PUBLICIDADE
Topo

André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rocha: Como a mobilização "contra tudo e todos" pode ser útil ao Flamengo

Gabigol comemora gol de pênalti marcado pelo Flamengo contra o Santos, na Vila Belmiro - Fernanda Luz/AGIF
Gabigol comemora gol de pênalti marcado pelo Flamengo contra o Santos, na Vila Belmiro Imagem: Fernanda Luz/AGIF
Conteúdo exclusivo para assinantes
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

18/09/2021 09h19

Demorou, mas chegou o efeito colateral do adiamento de jogos do Flamengo das rodadas 2, 3 e 19 do Brasileiro, por contas das datas FIFA: a remarcação de duas das três partidas pela CBF, encavalando as datas e criando um obstáculo perigoso para o atual bicampeão buscar o tri, que seria inédito para o clube.

A partida contra o Athletico em Curitiba, adiada da 3ª rodada, será no dia 2 de novembro, uma terça-feira. Ainda sem a definição se o duelo anterior, decisivo contra o Atlético Mineiro, será no dia 30 de outubro, sábado, ou 31, domingo. No dia 5, partida em casa contra o Atlético -GO, adiada da 19ª rodada. Para fechar a maratona no dia 7 ou 8, fora de casa contra a Chapecoense. Quatro jogos em dez dias.

Dois problemas saltam aos olhos: um é a possibilidade de atuar com 48 horas de intervalo, algo que aconteceu na temporada passada por motivo de força maior - a pausa de quatro meses no calendário por conta da pandemia -, mas que, dentro de um acordo da FENAFAP (Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol) e a CBF, não pode se repetir agora e o intervalo de 66 horas entre os jogos deve ser respeitado.

Outro é a logística. Por que não colocar em sequência as partidas em casa contra os Atléticos e emendar jogos no sul do país, contra Athletico e Chapecoense? Evitaria os 3,4 mil quilômetros de viagem e a maior dificuldade de recuperação dos atletas; Difícil entender e soou como retaliação pela polêmica sobre a presença de público nos estádios.

Não é de hoje que a postura da diretoria rubro-negra, em vários temas, é reprovada nesta coluna. Autoritária e pouco transparente em tantas ocasiões, agindo com arrogância e sem buscar o consenso. Opinião deste que escreve, subjetiva e baseada em sua visão sobre esporte e a vida em sociedade.

O problema é que no futebol brasileiro a selvageria, o "cada um por si" sempre imperou. Não por acaso, Copa União 1987 e Primeira Liga fracassaram e esse novo projeto não deve obter sucesso também. O Flamengo, que buscou a união das outras vezes, agora age diferente. Mas já tivemos o Vasco de Eurico Miranda, o Fluminense de José Carlos Vilela, o "Rei do Tapetão" e também os times de São Paulo dando as cartas tantas vezes.

17 clubes da Série A se posicionaram contra a presença de público em jogos do Fla, mas a CBF liberou geral na Série B, com cada clube mandante se entendendo com as autoridades locais para colocar torcidas nos estádios. O Atlético-MG é contra no Brasileiro, mas encheu o Mineirão contra o River Plate pela Libertadores. Falar em isonomia é piada. Quando tudo está errado, todos gritam e ninguém tem razão.

Sem contar a data FIFA de outubro, com a seleção jogando de 7 a 14 e desfalcando os times por mais três rodadas. O Flamengo encara o Fortaleza no Castelão e joga no Rio contra Juventude e Cuiabá. Além dos desfalques certos de Isla e De Arrascaeta, será que Tite vai convocar Everton Ribeiro, Gabigol ou até mais algum atleta rubro-negro? Ou haverá bom senso, chamando apenas os "estrangeiros"?

Para completar, a absurda suspensão de Gabigol pelo STJD, acrescentando mais um jogo ao cumprido pela expulsão contra o Internacional, por conta da declaração na saída do campo afirmando que o futebol brasileiro é uma várzea. A punição apenas confirmou a nossa bagunça. O clube conseguiu um efeito suspensivo e o atacante deve enfrentar o Grêmio no domingo.

Tudo isso é desgastante e problema sério para a reta final de uma temporada que pode ser histórica, com a conquista da verdadeira tríplice coroa. O Flamengo está nas semifinais da Libertadores e da Copa do Brasil e, no rigor dos números, só depende de si para ser tri brasileiro - vencendo as partidas que faltam e o confronto direto com o líder Atlético Mineiro, vira líder.

A solução é estar com elenco inteiro e disponível. Aliás, neste cenário a possível contratação de Daniel Alves, mesmo sem poder participar das competições de mata-mata, seria interessante. Qualidade, experiência e versatilidade, podendo atuar na lateral e no meio-campo. O problema é que também costuma ser convocado por Tite e seria mais um desfalque na data FIFA.

Dentro desse cenário, o lema "contra tudo e contra todos", muito comum no futebol brasileiro e que quase sempre soa como vitimização, pode ser utilizado pelo clube para agregar em busca dos três títulos.

A começar pela partida contra o Grêmio, no domingo. Depois de eliminar o time gaúcho na Copa do Brasil com 6 a 0 no placar agregado e tendo a ida da semifinal da Libertadores contra o Barcelona de Guayaquil no horizonte, é um jogo com alto risco de desconcentração e temor de lesões diante do time de Felipão lutando contra o rebaixamento e trazendo rixas das partidas anteriores, sem contar o incômodo com a "freguesia" recente.

Seria o momento dos discursos inflamados, invocando uma suposta perseguição dos concorrentes e da CBF. Para que todos entrem atentos e intensos atrás da vitória que não deixaria o Galo escapar no topo da tabela. Discurso de superação para encarar os adversários, tratados como inimigos pelo contexto.

Pode ser exagero, mas costuma funcionar na gestão do vestiário e no aspecto mental dentro de campo. Seria um jeito de transformar o limão em limonada. Apesar das dificuldades, o elenco rubro-negro tem condições de manter o nível de desempenho e seguir vencendo. A mobilização pode dar a liga e ajudar a fazer história.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL