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Prefeitura de São Paulo vai pagar R$ 760 milhões por cinco corridas de F1

Detalhe do Autódromo de Interlagos na cidade de São Paulo - Duda Bairros/AGIF
Detalhe do Autódromo de Interlagos na cidade de São Paulo Imagem: Duda Bairros/AGIF

20/05/2021 04h00

A Prefeitura de São Paulo se comprometeu a pagar US$ 125 milhões à Fórmula 1 para ter cinco corridas na cidade entre 2021 e 2025. Pela cotação do dia, esse valor supera R$ 660 milhões. Além disso, a administração municipal aceitou como cláusula contratual a contratação, por R$ 100 milhões, sem licitação, de uma empresa recém-criada, que tem donos ocultos, para promover esses cinco GP's. E essa empresa ainda vai ficar com toda a receita de bilheteria. Nessa conta não entram os custos das reformas de Interlagos, exigidas regularmente pela F1, que também vão sair dos cofres da prefeitura, uma vez que o autódromo é municipal.

O valor pago por São Paulo à Fórmula 1 é conhecido como "fee", uma taxa que dá a alguém (pode ser uma cidade ou um promotor) o direito de sediar uma corrida da categoria. Até 2019 esse direito era de um promotor privado no Brasil, da Interpub, e a prefeitura arcava somente com os custos operacionais da corrida, como arquibancada provisória, segurança e limpeza. Esse valor não ultrapassava R$ 40 milhões ao ano, e era contratado via licitação junto a empresas locais.

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Mas, em negociação realizada nas vésperas da eleição municipal do ano passado, já durante a pandemia, a prefeitura aceitou arcar ela mesma com o "fee". O anúncio do acordo foi realizado a três dias do primeiro turno, mas, alegando uma cláusula de sigilo no contrato, nem a prefeitura nem o governador João Doria (PSDB) divulgaram quanto seria pago à F1 pelo evento.

O Olhar Olímpico apurou que o valor é de US$ 25 milhões ao ano, por cinco anos. A coluna teve também acesso a documentos que mostram que a Prefeitura de São Paulo tem que pagar US$ 22,5 milhões (quase R$ 120 milhões) no dia 1º de junho, pela prova de 2021, prevista para novembro e que pode acontecer sem público. Apesar dessa incerteza, a gestão municipal não cogita não pagar.

Procurada via assessoria de imprensa, a prefeitura disse que não poderia comentar as informações, por sigilo contratual.

Bilheteria e cotas de patrocínio são de organizadora

Logo no começo da gestão João Doria como prefeito, o tucano disse à Reuters que acreditava ser "perfeitamente possível que ela (a corrida) continue funcionando com dinheiro privado". O contrato com a F1 chegou ao fim quando ele já era governador, antagonista do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), e coube a Doria o papel público de articulador para que a corrida continuasse em São Paulo e não se mudasse para o Rio.

Na prática, porém, o governo do Estado nada tem a ver com a corrida e o ônus do novo contrato é todo da prefeitura de São Paulo. Ao menos por enquanto. Existe um acordo verbal para que o Estado pague metade do valor da taxa, US$ 12,5 milhões (R$ 66 milhões), em um acordo no qual a prefeitura repassaria ao Governo as quatro cotas de patrocínio a que tem direito, e que têm valor de mercado de cerca de R$ 10 milhões cada. Se o governo Doria conseguir vendê-las, o rombo para o Estado cairia de R$ 65 milhões para R$ 25 milhões. Mas até agora não há nada assinado.

O contrato com a Fórmula 1 só dá à cidade de São Paulo direitos de imagem (a corrida agora se chama "GP São Paulo", não mais "GP Brasil) e de sediar a corrida, recolhendo impostos a partir do impacto econômico do evento. A receita de bilheteria vai para uma empresa chamada Brasil Motorsport, que a prefeitura diz ser controlada pelo fundo de investimentos Mubadala, estatal sediada em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Essa empresa é administrada por Alan Adler, CEO da agência IMM.

O contrato entre Fórmula 1 e a Brasil Motorsport prevê que a empresa fique também com cinco cotas de patrocínio, das quais quatro ela repassou à prefeitura de São Paulo. E, pelo combinado, quem vai vendê-las no mercado é o governo de São Paulo. Os paddocks, que geram receita expressiva, ficam com a F1.

A prefeitura também tem a obrigação contratual, imposta pela Fórmula 1, de contratar a Brasil Motorsport para fazer a operação da prova, como revelou o Olhar Olímpico no começo do ano. Pelo contrato, São Paulo repassa R$ 20 milhões ao ano para essa empresa, cujos sócios são empresas sediadas em Delaware (EUA), conhecido como um paraíso fiscal.

Por ser também dona do autódromo de Interlagos, a prefeitura ainda se comprometeu a não cobrar aluguel da organizadora da corrida de F1, abrindo mão da receita de locação do local para outros eventos durante a maior parte do segundo semestre de cada ano.

Impacto econômico de R$ 300 milhões é menor que o da Parada Gay

Em cada um dos próximos cinco anos, o GP São Paulo vai custar mais de R$ 150 milhões para os cofres públicos paulistanos e paulistas. A prefeitura, porém, calcula que o retorno direto e indireto pode ser maior do que isso. Uma das ideias é aproveitar uma brecha na Lei Cidade Limpa, que permite ações extraordinárias em eventos de interesse do município. Marcas patrocinadoras da corrida, especificamente, ou da Fórmula 1, de forma geral, poderiam explorar locais como a Ponte Estaiada, ou a Avenida Paulista, pagando diretamente à prefeitura.

A prefeitura também encomendou estudo que considerou a visibilidade dada a São Paulo não apenas pelas transmissões televisivas, mas cada vez que um piloto posta uma foto na cidade nas suas redes sociais, por exemplo. Esse valor superaria US$ 300 milhões ao ano em publicidade, que pode ser negativa em caso de um incidente grave.

Além disso, estudo da SPTuris apontou que a corrida de 2019 gerou impacto econômico de R$ 360 milhões na economia da cidade — o levantamento não aponta quanto isso significa de imposto para a prefeitura. Como comparação, a Parada Gay de 2019 proporcionou impacto de R$ 400 milhões, ante investimento de R$ 1,9 milhão da prefeitura.

Também como comparativo, o valor a ser pago pela prefeitura de São Paulo pelos GP's, sem considerar reforma de Interlagos, é maior do que o gasto na construção de metade dos estádios da Copa do Mundo. O Castelão, por exemplo, custou R$ 729 milhões em valores corrigidos. A Arena Pernambuco, R$ 749 milhões.