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Antero Greco: Dá vergonha festejar a seleção

Alisson comemora defesa de pênalti no jogo Brasil x Paraguai -  Juan MABROMATA / AFP
Alisson comemora defesa de pênalti no jogo Brasil x Paraguai Imagem: Juan MABROMATA / AFP
Antero Greco

Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

28/06/2019 11h06

Caro leitor que dispensa alguns minutos de sua atenção para ler estas mal traçadas linhas semanais, responda com sinceridade: você festejou a classificação do Brasil? Não fique sem jeito de falar que sim, pois não vamos perder a amizade por causa disso. Há coisas mais sérias em nossas vidas do que discutir por futebol.

Sei que o sentimento de nacionalismo supera a raiva, ainda mais quando uma vaga para semifinal em torneio internacional vem no último pênalti. Mas, passado o grito que enxotou a angústia e trouxe alívio, que tal uma reflexão, seguida de constatação? Dá vergonha festejar a proeza da seleção. Se é que a gente pode chamar de façanha bater o Paraguai nos pênaltis.

O que se viu em Porto Alegre, na noite desta quinta-feira, foi outro episódio para colocar em xeque o futuro da "amarelinha" de imensa tradição. "Como assim?", pode questionar o fanático de carteirinha. "Estamos no caminho do título e você reclama?!" Claro, a rapaziada de Tite pode levantar o caneco, daqui a uns dias, e ir pra casa com sensação de dever cumprido.

Isso basta para quem pretende iludir-se. Em primeiro lugar, porque uma Copa América a mais ou a menos não faz diferença alguma para quem tem cinco Mundiais. Só levaria em conta se viesse como consequência de esquema de jogo sólido, redondo, atraente, criativo. Se fosse resultado de shows de talento e dribles dos moços. Enfim, se nos convencesse de que era evolução em relação ao que se viu, por exemplo, na Rússia.

E podemos falar em crescimento, em mudança significativa um ano depois de sermos despachados pela Bélgica? Digo que não. O time pode arrebentar na semifinal (contra a Argentina, talvez?) e passear na final, no Maracanã. Nem assim vai apagar a sensação incômoda de que continua a marcar passo. Ou de equipe que joga para o gasto, ultrapassa rivais de menor expressão e se encrenca, se topar com um adversário graúdo.

Não precisa ser pacheco, nem ter comportamento politicamente incorreto, muito menos botar banca. Nada disso. Mas, pessoal, dá uma espiada no que aconteceu até agora. Na estreia, sufoco contra a Bolívia (o placar se soltou, no segundo tempo, depois de pênalti contra os gringos). Em seguida, um 0 a 0 constrangedor diante da Venezuela (e não venham com a conversa de que estão evoluindo, etc e tal).

A reviravolta parecia ter chegado com os 5 a 0 no Peru. Cá entre nós, os peruanos têm lastro em dar vexames estratosféricos. De memória, me lembro de dois que vi de perto: a surra para a Argentina, na Copa de 78, e a tunda que levaram da Polônia, quatro anos depois, na Espanha. Daí, voltamos ao ponto de partida com o 0 a 0 com o Paraguai, que teve um a menos em quase toda a etapa final. Gatito Fernandes pegou umas bolas em ataques brasileiros desenvolvidos na base de esforço e correria. Muito suor, pouca arte.

Vi muitos alegarem que "é mais difícil" jogar contra quem só se defende. Verdade até a página 2. Então, pergunto: pra que o Brasil tem técnico? Ora, para imaginar situações de extrema penúria, como ocorreu na arena do Grêmio. Para isso servem os treinos, para serem criadas alternativas para marcação forte. Esse é o desafio de uma equipe gigante.

Não há dúvida de que os paraguaios têm mérito, de quem possuem jogadores experientes e, assim como os brasileiros, que atuam fora do país - muitos na Europa. Porém, prezado amigo, pegue a trajetória dos vizinhos e a dos nossos boleiros.

Não há comparação. Um é campeão europeu, outro é campeão italiano, mais ali tem campeões franceses. Aqueles jogam no City, não sei quantos estão no Barcelona - e assim por diante. Só primeira linha. Todo mundo tratado a pão de ló. Vestem a camisa da CBF e travam. Ou seja, se tem bobo no futebol somos nós.

Você acha que eu ia passar pano pra treinador? Engano seu. Há mais de década e meia estamos à procura de alguém que monte um esquadrão. Depois do penta, a gente só tenta... e se arrebenta. Com brilhozinho aqui e ali, desfilaram Parreira, Dunga, Mano, Felipão de novo, Dunga outra vez e Tite.

O que tivemos com eles todos? Uma penca de resultados bacanas contra galinhas mortas (e alguns pesos pesados), umas Copas das Confederações na sala de troféus, paradas fáceis nas Eliminatórias e... chumbo em Mundiais. Gente, não adianta mais nos enganarmos com vitórias periféricas: ou fazemos uma revolução na forma de jogar ou seremos coadjuvantes por muito tempo.

Achei que com Tite retomaríamos o papel de protagonistas - e, para mim, ter o papel principal significa resgatar "o jeito brasileiro de jogar" (drible, malícia, leveza) atualizado com pitadas de organização dos europeus. Ficamos, até agora, só no meio do caminho e com cópias malfeitas.

Essa seleção brasileira, por ora, é só arremedo. Vou festejar o quê? Vitória nos pênaltis contra o Paraguai?! Ah, dá licença que vou até ali tomar um café.

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