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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ícone da resistência, Williams carregou fardo da morte de Senna até hoje

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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

28/11/2021 12h35

Ex-piloto e ex-mecânico, Francis Owen Garbett Williams estreou como dono de equipe no GP da Espanha de 1969. Tinha só um carro, um Brabham que comprou e que cedeu para um amigo íntimo, o piloto inglês Piers Courage, morto em um acidente em Zandvoort no ano seguinte.

Foi apenas o primeiro choque da sua carreira. De 1970 até hoje, a Williams viveu outros períodos difíceis.

Ou "curvas de aprendizado", como Frank Williams preferiu definir na primeira entrevista que me concedeu, em 1999. Já se vão 22 anos...

"Em 84, por exemplo, estávamos em curva de aprendizado, adaptando-nos ao turbo e mudando para uma fábrica nova", disse, na ocasião, uma conversa inesquecível no motorhome de Magny-Cours. Dois anos depois, sua equipe conquistou seu terceiro Mundial de Construtores.

É um ponto de vista que explica muito sobre a resiliência e o sucesso desse homem, o último dos garagistas ingleses a deixar a F-1 _só saiu no ano passado, quando sua equipe, a mítica Williams Grand Prix Engineering, foi vendida para um fundo de investimentos norte-americano, argh.

Por algumas temporadas, a Williams foi a equipe a ser batida na categoria. Por muito tempo, foi a detentora de todos os recordes. Mesmo com apenas 11 vitórias no século 21, a Williams ainda hoje é a quarta equipe mais vitoriosa da F-1: tem 114 vitórias, atrás apenas de Ferrari, McLaren e Mercedes. Em número de largadas, é a terceira, assim como em lugares no pódio. Em Mundiais de Construtores, é a segunda, com 9, atrás apenas dos 16 da Ferrari, frutos da Era Schumacher.

É uma equipe gigante. E que começou numa garagem. E que viu seu mentor se tornar tetraplégico após um acidente numa estrada, voltando de Paul-Ricard, em 1986. E que se agigantou ainda mais com isso.

A imagem de Williams numa cadeira de rodas comandando um dos times mais vitoriosos do esporte era inspiradora. Era encorajadora. Era pioneira, até.

Ao longo das últimas décadas, sete brasileiros correram pela Williams: Ayrton e Bruno Senna, Pace, Piquet, Pizzonia, Massa e Barrichello.

Sobre Pace, morto num acidente de avião em 1977, Williams me disse na mesma entrevista: "Tenho certeza de que seria campeão mundial".

Perguntei, claro, sobre Senna, morto num carro seu em 1994.

"Posso falar pouco sobre isso, porque foi um acidente. Há duas ou três teorias, mas até agora nada foi provado, nada foi descartado. É claro que há uma responsabilidade enorme sobre nossos ombros, e, quando fui para seu funeral, entendi o que sua morte significou para o Brasil. Foi a maior demonstração de amor, simpatia e respeito que já vi. Não divido minhas emoções com ninguém e não vou fazer isso hoje. Foi um dia triste para a Williams, para a McLaren, para a F-1 e para o Brasil. Foi um dos piores dias da história da F-1."

O inglês chegou a ser acusado de homicídio culposo e acabou inocentado pela Justiça italiana. Mas desde aquela entrevista, levo a impressão de que Williams nunca se recuperou daquele 1º de maio. Ele carregava aquele injusto peso. Carregou até hoje.
Aquela não foi uma "curva de aprendizado". Foi um golpe que calou fundo.

Sir Frank morreu neste domingo. Quem ama o esporte só tem a agradecer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL