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André Rocha

Com ou sem Rogério Ceni, já é hora do Flamengo virar a página Jorge Jesus

Rogério Ceni, técnico do Flamengo, durante partida contra o Ceará no Maracanã - Jorge Rodrigues/AGIF
Rogério Ceni, técnico do Flamengo, durante partida contra o Ceará no Maracanã Imagem: Jorge Rodrigues/AGIF
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

11/01/2021 08h29

Quando renovou o contrato com Jorge Jesus em junho, o Flamengo viveu um clima de alívio e esperança na construção de uma hegemonia no futebol brasileiro. Mas havia incertezas, por motivos óbvios: como o time que vinha no embalo de vários títulos reagiria a uma inatividade sem precedentes por conta da pandemia? Como seria jogar no Maracanã vazio, sem a impressionante atmosfera de 70 mil vozes apoiando durante 90 minutos o time do "Mister"?

E mais: como a equipe campeã do Brasileiro, da Libertadores, da Supercopa do Brasil, da Recopa Sul-Americana e, então, da Taça Guanabara com a conquista do Carioca bem encaminhada, lidaria com o favoritismo absoluto no Brasileiro e no torneio continental? Agora o "meteoro" que surpreendeu os rivais com futebol arrasador seria mais estudado e cada jogo seria tratado como final de Copa do Mundo pelos oponentes.

A resposta veio com o Fla voltando de forma açodada ao estadual, recuperando ritmo de jogo e se adaptando ao estádio vazio contra times pequenos. Quando chegou a final da Taça Rio contra o Fluminense, único rival capaz de impor um mínimo de competição no torneio, veio o rumor forte de retorno do treinador português ao Benfica.

A surpresa, o clima estranho e silencioso no Ninho do Urubu e, por conta disso, uma nítida queda de produção que custou o título do returno com a derrota nos pênaltis e a decisão parelha, mas com duas vitórias rubro-negras, contra o valoroso time de Odair Hellmann. Dois dias depois, o "luto" com o anúncio oficial do adeus e uma certa desmobilização, já que o elenco teve uma semana de folga e depois treinou de 22 de julho até 2 de agosto com Maurício Souza, do sub-20.

No dia seguinte, apresentação e primeiro trabalho de Domènec Torrent. Catalão ex-auxiliar de Pep Guardiola, indicado por Rafinha e terceira opção de Marcos Braz e Bruno Spindel na "turnê" pela Europa atrás de um novo treinador. Estreia com derrota para o Atlético Mineiro e a mesma escalação de Jorge Jesus.

Na quarta-feira, duro e surpreendente revés por 3 a 0 para o Atlético-GO com Rafinha no banco e de saída para o Olympiakos, Rodrigo Caio improvisado na lateral direita, Vitinho no lugar de Arrascaeta num 4-3-3...e começou o inferno. Uma relação com altos e baixos, surto de Covid-19, 12 jogos de invencibilidade até as goleadas para São Paulo e Atlético Mineiro e a demissão da comissão técnica.

A acusação de destruir o legado de Jorge Jesus é recorrente. Também de que Dome mentiu aos dirigentes rubro-negros, já que na "entrevista" para o cargo assumiu o compromisso de manter as ideias do português. A grande questão é saber o que foi exatamente conversado. Será que Braz e Spindel sabiam que o catalão trabalhava com jogo de posição? Eles entendiam os conceitos para debater com o profissional europeu?

O que foi tratado como o "estilo de Jesus"? Futebol ofensivo? Dome deu o recado na coletiva de apresentação: "Prefiro ganhar de 4 a 3 do que por 1 a 0". Alguém do Flamengo se debruçou sobre as estatísticas do New York City FC e percebeu que o único time comandado por ele marcou muitos gols, mas também sofreu? Domènec chegou e voltou para casa sem entender muito bem o que esperavam dele além de resultados.

Veio Rogério Ceni. Com enorme urgência, chegando na terça-feira e já comandando o time no dia seguinte contra o São Paulo no Maracanã, ida das quartas de final da Copa do Brasil. Falando em resgate da memória do trabalho de Jorge Jesus, adiantando Bruno Henrique para o ataque com Gabigol e insistindo em "mantras" como intensidade, pressão no campo de ataque. Praticamente um "clone" do atual técnico do Benfica.

Mas Ceni, nem Dome, é Jesus. Ninguém pode emular o que o português fez. Muito menos sem o trabalho documentado e informações compartilhadas - bom lembrar que Jorge Jesus isolou o auxiliar permanente Marcelo Salles, antes deste ser demitido em abril.

Por tudo isso já é hora de virar a página. Passou. Cinco títulos, quatro derrotas. Recorde absoluto nos pontos corridos, o feito inédito de vencer a Libertadores no mesmo período. Histórico e marcante, mas passado. Até um hipotético retorno de Jorge Jesus, que vive lembrando do Flamengo em Lisboa, será diferente. Talvez mais ou menos vitorioso, mas o contexto é outro.

O trabalho de Ceni é um fracasso até aqui também por isso. Uma sombra gigantesca. A impressão é de que os jogadores só aceitam um "flashback" perfeito. Os treinos podem agradar, o contato com o atual treinador pode ser amistoso, porém não é a mesma coisa e o luto permanece e parece se intensificar nas partidas. Onde está a torcida? Cadê Jesus?

Com ou sem Ceni, está na hora de transformar esse cenário. Dar liberdade ao treinador para mexer na estrutura, mudar a base titular, testar novos movimentos. Como Dome experimentou e foi detonado. Rogério até tenta timidamente, ou os atletas resgatam da memória recente.

A melhor jogada coletiva do time no Fla-Flu teve início em uma inversão de jogo com passe longo de Willian Arão para Isla no corredor pela direita. Típico do time de Dome. Na derrota por 2 a 0 para o Ceará, também no Maracanã, a tabela entre Pedro e Arrascaeta no primeiro tempo, com pivô do centroavante e o uruguaio finalizando para bela intervenção do goleiro Richard. Lembrando os jogos contra Palmeiras, Independiente Del Valle , Athletico-PR e Sport, no auge do surto de Covid e, paradoxalmente, talvez o período de melhor desempenho com Dome.

Porque mudou, ainda que obrigado pelas muitas ausências. Jovens da base ganharam oportunidades e corresponderam. Como não havia opção, o time ficou leve, sem a responsabilidade de repetir o desempenho do ano mágico rubro-negro. Para ser novamente massacrado com a volta dos titulares fazendo beicinho até para a concorrência dos garotos incorporados ao elenco.

Ceni resgatou tudo, inclusive o privilégio aos medalhões. Menos o desempenho. Com as derrotas do São Paulo para Red Bull Bragantino e os reservas do Santos, o Flamengo teve a chance de reduzir de sete para um ponto a vantagem tricolor na ponta da tabela. Com um jogo a menos. Falhou miseravelmente e as chances de título ficaram mais remotas com Internacional e, possivelmente, o Atlético Mineiro ultrapassando. E ainda a ameaça de Palmeiras e Grêmio. Se vacilar, o favoritismo absoluto pode terminar em uma vexatória vaga nas etapas preliminares da Libertadores.

Culpa de Ceni? Sim, mas também do ambiente contaminado por uma melancolia tipicamente lusitana. Com dirigentes perdidos e jogadores "órfãos", sem confiança e aparentemente conformados com o infortúnio. Não dá para esperar pelo retorno do "Sebastião". O Flamengo tem camisa, torcida (mesmo longe dos estádios) e estrutura para cortar esses laços que construíram uma linda história, mas precisam ser rompidos para o time caminhar. Há vida sem Jorge Jesus.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL