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Clodoaldo Silva

Onde estão as protagonistas dos Jogos Paralímpicos de Sydney?

Adria Santos, com a medalha de ouro dos 200m do mundial da Finlândia em 2005 - Michael Steele/Getty Images
Adria Santos, com a medalha de ouro dos 200m do mundial da Finlândia em 2005 Imagem: Michael Steele/Getty Images
Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

30/10/2020 14h01

Nos Jogos Paralímpicos de Sydney, há 20 anos, as mulheres foram as grandes protagonistas da competição. Adria Santos, Roseane Santos e Fabiana Sugimori conquistaram cinco dos seis ouros que o Brasil trouxe na bagagem. O outro ouro ficou com Antônio Tenório, que acaba de completar 50 anos, e se consagrou como um dos maiores judocas do mundo.

Mas afinal, onde estão essas meninas? Adria, que ainda tem o título de maior medalhista paralímpica do Brasil, acumula 13 medalhas nos jogos e mais tantas outras de mundiais, Pan-Americanos, campeonatos brasileiros. Durante muito tempo, foi a maior velocista cega do mundo e, ainda hoje, carrega o título de uma das atletas paralímpicas de maior destaque do Brasil.

Assim como ela, outras mulheres e homens fizeram muito pelo esporte paralímpico quando não se tinha pouca ou nenhuma estrutura. Tiveram um reconhecimento que vejo como pontual, não deram a elas a importância que têm mulheres que ganharam ouro para o Brasil e bateram recordes mundiais, como é o caso das três brasileiras que escolhi para falar.

O que elas deram para o esporte, para as novas gerações e para o Brasil com certeza é muito mais do que já ganharam. Em Sydney, por exemplo, a imagem emblemática da Adria conquistando o ouro nos 100m rasos não é esquecida por nós que somos mais ligados ao esporte paralímpico, mas tenho certeza também que muita gente se lembra da chegada dela quando subiu no colo do seu guia Gerson Knitel.

À época, as pessoas não tinham conhecimento de como um corredor cego poderia competir. Foi ela quem nos fez conhecer o atletismo paralímpico, quem impulsionou outros campeões. Será que a gente deu e dá o reconhecimento devido a Adria Santos? Afinal estamos falando de um ícone. De alguém que deveria ser emoldurada por aí e de uma atleta que sempre deveria ser lembrada por todos e pela mídia. Ela é a rainha do esporte paralímpico. Veja abaixo o quadro de maiores medalhistas divulgado pelo o CPB esta semana.

Ranking dos atletas paralímpiucos - CPB  - CPB
Imagem: CPB

Outras atletas

Roseane Santos  - Diarmuid Greene/Sportsfile via Getty Images - Diarmuid Greene/Sportsfile via Getty Images
Roseane Santos
Imagem: Diarmuid Greene/Sportsfile via Getty Images

Nunca vi uma mulher de tanto carisma no esporte como a Rosinha. Ela ficara conhecida pela sua frase emblemática proferida em Sydney quando disse que "perder a perna foi a melhor coisa" que tinha ocorrido na sua vida. Arrancou lágrimas dos profissionais de imprensa e de todo o Brasil. E dela, você se lembra?

E de Fabiana Sugimori, a japonesinha que se consagrou a primeira mulher cega do Brasil a conquistar uma medalha na natação paralímpica. Já ouviu falar dela?

Essas são mulheres paralímpicas que fizeram história não só nos Jogos de Sydney. Depois de 2000, viram o esporte paralímpico do Brasil ficar mais estruturado. Colecionaram mais títulos e se tornaram exemplo a ser seguido.

Hoje, Adria quer voltar a competir uma Paralimpíada só que na modalidade ciclismo. Fabiana e Rosinha encerraram as suas carreiras. Para mim fica sempre uma frase na cabeça: quando é que mulheres terão o mesmo reconhecimento que os homens? Seja nas quadras, nas pistas, no mercado de trabalho ou até mesmo um ambiente corriqueiro.

Essas três mulheres, além de Teresinha Guilhermino e Edênia Garcia, para mim são os maiores ícones paralímpicos feminino. Sem elas, o esporte para pessoas com deficiência teria menos brilho. Sem elas, não existiria equilíbrio. Vale muito a pena ver elas competindo, seguir o cotidiano delas e tê-las por perto.

Para mim, falta reconhecimento para as meninas que dominaram Sydney. Entendo que elas deveriam estar mais nas escolas falando do esporte paralímpico e sobre suas deficiências e história. Deveriam estar mais presentes na formação dos atletas e ser mais reconhecidas pela população e pelos órgãos principais do esporte paralímpico.

Fabiana Sugimori  - Marcos Peron/Folhapress/Marcos Peron/Folhapress - Marcos Peron/Folhapress/Marcos Peron/Folhapress
Fabiana Sugimori
Imagem: Marcos Peron/Folhapress/Marcos Peron/Folhapress

A história é algo que não podemos apagar, e uma forma de reconhecer um ídolo é fazer com que seus feitos sempre estejam em evidência, mas principalmente investir para contribuir com o legado dele e, de certa forma, com sua sustentabilidade, capacitação e/ou oportunidade de trabalho dentro do esporte.

Essas meninas têm muita representatividade para as mulheres com ou sem deficiência, e suas imagens podem ser melhor exploradas. Eu tenho certeza disso.

Obrigado, meninas, por tudo que fizeram e por tudo que representam para o Brasil. Eu sempre estarei com vocês na mente e no coração. Estamos juntos e misturados.

Excelente sexta-feira a todos e abraços aquáticos!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.