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André Rocha

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Primeiro tempo em Itaquera uniu melhor do Flamengo, mas também de Renato

Bruno Henrique abraça técnico Renato Gaúcho na vitória do Flamengo em cima do Corinthians - Marcello Zambrana/AGIF
Bruno Henrique abraça técnico Renato Gaúcho na vitória do Flamengo em cima do Corinthians Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

02/08/2021 08h29

Foram 45 minutos, mais os acréscimos, mágicos na Neo Química Arena. Na casa do Corinthians, o Flamengo teve 65% de posse de bola, chegando a mais de 70% até abrir o placar aos seis minutos com Everton Ribeiro. Finalizou 12 vezes, cinco no alvo, uma no travessão com Bruno Henrique e três nas redes. Não permitiu nenhuma conclusão do time da casa na direção da meta de Diego Alves.

Mas que impressionou mesmo foi a maneira com que se impôs no bom gramado do estádio. O Corinthians contribuiu sendo presa fácil com seu 4-1-4-1 estático e com o veterano Jô como única possibilidade de escape para os contragolpes, o que facilitava o trabalho de Gustavo Henrique e Léo Pereira. A ponto do sensível desfalque de Rodrigo Caio, novamente afastado por tempo indeterminado para resolver problemas físicos que parecem crônicos, nem ser tão sentido.

Muito volume de jogo, com pressão no campo de ataque e rápidas transições. Intensidade máxima e muitos jogadores chegando na área adversária. Um massacre que lembrou as melhores atuações da trajetória vencedora e histórica sob o comando de Jorge Jesus.

Mas já há um pouco de Renato Gaúcho neste time. Ainda aparecendo de forma sutil, pelo pouco tempo de trabalho. Mas repare que os jogadores quase sempre falam sobre o novo treinador "colocar o seu jeito de jogar, a sua ideia", em meio aos elogios em relação à transformação do ambiente no vestiário.

Renato conquistou uma Copa do Brasil e uma Libertadores no Grêmio em 2016/17, aproveitando o melhor do trabalho de Roger Machado e dando seu toque pessoal, com ajustes pontuais. É um treinador que se ajusta às características do elenco, mas que tem suas preferências, que vão um pouco além da marcação individual nas faltas e escanteios e dos encaixes com bola rolando.

O melhor dos times do Gaúcho era a maneira com que alternava o toque curto para envolver o adversário e o passe longo nas costas da defesa para surpreender. O Fla de Jesus era vertical e na velocidade máxima, o de Renato já muda o ritmo de acordo com o contexto.

Aproxima os jogadores de articulação: Filipe Luís, Diego Ribas, Everton Ribeiro e De Arrascaeta. Gabigol também participa, mas funciona mais como um atacante de profundidade. Assim como Bruno Henrique e Isla, este pela direita. Não tão avançado e aberto como nos tempos de Rogério Ceni, mas, até por características, sendo mais agressivo que Rafinha nos tempos de Jesus.

O Corinthians foi criticado por competir pouco. Nas transmissões em TV aberta e fechada, narrador e comentaristas, em um discurso para lá de estranho, chegaram a pedir mais faltas e antijogo ao time paulista. Um apelo que seria mais compreensível partindo de torcedores, até do treinador ou de uma liderança do time. Nunca de jornalistas.

Mas o que se via no campo era um oponente que sofria para ajustar a distância na marcação. Justamente por essa alternância de toque curto e longo que envolve os adversários. Quando a marcação chega, a bola não está mais. O desgaste físico e emocional foi devastador e o time da casa se perdeu. Só se encontrou no segundo tempo, quando os visitantes claramente tiraram o pé do acelerador.

Gustavo Henrique fez 2 a 0 na bola parada - aí, sim, falha grotesca de Gil, que deixou Gustavo Henrique livre para se antecipar a Fagner, muito mais baixo. No terceiro, inversão de Gabigol e Bruno Henrique: o camisa nove cruzou da esquerda e o 27, como centroavante, ampliou. O sistema continua sendo o 4-2-3-1, até para que Arrascaeta siga com liberdade para criar e ser o protagonista neste toque mais curto. Mas Bruno Henrique está autorizado a circular.

Assim como buscar as infiltrações em diagonal. Como Pedro Rocha e depois Everton Cebolinha no Grêmio de Renato. Porque é até ingênuo imaginar que Renato vai aceitar passivamente que o time jogue com a proposta de outro treinador.

Logo ele, vaidoso e que sempre dizia que se tivesse um "elenco de 200 milhões" também seria vencedor? O sonho de Renato é superar Jesus em conquistas. De preferência com o feito histórico de ganhar a inédita "tríplice coroa": Libertadores, Brasileiro e Copa do Brasil. Ou alguém acha que ele engoliu humildemente o atropelo dos 5 a 0?

É claro que, se conseguir, vai trazer os méritos todos para si. Uma injustiça, já que está aproveitando a base que ficou e não pegou a terra arrasada que Jesus encontrou em junho de 2019. O português foi construtor, Renato é mais administrador.

Seja como for, o primeiro tempo dos 3 a 1 em Itaquera foi um recital que pode e deve encher o torcedor rubro-negro de esperanças. Um time reserva sob o comando do auxiliar Alexandre Mendes irá a Natal confirmar a vaga nas quartas da Copa do Brasil. No Ninho do Urubu, Renato e os titulares terão uma semana de trabalho para a sequência do Brasileiro contra o Inter no Maracanã e o confronto com o Olimpia pelas quartas da Libertadores.

A tendência é que o Flamengo ganhe ainda mais a cara do novo treinador. Não há como prever o futuro dessa equipe, mas o caminho até aqui é promissor.

(Estatísticas: SofaScore)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL