PUBLICIDADE
Topo

Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Leclerc, Sainz e o roteiro que a Ferrari não escreveu

Charles Leclerc e a namorada, Charlotte Sine, durante as férias no México  - Charles Leclerc/Instagram
Charles Leclerc e a namorada, Charlotte Sine, durante as férias no México Imagem: Charles Leclerc/Instagram
Conteúdo exclusivo para assinantes
Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

09/01/2022 10h10

As fotos no Instagram mostram Leclerc feliz da vida, curtindo as férias com a namorada e amigos no México, mergulhando em lugares paradisíacos, visitando ruínas astecas. "Obrigado, México, foi sensacional", escreve o monegasco num dos posts.

Um desligar necessário, fundamental. Porque o campeonato que terminou foi desgastante, porque vem aí o maior Mundial da história. E, especialmente no caso dele, porque a pressão é forte, inédita e vem de todos os lados.

Menino de ouro da Ferrari, adotado pela escuderia ainda nas categorias de base, Leclerc terminou 2021 com um gosto amargo, com um sentimento diferente. Pela primeira vez em sua trajetória na F1, fechou um campeonato atrás de um companheiro de equipe.

Há dois agravantes aí. O colega estava em seu primeiro ano no time, num contrato com um quê de tapa-buraco. E, num passado recente, Leclerc deixou até um tetracampeão mundial para trás.

O monegasco integra a Academia de Pilotos da Ferrari desde 2016, ano em que conquistou a então GP3. Na temporada seguinte, foi campeão da F-2, o que lhe valeu a promoção para a F1 via Alfa Romeo, um caminho muito parecido com o que a escuderia desenhou para Massa.

Em 2018, foi 13º colocado no campeonato, quatro posições à frente do companheiro, Ericsson. Em 2019 foi alçado para a Ferrari e então surpreendeu a categoria: venceu dois GPs, conquistou sete poles e terminou o Mundial em quarto lugar, desbancando o parceiro do time, nada menos do que Vettel, um multicampeão. Em 2020, repetiu a dose: foi oitavo colocado, cinco posições à frente do alemão _que, sentindo-se sem espaço, deixou o time.

Para 2021 e 2022, a Ferrari então contratou Sainz. Um piloto ainda jovem _tem 27 anos_, com passagens por Toro Rosso, Renault e McLaren, mas que nunca arrancou suspiros, jamais foi incensado como "a próxima grande estrela".

Havia um motivo para o contrato durar apenas duas temporadas: Schumacher, hoje o integrante mais badalado da Academia de Pilotos da Ferrari. A escudeira acompanha de perto o desenvolvimento do alemão na Haas, com a ideia de puxá-lo quando o considerar pronto.

O problema é que esqueceram de combinar com o espanhol, e ele reescreveu o roteiro imaginado por todos. Conquistou quatro pódios e conseguiu uma marca impressionante: nenhum abandono em 21 GPs. No fim da temporada, foi o quinto colocado no Mundial de Pilotos, duas posições à frente de Leclerc, com 5,5 pontos de vantagem.

sainzmnc - Reprodução - Reprodução
Sainz, segundo colocado no GP de Mônaco, ao lado do vencedor, Verstappen, e de Norris, terceiro
Imagem: Reprodução

Foi impossível não notar. Virou assunto, que rende até hoje.

Norris, que dividiu a McLaren com o espanhol por duas temporadas, falou sobre a dureza de ser seu companheiro de equipe. "Ele é um dos melhores da F1. Ao seu lado, parecia que eu não era tão bom", afirmou o inglês.

Binotto, chefe da Ferrari, procurou contemporizar. Disse que o monegasco teve muita "falta de sorte" ao longo da temporada e que deixou "pelo menos 40 pontos" pelo caminho. (Amor é amor, não tem jeito.)

E a crítica mais dura veio de Marko, o todo-poderoso consultor da Red Bull. Bem ao seu estilo, sem papas na língua, lançou o seguinte para a revista "Auto, Motor und Sport", da Alemanha: "Sainz desmascarou Leclerc". Pesado.

O monegasco tem contrato com a Ferrari até o fim de 2024, e hoje o mais provável parece ser uma renovação com Sainz por pelo menos mais uma temporada. Schumacher ainda tem muito o que ralar.

Os planos de Leclerc para a temporada que começa em março, no Bahrein, certamente não incluem repetir 2021. Por trás dos sorrisos das fotos no México, há um piloto mordido.

Mas, de novo, seria preciso combinar com o espanhol. Quem não tem nada a ver com isso, está apenas fazendo o seu trabalho, com muita competência. E louco para mudar os rumos da história que escreveram pra ele.