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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É possível criticar Abel, Ceni e Cuca. Sem blindagem, nem cabeça a prêmio

Abel Ferreira comandando Palmeiras na Supercopa do Brasil - Cesar Greco/Palmeiras
Abel Ferreira comandando Palmeiras na Supercopa do Brasil Imagem: Cesar Greco/Palmeiras
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

19/04/2021 08h47

A fase de grupos da Libertadores 2021 começa com Abel Ferreira, o treinador campeão da última edição, pressionado no Palmeiras. O mesmo com Rogério Ceni, campeão brasileiro 2020, no Flamengo e Cuca, vice da Libertadores com o Santos, no Atlético-MG.

No caso dos dois primeiros, há uma semana suas equipes foram muito elogiadas pelo alto nível da disputa da Supercopa do Brasil no Mané Garrincha. Por que as críticas agora?

Bem, para os mais resultadistas por conta da ausência de vitórias desde o bom empate em Brasília. Mas as observações mais equilibradas remetem a questões que vêm desde o ano passado e se relacionam mais ao desempenho.

Flamengo de Ceni oscila demais e convive com problemas crônicos, como falhas na retaguarda, especialmente no jogo aéreo, e chances desperdiçadas pelo ataque. Também se atrapalha diante de fortes bloqueios defensivos. Mesmo problema do Palmeiras de Abel, que sofre sem espaços para acelerar as transições ofensivas.

Quando se afirma que ambos sobram no país é por conta do alto investimento, seja para contratar ou no esforço de preservar os principais jogadores. Por isso dominaram o cenário nacional e sul-americano desde 2019 e, no caso do Palmeiras, com conquistas desde a Copa do Brasil de 2015.

Mas isso não significa blindagem de críticas. Na cabeça de muita gente é alimentada a ideia de que criticar é se nivelar por baixo a qualquer torcedor corneteiro, daqueles que só assistem aos jogos do seu time de coração e, nas redes sociais, engrossam o caldo de perseguições, muitas vezes covardes. Para ir na contramão e mostrar que são observadores isentos e intelectualizados, preferem aquela análise "limpinha", sem opinião. O treinador "a" tentou a estratégia "x", no sistema "y", mas o técnico "b" respondeu com o esquema "z". O famoso clichê "no futebol não existe certo ou errado".

Só que há o padrão que funciona e ainda inclui o entretenimento do público. Vence e diverte, às vezes encanta. Joga bem e dá espetáculo. Esse é o ideal. Difícil alcançar com temporadas encavaladas e jogos a cada dois dias, no caso dos paulistas neste momento. Mas cobrar evolução no trabalho não é pecado.

Toda atividade humana cresce com pressão social. É claro que precisa de um certo "filtro de sanidade", mas a tendência é de se acomodar caso não haja cobrança constante por qualidade. Sem exploração e crueldade, apenas fiscalização e busca de progressos.

Por isso as críticas aos treinadores de Flamengo e Palmeiras. É possível entregar mais. Assim como Cuca no Galo,com pouco tempo de trabalho, porém contando com elenco reforçado, especialmente no Mineiro em que ostenta favoritismo absoluto. O estadual funciona como "laboratório", mas é preciso fazer experiências com responsabilidade e fazer o time render mais, jogo a jogo. Se não acontece a cobrança é justa, se saudável. Sem delírios.

Os testes mais fortes do primeiro semestre estão chegando. Na Libertadores a margem de erro é menor. Se tropeçarem, os trabalhos de Abel, Ceni e Cuca precisam ser reavaliados, sim. Com critério, cada um com suas particularidades. Nem blindagem, nem cabeça a prêmio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL