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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O mundo do futebol e sua eterna porradaria virtual

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Imagem: Reprodução
Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

24/02/2021 15h59

Eu ia deixar para escrever a coluna só na sexta, falando da rodada final do Brasileirão. Mas a internet não deixa. Eu ia escrever algo positivo, conforme autocrítica necessária feita no texto passado. Mas a internet não deixa. Eu ia evitar assuntos polêmicos, a fim de não me aborrecer muito. Mas a internet não deixa.

Esta semana tivemos casos graves de racismo cometidos na sequência do lançamento do vídeo da Puma com a nova camisa do Palmeiras. Uma campanha bonita, marcada pela diversidade dos modelos escolhidos, de repente atacada por uma enxurrada de comentários indecentes nas mídias sociais. Claro que a enxurrada de condenação a estes crimes foi muito maior, mas não deixa de me chocar o nível de conforto que os racistas sentem em destilar seu ódio publicamente.

O que também pode ser dito dos misóginos. Estão bem à vontade. Tuitei algo sobre gordofobia uns dias atrás. Não demoraram a chegar comentários como "sai daqui, militante chata pra caralho", "fodase" (sic), "muié comentando..." e "agora manda uma foto da teta". Teta esta, aliás, que naquele momento estava ocupada amamentando meu filho.

Logo depois, vieram os comentários sobre o possível mau-caratismo de alguns jogadores de futebol. Time vai mal em campo e adquirimos o direito de questionar a índole de homens que, em diversos casos, passaram por dificuldades que muitos de nós, privilegiados, nem sequer sonhamos. Cadê o limite, gente?

A bola entra em campo e correndo saem a compaixão, o respeito, o mínimo de educação?

Vejo um monte de conversa sobre o futuro de Vanderlei Luxemburgo depois do fiasco no Vasco e pouca sobre as dezenas de funcionários que serão demitidos com a redução na renda do clube pós-rebaixamento. Pessoas que ganham um salário mínimo e perderão toda a sua renda.

Pouco papo também sobre os efeitos de longo prazo da Covid nos inúmeros atletas que contraíram o vírus ou o impacto de ser apedrejado no caminho para o trabalho. Ou as ameaças (pouco veladas) a jogadores que devem honrar o time ou prestar contas na volta, com sua dignidade - e talvez até segurança - condicionada ao resultado dentro de campo.

A violência virtual não só é real, como abre caminho para a violência ao vivo.

Acho que para todos nós vale o constante lembrete de que altos salários, camisas de peso, espaços de destaque na mídia, nada disso diminui nossa humanidade, nossa fragilidade, nossa propensão ao erro.

Cautela e canja de galinha, por favor.

Grata, a militante chata.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL