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André Rocha

Grêmio segue na pobreza de só administrar o G-4 no Brasileiro

Renato Gaúcho desapontada com a atuação do Grêmio diante o Palmeiras, pelo Brasileirão  - Marcello Zambrana/Marcello Zambrana/AGIF
Renato Gaúcho desapontada com a atuação do Grêmio diante o Palmeiras, pelo Brasileirão Imagem: Marcello Zambrana/Marcello Zambrana/AGIF
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

16/01/2021 07h18

A atuação do Grêmio no primeiro tempo do empate por 1 a 1 com o Palmeiras no Allianz Parque foi ridícula, para dizer o mínimo.

Nem a dificuldade para se adaptar à grama sintética justifica tamanha passividade na marcação, lentidão nas transições defensivas e preguiça na circulação da bola, especialmente de Jean Pyerre, Em algumas divididas mais duras foi possível notar até uma certa preocupação em não correr risco de lesão.

O Palmeiras, mesmo desgastado física e mentalmente pelo jogo contra o River Plate na terça e tendo um dérbi com o Corinthians na segunda, entrou para competir. Finalizou 12 vezes em 45 minutos, o triplo do time gaúcho. Foi às redes em uma linha de passe na área adversária até o toque final de Raphael Veiga, com direito à furada grotesca de Rony. O camisa 11, novamente atuando no centro do ataque, ainda perdeu gol inacreditável. Foram três finalizações nas traves de Vanderlei.

O Grêmio melhorou no segundo tempo porque era impossível jogar tão mal. A ideia de ter Thaciano no meio-campo para auxiliar Matheus Henrique na proteção da defesa e ultrapassar Jean Pyerre, que recua demais na articulação, para se juntar ao trio de atacantes é interessante e deixou a equipe mais consistente.

Mas o empate só veio pelo cansaço natural de um adversário jogando no limite das forças e que não teve ganho técnico com as entradas dos titulares Gustavo Scarpa e Luiz Adriano. Para piorar, Lucas Lima teve atuação desastrada nos minutos em que esteve em campo na vaga de Veiga, o melhor da equipe que Abel Ferreira mandou a campo.

Já Maicon entrou bem na vaga do lesionado Matheus Henrique, dando ritmo ao trabalho no meio-campo e acionando Luiz Fernando, substituto de Alisson, que cruzou, a bola desviou em Viña e achou Diego Souza livre para, enfim, vencer Weverton. Aos 42 minutos. Segundos antes, o goleiro palmeirense evitou o empate em chute do centroavante tricolor. E, nos acréscimos, em novo duelo entre Weverton e Diego Souza, a fantástica defesa em cobrança de falta salvando o Alviverde de uma virada que seria injusta.

Porque o Grêmio só foi intenso no final, com as substituições e ao notar que o Palmeiras não era mais tão ameaçador nos contragolpes. Ficou a impressão de grande reação, Renato Gaúcho na coletiva pós-jogo usou o discurso surrado de "um tempo para cada time" que não reflete o que aconteceu em campo. O time se livrou de ser goleado em um primeiro tempo imperdoável.

As três finalizações de Diego Souza no final foram as únicas no alvo das oito na segunda etapa. O Grêmio novamente jogou para o gasto. Ou para evitar uma humilhação que poderia abalar a confiança da equipe para o que realmente interessa: a decisão da Copa do Brasil em fevereiro.

Desde que assumiu o time em setembro de 2016, Renato Gaúcho prioriza claramente as competições de mata-mata. Deu certo no ano seguinte com a conquista da Libertadores. Em 2018 e 2019, porém, o planejamento deixou um "furo": o time chegava longe em pelo menos um dos torneios e, sem a conquista, quando voltava as atenções à competição por pontos corridos não dava mais para buscar o título. Restava manter a ideia inicial de administrar o G-4. Justamente para garantir uma vaga direta na fase de grupos do torneio continental, a prioridade máxima.

Com o empate em São Paulo, ultrapassou o Flamengo e alcançou a quarta colocação. A mesma em que terminou as últimas duas edições. E mesmo com as oscilações dos principais concorrentes, sem um time disparado na ponta, e faltando quase um mês para os jogos contra o Palmeiras, é difícil imaginar o Grêmio indo além disso.

Seriedade garantida só na 32ª rodada, com o Gre-Nal no Beira-Rio. Ainda mais se o maior rival seguir pontuando e ameaçar, de fato, a liderança do São Paulo. O bom retrospecto nos clássicos é um dos pilares do trabalho de Renato e atrapalhar a ascensão colorada seria um grande triunfo. Só isso mesmo para gerar uma motivação real.

Porque virou hábito em uma cultura copeira do clube. A única diferença é que agora Renato não poupa descaradamente o time inteiro. Seria ridículo depois do que o Flamengo de Jorge Jesus conseguiu no ano passado e Fernando Diniz tenta administrar no líder São Paulo. O vaidoso treinador gremista não quer o ônus da crítica sobre a clara prioridade e vive brigando com os fatos em constantes atritos com os jornalistas. Falou até que orienta o departamento médico a negar informações sobre os jogadores. Típico de quem tem algo a esconder.

Mas nem precisa, está tudo às claras. Priorizar é legítimo, mas tem seus riscos. O Grêmio comemorou apenas estaduais nos últimos dois anos. E num dos momentos mais estáveis e vencedores da história, apesar dos reveses humilhantes na Libertadores contra Flamengo e Santos, segue sem vencer o Brasileiro que não conquista desde 1996. A rigor sequer foi um postulante real.

Porque nunca levou a sério desde a primeira rodada. Um verdadeiro desperdício na principal competição do país. Uma pobreza de espirito.

(Estatísticas: SofaScore)