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Pedido de desculpas de Maurício Souza é problemático e reforça homofobia

Maurício Souza em ação pela seleção brasileira de vôlei - Instagram/mauriciosouza17
Maurício Souza em ação pela seleção brasileira de vôlei Imagem: Instagram/mauriciosouza17

Ana Flávia Oliveira

Do UOL, em São Paulo

27/10/2021 18h30

O jogador de vôlei Maurício Souza publicou nesta quarta-feira (27) um vídeo em que se "desculpa" por ter praticado homofobia ao "expressar sua opinião" a respeito da bissexualidade do filho do Superman, no novo HQ da DC. Depois da pressão dos patrocinadores, ele foi demitido do Minas Tênis Clube na tarde de hoje, pouco tempo depois de postar o conteúdo no Instagram.

Se a intenção era se desculpar, ele falhou miseravelmente. Logo no começo, Maurício se "desculpa a quem se sentiu ofendido", frase frequentemente usada em retratações "para inglês ver" e que só servem para colocar a responsabilidade em quem se ofendeu, como se o erro estivesse em quem "interpretou mal".

Do alto dos seus privilégios de homem branco e heterossexual, Maurício também não entende (e pior, não parece nem se esforçar) que um pedido de desculpas sem ações e sem conscientização é apenas um vídeo no feed. A impressão é que Maurício o postou apenas por pressões do clube e de patrocinadores. Quando mexe no bolso, vale até um vídeo de "retratação".

Ele reforça que "tem direito a defender aquilo em que acredita". Não está errado. Temos assegurados constitucionalmente o direito à liberdade de expressão. Mas a liberdade de expressão não deve ser utilizada como desculpa para crimes, violência de nenhum tipo e nem incentivar discursos de ódio contra minorias.

A homofobia, a lesbofobia, a bifobia, a transfobia, disfarçadas de "opinião", são crimes, sim. Desde a decisão do STF de criminalizar atos homofóbicos em junho de 2019, "praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito em razão da orientação sexual da pessoa poderá ser considerado crime".

Um avanço para gays, lésbicas, bissexuais e trans, mas longe do ideal. Afinal, estamos falando do país que mais mata homossexuais nas Américas. Ou seja, a nossa existência já é fator de risco.

Enquanto Maurício, reclama por não poder "expressar sua opinião" homofóbica, nós estamos lutando para sobreviver, para andarmos de mãos dadas na rua, sem correr o risco de sermos mortos, estamos brigando para viver em um mundo que insiste em nos colocar em caixinhas, para não ouvirmos frases como "Ah tudo bem ser gay, só não pode dar pinta; não sou homofóbico só não preciso ver duas pessoas do mexo sexto se beijando na rua; ah, tudo bem ser lésbica, desde que seja entre quatro paredes" etc.

Dá para mensurar o estrago psicológico que esse tipo de coisa faz em uma criança que está apenas tentando se entender no mundo? Quando a DC cria um personagem bissexual está passando uma mensagem de esperança, de que não tem nada errado em ser LGBTQIA+. Qual o problema nisso, Maurício?

Mas, para o jogador, a "vítima" é ele por não poder expressar sua "opinião" sem ser "tachado de homofóbico e preconceituoso". E diz que está passando um momento de dificuldades "por conta de uma opinião". Que dó!

O problema é que Maurício não está sozinho. Não é apenas uma pessoa falando besteira. A fala dele encontra ressonância e faz crescer uma horda de homofóbicos carentes de pares que endossem suas opiniões. Prova disso é que Maurício ganhou seguidores nas redes. Foram mais de 70 mil de ontem para hoje no Instagram. Muitos inclusive o criticaram por ter "se desculpado sem ter feito nada de errado".

Ao assistir ao pedido de desculpas de Maurício, a música "Flutua", uma parceria de Johnny Hooker e Liniker, martelou na minha cabeça. Na canção, uma espécie de hino contra homofobia, os cantores desejam apenas o nascimento de um novo tempo "para que a gente florescer e amar sem temer".

É isso que a gente quer, Maurício. Amar sem temer que "opiniões" como a sua se transformem em armas nas mãos daqueles que nos ofendem e nos matam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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