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Cambista da final tem carro importado e até programa sócio-torcedor: "Vendo comodidade"

Julio César dos Santos mostra os ingressos na sede da empresa que tem em sua casa - Luiza Oliveira
Julio César dos Santos mostra os ingressos na sede da empresa que tem em sua casa Imagem: Luiza Oliveira

Luiza Oliveira

Do UOL, em Belo Horizonte

23/07/2013 06h05

“Não vendemos ingresso, vendemos comodidade”.  A frase impressa no cartão de visitas expressa bem o lema da Nego Gato Entreterimentos (sic). Basta um telefonema e você não precisa dormir na fila do Mineirão para garantir lugar na final da Copa Libertadores, pode parcelar a compra no cartão de crédito e ainda recebe o valioso ingresso no conforto da sua casa.

Não se trata de uma concorrente da Ticketmaster ou Ingresso Fácil. A empresa pertence ao cambista mais famoso de Belo Horizonte que acumula seis prisões - uma delas por formação de quadrilha -, passeia de Hyundai Tucson e frequenta as melhores baladas da capital mineira.

Cambista já foi preso por formação de quadrilha e falsificação de documento

  • Luiza Oliveira/UOL

    Julio César Nego Gato diz que foi preso cinco vezes por ser tachado como cambista. Ele conta que já foi enquadrado em diversos artigos da lei como praticar crime contra a economia e ferir o estatuto do torcedor. No mês de abril, sofreu acusação ainda mais grave e ficou 40 dias na cadeia por formação de quadrilha e falsificação de documento público.

    "Nessa última foi formação de quadrilha. Para eu poder ficar preso, falavam q eu comandava um tanto de gente, falaram que todo mundo que estava na fila era a mando meu. No meu trabalho sou só eu, minha secretária e pessoas que são freelancers".

    Na ocasião, a máquina de cartão de crédito usada para receber pagamentos de quem não dispunha de dinheiro trocado para comprar as entradas foi apreendida junto com o carro Hyundai Tucson. De acordo com a polícia, o veículo servia de escritório móvel para o contraventor.

    Nego Gato diz que serve como bode expiatório da polícia para dar uma resposta à população que reclama que os ingressos estão nas mãos dos cambistas. "As pessoas procuram desculpas para o erro delas. A polícia erra por não conseguir combater os ingressos vendidos ilegalmente. Eu tenho empresa, pago imposto, tenho CNPJ e tudo em dia".

Entre idas e vindas da cadeia, Julio César dos Santos, o Nego Gato, não demonstra qualquer medo da polícia e faz inveja a muito empresário experiente. Discursa sobre marketing, carrega o mantra ‘propaganda é a alma do negócio’ e já acumula oito mil clientes. Kotler ficaria orgulhoso.

Nas vésperas da final Libertadores, ele faz a festa e enche o bolso às custas de ingressos superfaturados. Na tarde desta segunda-feira, as cinco linhas de telefone da empresa que tem sede na sua própria casa estavam ocupadas e seu celular acumulava 108 chamadas não atendidas depois de acatar pedidos de Rondônia, Brasília, Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

As mensagens por Facebook, Twitter, Orkut eram tantas que ele chegou a formalizar um pedido de desculpas pelas redes sociais por não conseguir satisfazer seus clientes. Todo mundo em busca de um único objeto de desejo: o ingresso do jogo entre Atlético-MG e Olimpia-PAR no Mineirão.

“Eu vendo comodidade, eu não vendo ingresso. Só é crime se você vender o ingresso a um valor maior ao estabelecido nele. Eu não vendo ingresso mais caro, eu vendo o trabalho que eu tenho para poder dormir na fila, eu presto um serviço”.

Os clientes fiéis têm suas regalias. Eles fazem parte do programa sócio-torcedor ‘Gato na Veia’. Pagam R$ 30 por mês e ganham a preferência na compra dos ingressos, o mesmo método utilizado por muitos clubes em todo o mundo.

As semelhanças com o mesmo projeto do Atlético ‘Galo na Veia’ não são mera coincidência. Ele afirma ser o inspirador do programa que faz sucesso entre os atleticanos e gera quase R$ 2 milhões mensais ao clube.

Apesar do gosto pelas baladas e pela boa mesa, Nego Gato tenta passar um ar de simplicidade. A casa em obras, os pés descalços e a camisa surrada do Atlético remetem a naturalidade com que ele fala sobre o trabalho com a certeza de que é tão digno e honesto como qualquer outro, mesmo com tantas acusações e passagens pela polícia.

Para o jogo de quarta-feira, ele vende os ingressos que custam R$ 400 nas bilheterias por R$ 635. O valor parece abusivo, mas ele tem justificativa para cada real inflacionado.

Segundo ele, sua empresa contratou 40 pessoas (que ele chama de freelancer) para dormirem na fila por 14 dias ao preço de R$ 50 a diária. Dessa forma, cada pessoa teve um custo de R$ 700, chegando a R$ 900 ao somar o combustível e alimentação.

Como cada pessoa tem direito a comprar cinco ingressos, este custo será de R$ 180 por bilhete. Todo o gasto é repassado ao cliente no valor da venda que ainda sofre um acréscimo de R$ 55, a taxa de lucro da Nego Gato Entreterimentos para este jogo – normalmente é de R$ 25,00. Feita esta conta, o ingresso chega ao preço de R$ 635.

“Eu não quero extorquir ninguém. Não vou pegar ingresso de R$ 30 e vender por R$ 500. Eu vendo barato, eu sou certo, vendo no cartão e ninguém vende. No cartão eu mostro para as pessoas, no comprovante está escrito Nego Gato Entreterimentos (sic) porque é a minha empresa”.

  • Luiza Oliveira/UOL

    Cartão de visita do cambista que tem empresa para venda de ingresso

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