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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Made in USA": como a nova gestão está mudando a F-1

Hamilton erra na relargada do GP do Azerbaijão, faltando apenas duas voltas para o final da prova - Clive Rose/Getty Images
Hamilton erra na relargada do GP do Azerbaijão, faltando apenas duas voltas para o final da prova Imagem: Clive Rose/Getty Images
Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

09/06/2021 04h00

GP Brasil de 2003. Dilúvio em Interlagos. Webber bate forte com o Jaguar na Subida do Café. Na sequência, Alonso acerta os destroços, perde o controle da Renault e também bate. Bandeira vermelha. O GP está na 54ª das 71 voltas. Faltam 17 voltas, ou 24% da distância total. Mesmo assim, a direção de prova decide encerrar a corrida. Raikkonen é erroneamente proclamado vencedor. Pelo regulamento, vale o resultado da penúltima volta. No GP seguinte, em Imola, a confusão é desfeita e Fisichella recebe o troféu pelo primeiro lugar.

GP do Azerbaijão de 2021. Líder da prova, Verstappen bate em plena reta, após um problema no pneu traseiro esquerdo. O safety car entra na pista, mas logo depois vem a bandeira vermelha. O GP está na 49ª das 51 voltas. Faltam apenas 2, ou 4% da distância total. Mesmo assim, a direção de prova decide que a disputa deve ser reiniciada. Após a pista ser limpa, um novo grid é formado e os pilotos partem para a decisão. É emocionante! Hamilton vai pro tudo ou nada na primeira curva, erra e a vitória fica com Pérez.

O primeiro episódio relata uma velha prática na F-1 nos últimos anos: bandeira vermelha na segunda metade da prova significava fim abrupto da disputa, mesmo com muitas voltas pela frente. Há outros exemplos, como Portugal-1990, Canadá-1997, Malásia-2009.

O segundo caso, ainda vivo na memória de todos, é uma novidade. E é a mais evidente demonstração da mudança de mentalidade pela qual a categoria passa. Uma transformação diretamente ligada ao seu novo comando. Nascida e enraizada na Europa, a F-1 é cada vez mais americana na gestão. E isso significa priorizar o espetáculo para os fãs.

Nunca, em 71 anos de história, a F-1 havia reiniciado uma corrida com tão poucas voltas para a bandeira quadriculada. O recorde anterior era do GP de Mônaco de 2011, com relargada atrás do safety car a seis voltas do fim.

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Gasly, no pódio do Azerbaijão
Imagem: AlphaTauri

"Os americanos tomaram conta", resumiu Gasly, terceiro colocado em Baku, ao ser questionado sobre a decisão da direção de prova. "Escolheram o entretenimento. Não me surpreende."

(Em tempo: se a FIA tivesse seguido o procedimento antigo, o francês teria terminado a prova em quinto lugar, longe do pódio.)

Em 2005, uma mudança no regulamento estabeleceu que, sempre que possível, GPs devem ser reiniciados. Só não podem, jamais, extrapolar o limite de quatro horas de duração. Na prática, porém, a decisão é subjetiva e cabe ao diretor de prova.

"Olhei para o número de voltas que restavam, para a quantidade de detritos que havia na pista... Naquele ponto, a melhor opção era suspender a corrida, limpar tudo e então ter um final apropriado para a corrida", explicou Michael Masi, diretor da FIA. "Havia a opção de não recomeçar. Mas não havia motivos para isso. Agimos de acordo com os melhores interesses do esporte."

A associação com a "escola americana" de promoção de eventos esportivos é inevitável. E certeira.

Há pouco mais de quatro anos, a Liberty, um grupo dos EUA com fortes raízes no entretenimento, comprou toda a operação comercial da F-1. Pouco a pouco, vem implementando mudanças na condução da categoria.

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Drive To Survive, série da Netflix sobre Fórmula 1
Imagem: Reprodução/Netflix

A criação de "Drive To Survive", série de sucesso da Netflix, não é coincidência. A F-1 passou também a atuar com força nas redes sociais, antes ignoradas, e a espalhar seu canal de streaming, a F1TV, pelo mundo. Tudo isso para buscar públicos cada vez mais jovens.

Sob a antiga direção, de Bernie Ecclestone, a categoria parecia num beco sem saída, com audiências envelhecendo e não se renovando.

Agora, as mudanças começam a chegar também ao modo de organizar as corridas e entregar um produto melhor ao fã —ou consumidor.

Há pelo menos mais uma novidade à moda americana no horizonte.

A F-1 estuda seguir o que fazem outras categorias, como a Indy, e punir o piloto que causar bandeira vermelha numa sessão classificatória. Ele teria o melhor tempo cancelado, independentemente da circunstância.

Em Mônaco e no Azerbaijão, as sessões que definiram os grids foram encerradas da mesma forma: acidentes e bandeiras vermelhas. Leclerc bateu no principado. Tsunoda, em Baku. No caso do monegasco, o acidente causou polêmica, já que ele tinha o melhor tempo e, com a bandeira vermelha, assegurou a pole position.

"Estamos considerando mudar o regulamento. Vamos avaliar prós e contras, assim como os efeitos colaterais de algo assim. Isso será discutido com as equipes", disse Masi, em Baku.

Os puristas talvez comecem a chiar em breve. Mas disso não devem passar.

A Liberty já começa a colher os frutos dessa F-1 "made in USA".

As mudanças vieram para ficar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL