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Flavio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sergio Pérez, apenas um mexicaninho contra esse mundão todo

Sergio Pérez chora no pódio em Mônaco: luta pelo título? - Divulgação/Red Bull
Sergio Pérez chora no pódio em Mônaco: luta pelo título? Imagem: Divulgação/Red Bull
Flavio Gomes

Jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. "Um multimídia de araque", diz ele. "Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo."

Colunista do UOL

30/05/2022 04h00

Esta é parte da versão online da edição deste domingo (29/5) da newsletter do Flavio Gomes. Na newsletter completa, apenas para assinantes, o colunista também fala da vitória de um brasileiro em Mônaco e traz o meme da semana. Para receber o boletim e ter acesso ao conteúdo completo, clique aqui.

No começo de dezembro de 2020, Sergio Pérez estava desempregado. Sua equipe, a Racing Point, havia sido comprada pelo milionário Lawrence Stroll, pai de seu companheiro de box, o jovem Lance. Os planos para 2021 já haviam sido anunciados. O time passaria a se chamar Aston Martin e a grande estrela da companhia seria o tetracampeão Sebastian Vettel, de saída da Ferrari. Como a outra vaga era do filho do dono, restava ao mexicano colocar o currículo no LinkedIn.

Veio então o GP de Sakhir, corrida inventada às pressas para compor um calendário mutilado pela pandemia. Seria disputada no anel externo do circuito do Bahrein, com voltas completadas em menos de um minuto — uma anomalia, tratando-se de F-1.

Não dá para dizer que o começo daquela prova tenha sido alvissareiro para Checo, como é conhecido o rapaz que estreou na categoria em 2011 aos 21 anos pela Sauber, passou um ano na McLaren e aterrissou na Force India em 2014 — equipe que ajudou a salvar da falência com empréstimos pessoais, chegando até a pagar salários de alguns funcionários.

Logo na primeira volta, rodou depois de um toque em Leclerc e caiu para último. As atenções estavam todas voltadas para um certo George Russell, que estreava pela Mercedes no lugar de Lewis Hamilton, derrubado pela covid-19. Talvez por isso mesmo ninguém tenha se dado conta da corrida que Pérez passou a fazer depois que parou nos boxes e voltou à pista para remar tudo de novo em busca das primeiras posições, num ritmo alucinante.

Checo fez uma prova impecável. Foi passando quem via pela frente com seu carro cor-de-rosa e, quando a Mercedes se embananou toda com os pneus de Russell e Bottas, apareceu do nada na liderança, e desse jeito inacreditável ganhou pela primeira vez na F-1. Era seu 190º GP. Nunca, na história, alguém tinha levado tanto tempo para ganhar sua primeira corrida.

Ainda assim, estava desempregado. Todas as equipes estavam com seus cockpits ocupados e havia apenas uma pequena chance na Red Bull, que não tinha curtido muito a discrição de Alexander Albon em sua primeira temporada completa como companheiro de Max Verstappen. Ao final daquele ano, Max levaria 11 troféus para casa, contra apenas dois pódios do simpático tailandês.

O drama de Pérez comoveu os fãs ao redor do mundo depois da vitória no deserto barenita. Um piloto como ele não pode ficar fora do grid, diziam os especialistas. Então Christian Horner, o chefe da Red Bull, reuniu-se com o guru Helmut Marko. A ideia de dispensar Albon estava madura — o time sempre foi um moedor de carne que não se importa muito em acabar prematuramente com carreiras de jovens inseguros, Alex seria apenas mais um. Chegara a hora de buscar alguém mais experiente e efetivo. Checo estava disponível. "Vamos nessa?", perguntou ao veterano dirigente. "Vamos."

E Pérez foi chamado pela Red Bull. Salvo aos 45 do segundo tempo.

A ideia da equipe era clara: para lutar com a Mercedes, precisava de alguém capaz de fazer pontos o tempo todo, ainda que não ganhasse muitas corridas. Essa parte ficaria com Max. Pérez se encaixava nesse perfil. E não decepcionou totalmente no ano passado. Fez 190 pontos, ganhou uma corrida, foi ao pódio cinco vezes, ajudou Verstappen a ser campeão — em Abu Dhabi, foi chamado de "lenda" pelo jovem holandês ao segurar Hamilton no início da prova.

Apadrinhado desde os 15 anos de idade pelo biliardário mexicano Carlos Slim, dono de um império de telecomunicações e considerado o 14º homem mais rico do mundo com uma fortuna que passa dos US$ 80 bilhões, não se pode dizer que Pérez seja um coitadinho. Tem uma estabilidade financeira invejável graças ao mecenato de Slim. Mas nunca foi considerado piloto de ponta. Jamais alguém olhou para o rapaz e enxergou nele um futuro campeão.

Na Red Bull, Checo ocupa um lugar muito óbvio de segundão na garagem da equipe. Mas com a vitória deste domingo em Mônaco, entrou em modo "sí, se puede". Na tabela, em terceiro lugar, foi a 110 pontos, só 15 a menos que seu companheiro e líder Verstappen. E apenas seis atrás de Charles Leclerc, da Ferrari. Se tivesse vencido o GP da Espanha uma semana atrás, resultado que segundo ele só não se concretizou porque o time pediu para que ele saísse da frente de Max, teria sete pontos a mais. E o parceiro, sete a menos. E o placar apontaria 118 para Verstappen, contra 117 de Pérez e 116 de Leclerc. E o campeonato estaria assaz interessante.

Horner falou depois do GP de Mônaco que Checo está na briga pelo título tanto quanto Verstappen. Não que todo mundo acredite nisso, mas o que resta ao mexicano senão confiar na palavra do patrão?

É bem difícil. Quando a hierarquia entre primeiro e segundo piloto é muito clara numa equipe, o segundo só ganha corrida se tiver alguém entre ele e o primeiro. Aí não tem como pedir para inverter posições. Ou se a o campeonato for muito fácil, como aconteceu algumas vezes com a Ferrari no início do século e com a Mercedes nos últimos anos — Barrichello e Bottas venceram GPs fazendo dobradinhas com seus parças; mesmo assim, sofreram com marmeladas como a de 2002 na Áustria, com Rubinho sendo instado a entregar a vitória a Schumacher.

Pérez chorou bastante no pódio monegasco. Foi o primeiro latino-americano a vencer no Principado desde o colombiano Juan Pablo Montoya, em 2003. Ele sabe que nunca esteve tão perto de brigar por um título na F-1. Mas também sabe que a tarefa é hercúlea — para usar um clichê bem besta.

Porque, no fim das contas, sabe que é apenas um mexicaninho contra todo esse mundão. E nesse mundão tem um piloto chamado Max Verstappen, que é duro, muito duro de bater.

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Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi publicado, quem tocou em Pérez no GP de Sakhir em 2020 foi Leclerc, e não Vettel. O erro foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL