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Zaidan: Comparações inúteis, ansiedade e futebol

Técnico Jorge Jesus orienta o Flamengo na final do Mundial de Clubes contra o Liverpool - Ibraheem Al Omari/Reuters
Técnico Jorge Jesus orienta o Flamengo na final do Mundial de Clubes contra o Liverpool Imagem: Ibraheem Al Omari/Reuters
Claudio Zaidan

Claudio Zaidan é radialista há 44 anos. Em São Paulo, trabalhou nas rádios Jovem Pan e Trianon. Entrou na Rádio Bandeirantes em 1994, onde ficou por cinco anos. Voltou para Bandeirantes em 2001, onde atualmente é comentarista.

23/12/2019 09h38

Foi um festival de perguntas: Daniel Alves é a maior contratação da história do São Paulo? Jorge Jesus é o melhor treinador que o Flamengo teve desde sua fundação? E esse time do Flamengo é tão bom quanto o de 1981? Dudu está na lista de melhores jogadores da história do Palmeiras? Ouvi, li, me deparei com essas questões e indaguei qual o motivo de perguntarem tais coisas. Teve mais: Edu jogou mais que Soteldo? Na ocasião, pensei por instantes que era conversa atirada ao vento, coisa pra distrair do relógio, e que o autor da pergunta sabia perfeitamente que o bom futebol do venezuelano não basta para que alguém se desgaste com a dúvida. Deve ser a ansiedade, esse troço difícil, aflitivo, que tem angustiado a alma de muitos, ou talvez seja apenas um distanciamento em relação à história, aos tempos e tempos que antecederam e pariram estes dias.

Talvez as duas coisas tenham se combinado e provocado essa pressa coletiva, esse impulso aparentemente incontrolável de situar fatos recentíssimos antes que estes estejam concluídos, e que suas consequências e dimensões sejam realmente conhecidas, identificadas. Deixemos que o Soteldo drible à vontade, faça gols, teça sua carreira; nada de sobrecarregá-lo com expectativas sem sentido. As perguntas foram apresentadas como se fossem parte de um solilóquio, sem qualquer espaço para um debate sobre cada tema assuntado.

De todo modo, minha resposta para todas essas enquetes rápidas foi a mesma: Não!. O caso do Flamengo, que é também o do Jorge Jesus, mostra bem a impropriedade contida na pressa. Poderíamos simplesmente apreciar a campanha, o caminhão de gols, os golaços, a pontuação impressionante no Campeonato Brasileiro, o jeito de o time jogar, a virada notável sobre o River. Convenhamos, o futebol do Flamengo desde a chegada do português já é assunto suficiente para preencher os espaços e tempos da crônica, o que inclui a possibilidade de comparações de seu modo de jogar com o desse ou o daquele time. O problema é o movimento atarantado em busca de uma definição histórica.

Tenhamos calma. Não faz sentido querer determinar o lugar na história de algo que ainda se move, que ainda acontece. E há também as comparações sem sentido, que somente prejudicam a avaliação do que têm feito os jogadores desse time. Rafinha e Filipe Luís são ótimos laterais, mas são lançados na vala dos comuns quando comparados com Leandro e Junior. Os gols e passes para gols realizados por Gabriel sofrem imediata desvalorização assim que, sem mais nem menos, alguém resolve cotejá-los com os feitos por Zico. A perda de tempo já seria motivo suficiente para se evitar essas aferições, mas o negócio todo se torna mais grave pela injustiça que produz.

Também ruim é idealizar o time, ter dificuldade para admitir que a derrota para o Liverpool não foi coisa de pormenores, mas o resultado da superioridade do campeão europeu. A taça ficou com o melhor time. Não é bom discutir com a realidade. Mas importa ressaltar, repetir, enfatizar, que a final do Mundial foi um jogo entre times que desprezam o chutão, a mera aposta no aleatório.

Quanto ao Jorge Jesus, não é difícil concluir que seu trabalho é muito bom; mas é desnecessário, além de inútil, mergulhar em amofinações, exercícios aborrecidos, para tentar descobrir se o que ele faz é superior ou inferior ao que Cláudio Coutinho fez ou ao que foi feito por Carpegiani. Cada um teve de lidar com situações diversas, circunstâncias distintas.

O São Paulo trouxe Daniel Alves, um acumulador de títulos, e a empolgação contida no anúncio permitiu a insinuação de que o clube havia, então, feito a maior de suas contratações. Daniel joga muito, fez uma carreira excepcional, mas sua chegada ao Morumbi não é acontecimento inaudito. O São Paulo não nasceu ontem. O clube era ainda de fundação recente e já trazia Leônidas da Silva, um dos melhores atacantes do mundo e, naquele tempo, principal jogador brasileiro. Leônidas e Sastre deram títulos ao São Paulo e o estabeleceram como grande, irreversivelmente grande. E Zizinho, Gerson, Pedro Rocha, Toninho, Careca, Pita, Cerezo... Não, Daniel Alves não é a principal contratação da história do São Paulo. Bastaria que sua vinda fosse saudada, merecidamente saudada. Não há motivo para exageros, falas desmedidas.

Tampouco o Dudu precisa ser catalogado. O certo é que ele é muito bom atacante, decide jogos, se lança de cabeça no jogo coletivo. Dudu é o mais importante jogador do Palmeiras desde a aposentadoria do Marcos. Tudo isso deveria ser suficiente, mas já despejam a pergunta: "Ele está no Palestra de todos os tempos?". Não, não está. Responder algo diferente é ignorar dezenas de jogadores extraordinários e até mesmo alguns fenômenos que fizeram a história palestrina.

Deve ser mesmo a ansiedade que tira das pessoas o sossego de apenas apreciar um bom jogo, o futebol bem jogado, sem carência de hierarquizar rigidamente times ou jogadores. O torcedor, para decidir acompanhar sua equipe, não depende de incentivos artificiais, extravagância nos elogios. Mas parece haver uma fábrica de manchetes inócuas, promessas espetaculosas, pretensas definições. E é coisa antiga, que permanece. Houve anúncios em demasia de "novo Pelé", e haverá os de "novo Messi".

Assista aos melhores momentos de Liverpool 1 x 0 Flamengo

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