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Diogo Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Jovens atletas são incluídos em programa de prevenção a assédio do COB

Ricardo Bufolin/CBG
Imagem: Ricardo Bufolin/CBG
Diogo Silva

Diogo Silva foi campeão mundial universitário, medalhista de ouro dos Jogos Pan-Americanos e participou dos Jogos Olímpicos de Atenas-2004 e Londres-2012 no taekwondo. Hoje, faz parte do grupo de rap Senzala Hi-Tech.

24/02/2021 04h00

O Instituto Olímpico Brasileiro, braço cultural e educacional do Comitê Olímpico Brasileiro, está ampliando o curso de Prevenção e Enfrentamento do Assédio no Esporte. Com o lançamento do curso "Abuso e Assédio Fora de Jogo", que aconteceu nesta terça-feira (23), o programa também irá ser disponibilizado atletas de 12 a 17 anos, da iniciação esportiva ao alto rendimento.

O programa de prevenção foi criado em 2018, depois da avalanche de casos de abuso sexual na ginástica envolvendo mais de 40 denúncias, que levaram à demissão do técnico de ginástica artística da seleção brasileira, Fernando de Carvalho Lopes.

O objetivo do programa é ampliar a difusão do tema, conscientizar a comunidade esportiva, mostrar ao atleta como ele pode se manifestar no meio esportivo e informar sobre ações de prevenção, canais de denúncia, enfrentamento e acolhimento às vítimas.

São de extrema importância programas como esse do IOB, cujo lançamento foi transmitido durante uma live no Facebook e no Youtube. Afinal, os casos de assédio são muitos. Um dos mais emblemáticos é o da ex-nadadora Joanna Maranhão, que revelou ter sido vítima de abuso sexual ainda na infância por parte do técnico. A coragem dela ao revelar a história provocou uma mudança no comportamento da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) e no COB (Comitê Olímpico Brasileiro). A ex-atleta atualmente mora com a família na Bélgica, onde estuda.

Desde a minha primeira viagem Internacional aos 16 anos, em 1998, defendendo a seleção brasileira júnior, no Campeonato Mundial júnior, em Istambul, na Turquia em 1998 até minha última Olimpíada em Londres-2012, jamais tive qualquer tipo de orientação sobre assédio e abuso no esporte.

Hoje, com mais informações sobre o tema, percebi que vi e vivenciei essas violências dentro e fora do Brasil. Já presenciei técnicos brasileiros e estrangeiros dando tapa na bunda de atletas e passando a mão na perna e vi treinadores e árbitros homens em vestiários femininos durante a pesagem de atletas, momento que elas ficam só com peças íntimas. Além disso, ofensas verbais e físicas, beliscões eram rotineiros, dentro e fora da seleção.

Live do lançamento do curso Abuso e Assédio Fora de Jogo - Divulgação - Divulgação
Curso Abuso e Assédio Fora de Jogo foi lançado em uma live
Imagem: Divulgação

Por essas e outras, propostas que levam a educar o atleta, técnicos e gestores com programas educacionais são fundamentais. E reitero que deveria ser obrigatório também para quem faz a cobertura esportiva. Jornalistas, radialistas, blogueiros, fotógrafos, operadores de câmeras, apresentadores e colunistas também deveriam ser incluídos.

Em todos os Jogos Olímpicos e Pan-Americanos sempre tem uma lista das mulheres mais bonitas, algo que foge totalmente do foco competitivo e expõe as atletas como símbolos de beleza não de performance esportiva.

Além disso, é comum vermos fotos de atletas em posições desconfortáveis, como, por exemplo, quando estão preparadas para receber o saque adversário no vôlei de praia ou na quadra. Nessa posição, as jogadoras costumam ser alvos de fotógrafos maliciosos.

Em 2015, quando tinha apenas 19 anos, a atleta Ingrid Oliveira, dos saltos ornamentais, tirou uma foto de maiô sentada na plataforma de salto, durante os treinos dos jogos Panamericanos em Toronto, no Canada. A imagem foi altamente sexualizada nas redes sociais.

Em algumas profissões o terno é a vestimenta adequada, e, em outras, é o maiô. Modalidades como natação, saltos ornamentais, polo aquático, nado sincronizado, ginástica artística e olímpica, as atletas ficam com os corpos mais expostos, e deveria ser algo natural, já que estão ali para competir, não para ter sua imagem hipersexualizada.

Para que a essa cultura mude, são extremamente necessários um melhor diálogo, programas educacionais, canais de denúncia e um sistema de proteção às vítimas, para que atletas se sintam protegidos e denunciem cada vez mais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL