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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A melancolia dos grids murchos na F-1

Acidente na primeira volta do GP de Mônaco de 1995, última vez em que 26 carros largaram para uma etapa da F-1 - Reprodução
Acidente na primeira volta do GP de Mônaco de 1995, última vez em que 26 carros largaram para uma etapa da F-1 Imagem: Reprodução
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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

28/05/2021 15h04

Sou do tempo da pré-classificação na F-1. Havia mais carros do que vagas no grid, então as equipes menores faziam uma sessão à parte para lutar por aquelas posições.

Meu primeiro GP in loco, como torcedor, foi em 1990, em Interlagos. Eram 35 carros para 26 vagas. Cinco pilotos dançaram já na pré-classificação: Gary Brabham (Life, que nem sequer marcou tempo), Claudio Langes e Roberto Moreno (EuroBrun), Bertrand Gachot (Coloni) e Gabriele Tarquini (AGS). Outros quatro caíram depois, na definição do grid: Stefan Johansson e JJ Lehto (Onyx), Ivan Capelli e Mauricio Gugelmin (March).

Era um grande barato acompanhar aquela aflição das nanicas para se classificar. Para as equipes, claro, não deveria ser tão legal cruzar meio planeta para não correr. Mas era do jogo. Quer disputar um GP, mostre que é capaz. E, no fim das contas, aquilo tudo era uma grande vitrine e uma magnífica escola para quem estava começando, de mecânicos a pilotos.

Muita gente boa saiu dessa xepa. Imediatamente me vem à mente um campeão do mundo: Damon Hill, que por seis GPs de 1992 não conseguiu classificar sua Brabham.

Por que estou lembrando disso? Porque há exatos 26 anos, em 28 de maio de 1995, a F-1 teve um grid com 26 carros pela última vez.

symtek - Reprodução - Reprodução
Domenico Schiattarela com a Symtek nos treinos para o GP de Mônaco de 1995
Imagem: Reprodução

Foi em Mônaco, a última corrida da pequenina Symtek. E, na verdade, a equipe mal conseguiu participar da prova. Um acidente na primeira volta entre Gerhard Berger, David Coulthard e Jean Alesi bloqueou a pista, forçando uma nova largada.

No esforço para empurrar o Symtek de Domenico Schiattarela, os fiscais danificaram o carro, que não conseguiu ir para o grid. O outro piloto da equipe, vejam só, era o pai do atual líder do campeonato. Jos Verstappen também não relargou: sofreu com uma quebra do câmbio na volta de formação para o novo grid.

A Symtek fechou as portas antes da corrida seguinte, e nunca mais a F-1 teve 13 equipes disputando um GP. Nem mesmo quando a categoria abriu uma espécie de concorrência, no começo da última década, atraindo times de vida curta como HRT, Virgin e Lotus.

É uma marca que impressiona negativamente: 26 anos com grids murchos, menores do que o limite máximo estipulado pelo regulamento. Já houve corrida com 39 pilotos disputando 26 vagas! Mas, desde 2017, só dez equipes em todo o planeta conseguem disputar o campeonato.

"Ah, mas é bom selecionar, elitizar o grid, pra não desvalorizar o campeonato", alguém pode argumentar.

Ok, para isso já existe uma regra que limita em 26 o número de carros participantes. O busílis é que não surgem interessados, por razões puramente econômicas.

Hoje a situação já é melancólica. E se amanhã a Haas, por exemplo, decidir fechar as portas? Um Mundial com nove equipes seria um vexame.

Algo está errado. E espero que a Liberty esteja de olho nisso.