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Minas afasta Maurício Souza, impõe multa e exige retratação 'imediata'

Patrocinadores do Minas repudiam falas homofóbicas de Maurício e cobram ações do clube  - Reprodução/Instagram @mauriciosouza17
Patrocinadores do Minas repudiam falas homofóbicas de Maurício e cobram ações do clube Imagem: Reprodução/Instagram @mauriciosouza17
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

26/10/2021 20h46

Diferentemente do que esperava a própria diretoria do Minas Tênis Clube, Maurício Souza aceitou dar um passo atrás e se desculpar por uma postagem homofóbica feita no Instagram no dia das crianças. Pela decisão, o central foi multado pelo clube de Belo Horizonte, vai ficar um tempo afastado, mas continuará defendendo o time, que é um dos favoritos da Superliga.

Em nota, o Minas disse que o presidente do clube, Ricardo Vieira Santiago, informou Maurício sobre seu afastamento por "tempo indeterminado". "O atleta também recebeu uma multa e foi orientado a fazer uma retratação pública imediata", diz a nota.

Meia hora depois, Maurício escreveu o seguinte no Twitter. em uma conta com menos de 50 seguidores, e não no Instagram, onde postou as ofensas e tem 249 mil seguidores: "Pessoal, após conversar com meus familiares, colegas e diretoria do Clube, pensei muito sobre as últimas publicações que eu fiz no meu perfil. Estou vindo a público pedir desculpas a todos a quem desrespeitei ou ofendi, esta não foi minha intenção", escreveu, sem explicar pelo que estava pedindo desculpas.

Em sua nota, o Minas destacou que "não aceita e não aceitará manifestações intolerantes de qualquer forma e que intensificará campanhas internas em prol da diversidade, respeito e união, por serem causas importantes e alinhadas com os valores institucionais". O clube ontem havia defendido o direito de o central expressar suas opiniões e a mudança de postura veio depois de pressão de patrocinadores.

No comunicado publicado há pouco, o clube negou informação publicada mais cedo no Olhar Olímpico de que foi apresentada na reunião da diretoria em que ficou decidido o afastamento de Maurício uma carta de atletas defendendo o companheiro. "Frisamos ainda que, em nenhum momento, houve sinalização dos demais atletas do Fiat/Gerdau/Minas em deixar a equipe, como veiculado na grande imprensa." A coluna reafirma a apuração de que a carta chegou inclusive a ser lida no encontro.

A nota do Minas não diz, mas Maurício também foi informado que ele está com a corda no pescoço para ser demitido por justa causa. Ele recebeu uma primeira advertência assim que chegou ao clube, por causa de postagens nas redes sociais, e a segunda agora. Se houver necessidade de uma terceira, ela virá com demissão. Se não houver a retratação prometida, também.

Fala homofóbica gera furacão

No dia das crianças, Maurício compartilhou a reprodução de uma reportagem sobre o desenho do Superman ter se assumido bissexual com o seguinte comentário: "A, é só um desenho, nada demais. Vai nessa e vamos ver onde vamos parar". Depois, postou a foto de uma jogadora de basquete transexual dizendo: "Se você achar algum homem nessa foto você é preconceituoso, transfóbico e homofóbico".

O post de duas semanas atrás gerou intensa discussão nas últimas 24 horas, ultrapassando as barreiras da barulhenta comunidade do vôlei. Isso porque, ontem à noite, o Minas enfim se posicionou sobre a postagem homofóbica do central, dizendo que discordava dela, mas que defendia o direito à livre manifestação de seus atletas. Ela dizia o seguinte:

"O clube é apartidário, apolítico e preocupa-se com a inclusão, diversidade e demais causas sociais. Não aceitamos manifestações homofóbicas, racistas ou qualquer manifestação que fira a lei. A agremiação salienta que as opiniões do jogador não representam as crenças da instituição sócio-desportiva. O Minas Tênis Clube pondera que já conversou com o atleta e tem o orientado internamente sobre o assunto."

A postura do Minas, porém, gerou revolta na base de fãs do vôlei, que tem forte influência da comunidade LGBTQIA+. Esses torcedores foram às redes sociais do Minas e dos dois patrocinadores masters do time, Gerdau e Fiat, para pedir a demissão de Maurício.

Em ato coordenado, Fiat e Gerdau se posicionaram hoje, tanto em diálogos com a diretoria do Minas, quanto publicamente, exigindo, ambas as empresas, que fossem adotadas as "medidas necessárias" contra Maurício, e o quanto antes. Pressionada, a diretoria se reuniu à tarde, sabendo da vontade dos patrocinadores —e do risco de perdê-los—, da pressão da torcida, e de um movimento dos jogadores que saíram em defesa de Maurício.

Como publicou a coluna, foi lida, na reunião, uma carta em que atletas do elenco ameaçavam sair se Maurício fosse punido. A informação dada na reunião era de que todo o elenco assinaria. Mas ao menos dois se recusaram: Luciano e Maique, que é assumidamente gay. Pelo Twitter, Honorato também negou participação na carta. William Arjona, capitão do time, posteriormente negou de forma veemente à coluna, e depois nas redes sociais, que tenha partido dele a iniciativa da carta que, de qualquer forma, não vingou.

E nem precisou. Depois de tomada a decisão de que Maurício seria afastado e, posteriormente, quando houvesse base jurídica, demitido se não se desculpasse, a diretoria conversou com o jogador que, de forma surpreendente, aceitou dar um passo atrás. Ele, que havia postado no Instagram que, se tivesse de "escolher um lado", ficaria "do lado que acha certo, com minhas crenças, valores e ideais", aparentemente voltou atrás.

Depois de o Globo Esporte publicar que Maurício aceitaria se desculpar, e antes mesmo da nota do Minas, o jogador Douglas Souza, que é gay, deixou claro que não concordava com a decisão. "O famoso não vai dar em nada, né. Toda vez a mesma coisa, cansado disso de sempre ter falas criminosas e no máximo que rola é uma 'multa' e uma retratação nas redes sociais. Até quando?", escreveu no Twitter.

Mais cedo, Carol Gattaz, que é capitã do time feminino do Minas e se relaciona com mulheres, demonstrou sua insatisfação. "Homofobia é crime. Racismo é crime. Respeito é OBRIGATÓRIO. Está na lei, garantido pela constituição. Já toleramos desrespeito, gracinhas e preconceitos disfarçados de opinião por muito tempo. CHEGA", disse Gattaz no Instagram. Sheilla, outra estrela do time, postou apenas: "Homofobia é crime!", deixando seu recado.