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André Rocha

Pobreza de ideias de Ceni no Flamengo é chocante, mas não surpreende

Rogério Ceni em ação à beira do campo durante o clássico Flamengo x Fluminense - Thiago Ribeiro/AGIF
Rogério Ceni em ação à beira do campo durante o clássico Flamengo x Fluminense Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

07/01/2021 08h52

O Flamengo teve 11 dias de preparação para o Fla-Flu, por conta da parada do futebol brasileiro no fim de semana após o réveillon. Quatro dias a mais que as semanas "cheias" que o treinador Rogério Ceni tem usufruído desde que o time foi eliminado da Copa do Brasil e da Libertadores.

E o domínio mais contundente do time rubro-negro no tradicional clássico carioca pode ser resumido nos três minutos iniciais no Maracanã. Jogada pela esquerda de Filipe Luís, corta-luz de Everton Ribeiro e chute para fora de Gabigol. Pouco depois, escanteio também pela esquerda que Rodrigo Caio testou e o goleiro Marcos Felipe salvou.

Só. O gol de Arrascaeta aos 40 minutos acontece depois de um cruzamento errado de Everton Ribeiro que Matheus Ferraz falha ao rebater e o uruguaio aproveita. No mais, 72% de posse de bola, 86% de efetividade nos passes, 19 finalizações, oito no alvo. Estatísticas que foram utilizadas como defesa na coletiva pós-jogo. Mas que objetivamente nada significam.

Porque o Flamengo de Ceni não surpreende o adversário. Não engana a marcação. Ou melhor, só desarmou a retranca tricolor no primeiro tempo quando Willian Arão acertou bela inversão de jogo, característica perdida dos tempos de Domènec Torrent, que encontrou Mauricio Isla livre pela direita. Passe para Gabigol, que cruzou para Bruno Henrique se enrolar com a bola e o lateral tricolor Calegari.

São dois meses de trabalho sem lastro de evolução. Porque começou com uma mentira contada por Ceni e engolida por dirigentes, torcedores e a maioria dos jornalistas.

Logo após a derrota para o São Paulo por 2 a 1 pela estreia na Copa do Brasil, o treinador disse que tentou e seguiria tentando resgatar a memória dos jogadores na execução do modelo de Jorge Jesus e que ele colocara em prática no Fortaleza.

Só que não existe a mínima correlação entre o que deu certo no time cearense e a equipe que ganhou cinco títulos e teve apenas quatro derrotas em praticamente um ano sob o comando do português.

Ceni até tentou montar uma equipe ousada e envolvente em Fortaleza, mas só venceu a Série B quando adotou estilo mais pragmático, baseado em sistema defensivo mais sólido e bolas para o centroavante Gustagol. Lembrando, inclusive, o São Paulo tricampeão brasileiro comandado por Muricy Ramalho, que dependia ofensivamente do pivô de Aloísio Chulapa/Borges e das cobranças de falta do próprio Rogério.

Na Série A, o choque de realidade empurrou Ceni para um jogo mais reativo, nunca no tal 4-2-4 que afirma ter utilizado. Eram duas linhas de quatro compactas, agressividade na marcação e saída em velocidade pelos flancos. Ideia mantida por Marcelo Chamusca que parou o Flamengo de Ceni na última rodada e foi exaltada pelo próprio técnico rubro-negro. Na verdade, um autoelogio.

No simplismo da direção rubro-negra, que contratou Abel Braga para ser o "Felipão carioca", depois Jorge Jesus apenas pelo "padrão europeu", sucedido por Domènec com a grife de auxiliar de Guardiola e a indicação de Rafinha, Ceni reorganizaria a retaguarda descoordenada, já que deixou o Fortaleza com a defesa menos vazada no Brasileiro, e bastaria resgatar as ideias de Jesus e...Shazan! Tudo se encaixaria como mágica.

Não é assim que funciona. Até porque Ceni não utiliza o que Jesus uma vez definiu como "criatividade tática". Ou seja, as variações que dificultavam a vida dos adversários. Como Arrascaeta pela direita, Everton Ribeiro por dentro e Bruno Henrique pela esquerda num 4-2-3-1 inicial trabalhado contra o Internacional em Porto Alegre e na final diante do River Plate na Libertadores. Ou um 4-3-3 com o uruguaio de "falso nove" e Gabigol e Bruno Henrique abertos, como nos 3 a 0 sobre o Athletico pela Supercopa do Brasil. Sem contar os movimentos sincronizados que desmontavam as defesas.

Ceni no máximo traz Arrascaeta para dentro e abre Bruno Henrique pela esquerda, posicionamento que incomodava o atacante nos tempos de Dome. No fundo, o treinador queria dar mais chances a Vitinho e ter dois jogadores de velocidade pelos lados, como fazia no Fortaleza. Por isso não consegue extrair o melhor de Everton Ribeiro e Arrascaeta como meias que recebem abertos, porém articulam por dentro.

Ceni orienta, mas não cobra como Jesus. Parece intimidado para se impor diante do elenco. Ou muito preocupado em agradar a todos, inclusive parte da imprensa que ficou doída com uma ou duas respostas enviesadas de Domènec nas goleadas sofridas na reta final do trabalho e poupa o técnico brasileiro que rebate as críticas nas entrevistas, mas sempre com educação.

O São Paulo levou 4 a 2 do Bragantino, mas novamente o Flamengo falhou na hora de se colocar, de fato, como candidato ao título. Também porque o Fluminense viu que o bicho não era tão feio assim, finalizou 11 vezes, seis no segundo tempo.

Empatou com Luccas Claro, virou com Yago Felipe no final, em falha grotesca de Filipe Luís, e ainda acertou a trave em bela jogada de Michel Araújo. Bastou ter coragem para virar o clássico sobre uma equipe que demonstra incríveis fragilidades emocionais e tem a confiança abalada muito fácil.

Talvez porque os jogadores percebam que o treinador não tem respostas. Ainda apela para substituições tresloucadas que desorganizam de vez o time. É claro que outros fatores também prejudicam, como a quebra traumática de planejamento do departamento de futebol sem Jesus e sua comissão técnica, as mudanças no departamento médico, o surto de Covid-19 que ainda não sabemos exatamente como afeta o atleta de alto rendimento a longo prazo e a turbulência política do clube em constante ebulição que começa um ano eleitoral.

Mas Rogerio Ceni, com tempo e elenco mais completo, deveria entregar muito mais. É chocante porque conta com oito dos 11 titulares que formaram um time histórico, recordista nos pontos corridos e com o feito inédito de vencer a Libertadores no mesmo ano. Mas não surpreende, porque é um técnico em formação e que nunca pareceu bem preparado para a missão.

Em 11 jogos, sofreu 15 gols e marcou apenas 17. Quatro vitórias - sobre os virtualmente rebaixados Coritiba e Botafogo, os reservas do Santos e o Bahia em queda livre com Mano Menezes. Mais quatro empates e três derrotas que constroem o pífio aproveitamento de 48%. Pelo contexto favorável em termos de tempo para treinar e qualidade do elenco, chega a ser vergonhoso.

O Flamengo ainda pode vencer o Brasileiro porque todos oscilam demais e são sete pontos para tirar em 11 partidas, com um jogo a menos e confronto direto no Morumbi. Mas em campo tudo parece mais complicado para diminuir a diferença na tabela.

(Estatísticas: SofaScore)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL