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Flamengo faz bela limonada de todo azedume. Melhor elenco do país sobra

André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

30/09/2020 23h48

Quando começaram a explodir os casos de Covid-19 no Equador, logo após a maior derrota da história do Flamengo na Libertadores, o cenário parecia aterrorizante. Jogo contra o Barcelona já muito desfalcadoem Guayaquil, volta ao Brasil para enfrentar o Palmeiras em São Paulo e um duelo que poderia ser traumático contra o Independiente del Valle, mesmo no Maracanã. Ainda mais depois da vitória do Junior de Barranquilla sobre o time equatoriano que embolou o grupo.

Depois do sofrido triunfo por 2 a 1 sobre a equipe de Guayaquil, toda a celeuma de bastidores que demonstrou, além da falta de preocupação com vidas dos dois times e de senso coletivo da direção rubro-negra, ficou claro que a insistência no adiamento do jogo significava pouca confiança nos garotos com saúde e liberados para jogar.

E a resposta do trabalho das divisões de base que forma e vence apresentou ao elenco que já entregava um timaço em 2019 e se reforçou no início deste ano mais ótimas opções. Especialmente na defesa, a começar pelo goleiro Hugo Souza, que impressiona pela combinação de envergadura e agilidade. Também Matheuzinho, Noga, Nathan, Otávio e Ramon. Todos protegidos por uma proposta mais reativa.

E afirmando Lincoln, também jovem vindo da base, mas subindo bem antes, junto com Vinicius Júnior. Contra Palmeiras e Del Valle, sacrificado aberto pela esquerda para Pedro atuar no centro do ataque. O mesmo pela direita com Gabigol, de volta ao time depois de se recuperar de lesão.

Repetindo o 4-2-3-1 das últimas partidas que parece encaixar De Arrascaeta na função em que rende melhor. Inclusive utilizado como meia central atrás do centroavante várias vezes com Jorge Jesus, abrindo Bruno Henrique pela esquerda. Apesar de só ter ido às redes uma vez e desperdiçado algumas boas oportunidades, comandou o meio-campo, se entendeu bem com Pedro e acionou a velocidade pelos flancos. O melhor neste "pacote" de jogos.

Um trunfo na estratégia de explorar os espaços às costas da defesa da equipe de Miguel Ángel Ramírez. Acertando o passe desde a defesa, ou mesmo na ligação direta de Hugo que encontrou Pedro e a inversão do centroavante para Matheuzinho, que disparou e serviu Lincoln no primeiro gol.

Depois Thiago Maia, outro destaque de um meio-campo extremamente técnico com Gerson, acionou Gabigol pela esquerda que serviu Pedro. 2 a 0 com apenas 38% de posse e sete finalizações, três no alvo e duas nas redes. Sabendo sofrer, mesmo com Hugo trabalhando muito. Já era esperado diante de todas as dificuldades e da qualidade do Del Valle, mesmo com as goleadas sofridas nas últimas rodadas.

Só não foi perfeito pela lesão de Gabigol, mais uma vítima do gramado do Maracanã que nunca se recupera. Entrou Bruno Henrique pela esquerda, invertendo o lado de Lincoln. Mesmo sem treinar por conta da Covid-19 e já vindo de um período de inatividade, aproveitou ainda mais os espaços generosos para acelerar e marcar os outros dois gols. No primeiro, terceiro da goleada, iniciando e finalizando a jogada. Fechando a conta ao receber lançamento preciso de Arrascaeta.

Goleada e bela exibição para tomar a liderança do Grupo A e garantir a classificação com o surpreendente revés do Junior em casa para o Barcelona por 2 a 0. Basta empatar em casa na última rodada com o próprio Junior para terminar em primeiro. Com a volta gradativa de mais jogadores recuperados e cinco partidas no Rio de Janeiro contra Athletico, Sport, Vasco e Bragantino, além do jogo adiado contra o Goiás, a chance de buscar uma arrancada para se afirmar no Brasileiro como o grande oponente do líder Atlético Mineiro.

Com um elenco que já era considerado o melhor do país e agora sobra com a garotada que demonstrou qualidade. Hugo, inclusive, deve ser alçado à condição de reserva imediato de Diego Alves. Com todos os méritos. Em outros setores, como as laterais, também é possível mexer na "concorrência" por posições ou reservas imediatos. Um grupo que cresceu com as dificuldades, também. Inclusive com o comando de Jordi Guerrero na ausência de Domènec Torrent, fora também com Covid.

Ou seja, o Flamengo fez uma bela limonada de todo azedume. Compensando em campo todos os erros fora, na gestão. Mais uma vez.

(Estatísticas: SofaScore)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL