não só da bola, mas de tudo que temos de lindo por aqui.

Vamos pensar nisso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL