PUBLICIDADE
Topo

Roger lança projeto para publicar 50 livros de autores negros e indígenas

Roger Machado durante entrevista no novo CT do Bahia, em Salvador - Darío Guimarães Neto/UOL
Roger Machado durante entrevista no novo CT do Bahia, em Salvador Imagem: Darío Guimarães Neto/UOL
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

18/08/2020 04h00

Uma das principais vozes do movimento negro no futebol brasileiro, o técnico do Bahia, Roger Machado, quer promover a negritude e a luta antirracista para muito além do esporte. O treinador é o mecenas de um projeto que pretende lançar 50 livros de autores negros e indígenas nos próximos cinco anos e, quem sabe, se tornar uma editora no futuro. Já em 2020 serão publicados 10 livros da coleção Diálogos da Diáspora que, graças ao financiamento do Projeto Canela Preta, de Roger, chegarão ao mercado com preço acessível para a parcela mais carente da população, formada em sua maioria por negros.

"Quando minhas filhas eram pequenas, eu procurava livros para elas, de literatura infanto-juvenil, com autores e personagens negros, e tinha dificuldade e encontrar. Essa inquietação cresceu quando li o livro da Chimamanda Adichie que fala do perigo da história única, como é prejudicial o país quando a história é contata só por um lado, o lado que detém os meios da produção do conhecimento", conta Roger.

Essa inquietação também é presente na academia. "Menos 10% dos livros publicados no Brasil são de autores não brancos e isso é um reflexo da exclusão no espaço acadêmico. Com a chegada de mais negros à universidade, fruto das cotas socioraciais, a gente está tendo maior produção sobre racismo, lutas contra desigualdade social, e a gente entendeu que era importante ter um fomento de produção editorial desse espaço", conta Tadeu de Paula, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos coordenadores do Grupo de Pesquisa Egbé.

Os dois se encontram como pais com filhos numa mesma escola gaúcha. Ele disse: 'Que tal a gente pensar conjuntamente?' E eu disse que era isso que eu tava procurando fazer. Eu não conseguia achar o fio por onde começar, mas é isso que eu quero. E daí surgiu a ideia de nos próximos cinco anos eu fazer o financiamento de 10 publicações por ano de autores não brancos."

De acordo com De Paula, que é doutor em Saúde Coletiva, a iniciativa de Roger de financiar uma coleção que abre espaço no mercado editorial para autores normalmente segregados surpreendeu outros acadêmicos que atuam nesse campo. "O nosso conselho editorial tem 13 pesquisadores de diferentes áreas e de federais de todo o país. Ninguém conhecia recurso vir dessa fonte, do futebol. E é um lugar que tem muito dinheiro", diz.

A falta de espaço para autores negros no mercado editorial é mais um exemplo do racismo estrutural tão presente na sociedade brasileira. Para ter um livro publicado, um autor iniciante normalmente precisa colocar dinheiro do bolso e, mesmo assim, quando chega às prateleiras da livrarias, o livro tem um valor expressivo. Pelo projeto do Selo Diálogos da Diáspora, os custos de produção serão cobertos pelo financiamento do treinador. Um exemplar de 200 páginas que seria vendido por R$ 40 vai custar R$ 15.

"O financiamento produz um livro final acessível. Sem o financiamento a gente nunca ia conseguir lançar 10 livros. Ia conseguir lançar dois no ano. Quando ele paga a editora, a gente cria a coleção, ela acelera e sai esse ano", explica De Paula, que, pelo lado acadêmico, coordena o projeto com professor José Damico, também da Federal do Rio Grande do Sul. .

Os livros serão lançados pela Hucitec Editora, especializada em humanismo, ciência e tecnologia. O conselho editorial fará a curadoria para escolher, todo ano, ao longo de cinco anos, 10 obras preferencialmente de escritores negros e indígenas, nas mais diversas áreas acadêmicas: Antropologia, Sociologia, Psicologia, Urbanismo, Direito, Filosofia, Letras, Pedagogia, Comunicação, Arte, etc. A coleção também vai incluir literatura de ficção, poesia e saberes tradicionais, que são os conhecimentos que são produzidos fora da academia. Aí se encaixam mestres griôs, religiosos e das artes.

Os trabalhos pré-selecionados serão avaliados por um ou mais componentes do Conselho Editorial. A partir do banco de obras pré-selecionadas, os coordenadores (um tripé formado pelo Canela Preta, a editora e o Grupo de Pesquisa Egbé) selecionarão os 10 livros de cada coleção, com base em quatro critérios: diversidade de temas, de áreas de conhecimento, de gênero de autores/autoras e de regiões do Brasil.

O plano é que, a partir do ano que vem, seja aberto um edital para o recebimento de originais, que, por enquanto, devem ser enviados diretamente à Hucitec Editora. Roger, que já tem desenhado o projeto de um instituto, o Tiaduca (homenagem à sua mãe de criação, que era conhecia assim, e referência à educação), tem planos para que a coleção se transforme, no futuro, em uma editora voltada à publicação de autores negros.