Topo

André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rocha: Flamengo não vai duelar com Galo "escolhendo" jogos no Brasileiro

Gabigol e Renato Gaúcho durante jogo do Flamengo contra o Grêmio no Maracanã - Jorge Rodrigues/AGIF
Gabigol e Renato Gaúcho durante jogo do Flamengo contra o Grêmio no Maracanã Imagem: Jorge Rodrigues/AGIF

Colunista do UOL Esporte

19/09/2021 23h47

Receba os novos posts desta coluna no seu e-mail

Email inválido

No dia oito de agosto, o Flamengo levou 4 a 0 do Internacional no Maracanã. Havia poupado titulares no meio da semana contra o ABC em Natal, partida de volta pelas oitavas da Copa do Brasil. Mas na quarta, dia 11, havia a ida das quartas da Libertadores contra o Olimpia, em Assunção.

Contra o Sport, no dia 15 em Volta Redonda, vitória protocolar por 2 a 0, freio de mão puxado e Willian Arão e Bruno Henrique nitidamente forçando cartões amarelos que suspendiam a dupla para o jogo contra o Ceará, em Fortaleza, no domingo seguinte. Jogariam tranquilos na quarta, para confirmar a vaga nas semifinais do torneio continental.

De Arrascaeta jogou em Brasília contra o time paraguaio, mesmo com a classificação mais que encaminhada por um 4 a 1 no Paraguai. Mas sequer viajou para a capital cearense, mesmo com a equipe já muito desfalcada. Empate por 1 a 1 e Renato Gaúcho colocou muitos garotos, como quem faz experiências e dá minutos a quem não vem atuando, como se os três pontos não tivessem tanta importância.

Todos retornaram, claro, na ida contra o Grêmio, em Porto Alegre, pela ida das quartas do mata-mata nacional. 4 a 0 com um homem a menos no segundo tempo, classificação encaminhada.

Aí, sim, foi possível olhar para o Brasileiro com seriedade. Na Vila Belmiro contra o Santos, a última partida antes de longa pausa para a data FIFA. Não havia razão para poupar atletas e esforços. 4 a 0 no time então comandado por Fernando Diniz.

Na volta, clássico nacional contra o Palmeiras. Jogo envolvendo rivalidade recente, para manter uma invencibilidade que era de oito partidas. Mesmo muito desfalcado, a entrega foi absoluta no triunfo por 3 a 1. Também porque na quarta, novamente, o confronto havia sido definido na ida. O próprio Grêmio demonstrara que havia jogado a toalha ao confirmar time misto, com alguns jogadores nem viajando para o Rio de Janeiro.

Mas no domingo seria "a vera", até pela necessidade de pontuar do time gaúcho para fugir do Z-4. Titulares de volta e a proposta de jogar com as armas possíveis no momento: jogo físico, travado e apostando em concentração defensiva e velocidade nas transições ofensivas.

Felipão ainda avisou que aproveitaria a experiência das derrotas anteriores, mesmo com humilhantes 6 a 0 no agregado, para tentar encerrar uma sequência de 10 partidas sem vencer o time rubro-negro, desde 2018. Era "final" para o tricolor gaúcho.

O que Renato Gaúcho fez de diferente para tentar surpreender o rival? Absolutamente nada! Diego Alves e Arão, poupados na quarta, retornaram e Isla voltou da suspensão pelo cartão vermelho em Porto Alegre. Manteve estrutura e proposta, sem novidades.

Bem diferente, por exemplo, de Cuca, que quando enfrentou o Fluminense duas vezes seguidas no Rio mudou a ideia na segunda partida, pela ida da Copa do Brasil. No empate por 1 a 1 pelo Brasileiro, time no campo de ataque e dando espaços ao tricolor. Três dias depois, linhas mais recuadas, apostando em contragolpes e vitória por 2 a 1. Na coletiva pós-jogo, ressaltou que não poderia facilitar o trabalho do adversário fazendo as mesmas coisas.

Pois o Flamengo jogou uma partida fundamental nos pontos corridos com o mesmo comportamento da quarta, em um confronto resolvido. Mesmo percebendo que o Grêmio era diferente, na formação e no espírito. Fechando bem a entrada da área em um 4-1-4-1 e acelerando pelos lados, com Alisson e Ferreira, além de Borja se embolando e provocando Rodrigo Caio.

Ritmo lento e desatenção no último lance da primeira etapa, com Ferreira tendo tempo e espaço para calcular e colocar na cabeça de Borja, subindo entre Léo Pereira e Renê. O Flamengo não colocava intensidade, com jogadores nitidamente temendo entradas mais duras. Afinal, na quarta tem ida da semifinal da Libertadores em casa contra o Barcelona de Guayaquil.

Aos 20 do segundo tempo, as primeiras substituições de Renato. Pedro no lugar de Vitinho e Bruno Henrique na vaga de... Everton Ribeiro. O camisa sete saiu sentindo as muitas pancadas que levou, mas poderia ter seguido em campo. Só que, na quarta, Arrascaeta provavelmente não estará em campo, por conta da lesão muscular contra o Palmeiras. Questão de prioridade.

Empilhando atacantes e sem articulação no meio, o Fla nada criou e se livrou de tomar o segundo, com Diego Alves pegando cobrança de pênalti de Borja. No final do jogo, sorrisos de Renato Gaúcho com seus ex-comandados no gramado e Diego Alves, na entrevista, minimizou a derrota e se limitou a dizer que "tem muita coisa pela frente".

Talvez acreditando na repetição do perde-ganha do ano passado, com São Paulo, Atlético-MG e Internacional derrapando e o time, mesmo sem brilhar e perdendo na última rodada, confirmando o título. Pode acontecer, mas agora há um Galo focado, ligado. Com Cuca tratando cada partida como decisão, assim como fez quando comandou o Palmeiras em 2016. Agora abrindo 11 pontos, com apenas dois jogos a mais.

É claro que há tempo para reviravoltas. Mas existe agora uma diferença fundamental em relação à temporada passada: o foco. Eliminado nos torneios, o Fla se concentrou no Brasileiro. Agora a possibilidade de chegar às duas decisões de mata-mata é considerável.

E há Renato Gaúcho, um treinador que já demonstrou seguidas vezes que pontos corridos não o seduzem. Poupar, fazer experiências, guardar energias quando a ladeira a subir é muito íngreme, só no Brasileiro. Ou em confrontos eliminatórios bem encaminhados. Se houver um desafio mais complicado na quarta, o desempenho no fim de semana sempre fica comprometido.

Não significa que basta querer para o Flamengo vencer. Houve méritos de Internacional, Ceará e agora Grêmio. Mas o padrão é claro: o time sempre foi mal e deixou pontos antes das partidas de ida do mata-mata tratadas como mais difíceis - excluindo, obviamente, o confronto com o ABC.

E isso porque o Flamengo foi feliz nos sorteios e encontrou chaveamentos menos complicados. Imagine se estivesse do lado do Galo e tivesse uma semifinal continental contra o Palmeiras, atual campeão. Cuca poupou algumas peças, mas seu time jogou com a fome habitual e enfiou 3 a 0 no Sport.

Eis a diferença de mentalidade. O Flamengo quer "escolher" jogos para se dedicar. Como Renato sempre fez em sua carreira, de jogador e treinador. Só que agora há um concorrente que não vem dando brechas. Assim não há a mínima condição de duelar na disputa que exige regularidade, consistência.

O terceiro título consecutivo, feito que seria inédito para o clube e que só o São Paulo alcançou na história, ficou bem mais complicado para o bicampeão. Mas na quarta o Barcelona, certamente, encontrará outro adversário no Maracanã.