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Aos 36, Carol venceu químio e terminou São Silvestre: "aprendi a valorizar"

A corredora Ana Carolina Godói comemora após terminar a São Silvestre 2019 - Arquivo Pessoal
A corredora Ana Carolina Godói comemora após terminar a São Silvestre 2019 Imagem: Arquivo Pessoal

Pedro Lopes e Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo

01/01/2020 04h00

Apaixonada por corrida, Ana Carolina Godói separou R$ 185 no comecinho de 2018. O cofrinho serviria para financiar o objetivo antigo de cruzar a linha de chegada da São Silvestre. A descoberta de um câncer de mama em julho, aos 35 anos, mudou sua perspectiva sobre a vida, mas não foi suficiente para impedi-la de disputar a tradicional prova do fim de ano paulistano.

Um ano e meio depois do diagnóstico, Carol, como é conhecida, chegou pela segunda vez ao número 900 da avenida Paulista, depois de percorrer os 15 km do trajeto pelo centro de São Paulo. Na primeira, ano passado e sem cabelos, caminhou por grande parte do percurso, menos de uma semana depois de uma sessão de quimioterapia e sob relutância de sua médica. Na segunda vez, ontem (31), já com os cachos balançando, viu as pernas tremerem mas em ritmo mais forte. Antes de cruzar a linha de chegada no asfalto, Carol tinha cruzado aquela que marcava o fim do difícil e invasivo tratamento.

"Quando eu vi escrito 'Chegada' não tinha mais pernas, ou, se tinha, ali terminou o restante. Elas tremiam tanto, o coração disparou. Eu agradeci a Deus por ter me fortalecido tanto durante o percurso e essa prova. As lágrimas corriam nos olhos e eu não conseguia pensar em mais nada, só agradecer mesmo pela força, de superar o tratamento tão difícil e terminar com cabelo, com um sorriso no rosto", conta ao UOL Esporte.

O início da luta contra o câncer foi em janeiro de 2018, quando Carol suspeitou de um nódulo no seio. O diagnóstico veio no meio do ano, e o tratamento foi iniciado em setembro. A corredora tinha o hábito de manter um cofrinho anual com o dinheiro para inscrição nas provas, mas enquanto debatia consigo mesma e com sua médica se participaria ou não da São Silvestre, acabou perdendo a inscrição. A oportunidade ressurgiu das mãos de uma amiga.

"Iniciei o tratamento em setembro de 2018, e o dinheiro da São Silvestre estava guardadinho em um cofre que faço todo ano. Surgiu a dúvida: correr ou não correr? Em dezembro estava fazendo quimioterapia, sem cabelo e tudo", explica. "Não consegui fazer a inscrição, mas uma amiga estava repassando a dela e jogou na internet. Acho que era para ser mesmo, falei para ela 'quero'. Minha oncologista não queria liberar, eu tinha feito quimioterapia na quinta-feira, a corrida era logo em seguida. Ela dizia 'você não vai aguentar, vai ficar muito debilitada, por conta do sol'. Eu falei 'vou, vou ver no que vai dar'. Fui, caminhei boa parte do percurso, e já saí pensando na próxima".

Se a primeira prova foi para testar os próprios limites e provar para si mesma que podia continuar alimentando sua paixão (Ana Carolina é uma corredora experiente e já praticava o esporte antes de 2018), a de ontem foi comemorativa. Carol completou a fase mais delicada do tratamento quimioterápico, recuperou os cabelos e hoje faz uso apenas de medicação oral.

"Dá muito medo, porque o tratamento do câncer você não sabe como termina. Sabe como começa, mas não como termina. Eu sempre pensei em vencer o tratamento para correr a segunda prova. Lá no começo do ano, já tinha dinheiro reservado, logo que abriu a inscrição eu fiz para comemorar, agora em grande estilo com um pouco de cabelo [risos]. Corri para comemorar vitória, ainda não está totalmente finalizado o tratamento, mas é uma vitória", conta. "Terminei a quimioterapia, terminei os outros tratamentos, agora faço uso de comprimido, que vou utilizar por dez anos".

Natural de Barueri, a corredora confessa que pensou em desistir da corrida ao sabe que teria que enfrentar a doença. Os mesmos médicos que relutaram em liberá-la para a São Silvestre de 2018 foram fundamentais para que ela mantivesse viva a paixão pela corrida.

"Eu vinha em três anos de corrida, até pensei em desistir, mas a médica não deixou, disse que tinha que continuar. Era algo que ia me ajudar. Eu corria bem mais, tinha mais fôlego, hoje em dia não é mais assim, mas pedem para eu continuar correndo. O esporte foi determinante, não me deixou ficar na cama com os colaterais da quimioterapia. Junto com a família, foram pontos-chaves".

A trajetória de luta, sobrevivência e superação traz, segundo Carol, uma mudança na forma de encarar o dia a dia. Casada, com um filho de oito anos e duas provas já planejadas para 2020 (uma delas é a Volta da Pampulha, que acontece anualmente em Belo Horizonte), ela diz que mudou a forma de encarar e valorizar a vida.

"Tinha uma moça antes da largada, linda, mas estava mal-humorada. Eu conversando com o rapaz do lado, contei a minha história, e essa moça já mudou a fisionomia. As pessoas têm tudo, são saudáveis. Ela estava ali, ia correr, [onde] muitas pessoas queriam estar. Quando ouviu a minha história, ela já teve um olhar diferente".

"Se desse para eu sair falando para todo mundo essa experiência dos meus últimos dois anos, seria interessante. As pessoas precisam valorizar o que a gente tem. Eu era uma pessoa que reclamava muito. Tinha tudo, e reclamava de tudo que tinha. Hoje aprendi a valorizar as coisas. Tenho uma família, tenho minha casa, e tenho meu trabalho. E, graças a Deus, tive uma oportunidade de me tratar, e estou aqui falando com você".

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