Mãe de 5 dividia comida com urubus e lutava contra o álcool; lixo a salvou

Rita de Cássia Silva, de 37 anos, é mãe de cinco filhos e durante 20 anos tirou a sua sobrevivência do lixão da Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes, área metropolitana do Recife. Na montanha de resíduos, buscava objetos que pudessem ser reciclados e comercializados com algum atravessador, e ainda se alimentava de restos de comida vencida, muitas vezes disputados com os urubus.

Rita ainda trabalha com o lixo e depende dos resíduos para viver, mas modificou o seu relacionamento com ele. Hoje ela é coordenadora da Cooperativa Villa Rica, que recicla materiais descartados e recolhidos por coleta seletiva. A atividade promoveu uma mudança radical em sua vida e na de toda a sua família.

Em 2009, o lixão da Muribeca fechou por conta de um Termo de Ajustamento de Conduta apresentado pelo Ministério Público de Pernambuco. Rita passou, então, a integrar um programa de coleta seletiva do município de Jaboatão dos Guararapes. Por meio deste programa, foram criadas cooperativas de reciclagem de resíduos, entre elas, a Cooperativa Villa Rica, que ela coordena hoje.

A organização é formada por 31 cooperados, sendo 18 mulheres e 13 homens. Todos realizam o trabalho de coleta e seleção dos materiais, que são, depois, comercializado com as fábricas de reciclagem.

Além de oferecer melhores condições, o trabalho gera uma renda que antes era improvável para Rita.

A gente tem refeitório e banheiro na cooperativa. Eu ganho entre R$ 1.900 e R$ 2.100 por mês e tenho orgulho do trabalho que faço, pois eu contribuo com a sustentabilidade do mundo.

Rita de Cássia

Urubus, moscas e gás

Na cooperativa, Rita passou a ter orgulho de tirar seu sustento do lixo porque seu trabalho ajuda o meio ambiente
Na cooperativa, Rita passou a ter orgulho de tirar seu sustento do lixo porque seu trabalho ajuda o meio ambiente Imagem: Arquivo pessoal
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No lixão de Muribeca, Rita, sua mãe e seus irmãos trabalhavam de madrugada para evitar o mau cheiro mais intenso por conta do sol forte, além dos urubus e das moscas que rondavam os resíduos. "Mas à noite, a gente enfrentava as chuvas, a lama, era muito sofrimento."

O ofício da então catadora consistia em garimpar, na montanha do lixão, resíduos que pudessem ser reciclados e, por isso, teriam algum valor para atravessadores que eram chamados de 'deposeiros'. "Eles compravam por um valor bem abaixo do preço e vendiam bem mais caro", relembra Rita.

Como ganhava muito pouco, ela se alimentava por ali mesmo, disputando os restos de comida com os urubus. "A gente enfrentava também o risco de incêndio, pois tinha muito gás no lixão, a gente fazia a comida, jogava no papelão e comia ali mesmo, de qualquer jeito, a céu aberto."

Eu afastava o urubu para ele não pegar a minha comida.

Rita de Cássia

Rita diz que, além da fome e dos riscos de morrer, o preconceito era outro fardo. "As pessoas veem quem trabalha no lixão como alguém fedorento, que não tem valor e para o catador é muito difícil lidar com isso. Por isso, a maioria dos catadores tem algum vício, como forma de alívio."

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Dignidade e respeito

Com o trabalho que conseguiu na cooperativa, Rita conta que ganhou forças para se livrar do alcoolismo e vislumbrar um futuro melhor para os seus filhos. "Eu me livrei do vício de álcool e, como mãe de cinco filhos, eu não tinha expectativa em relação a eles, pois eu não cuidava nem de mim. Hoje não bebo e nem fumo mais."

Com o salário da cooperativa, Rita mantém uma de suas filhas na faculdade de direito
Com o salário da cooperativa, Rita mantém uma de suas filhas na faculdade de direito Imagem: Arquivo pessoal

Ela diz que não conseguia ver futuro para os seus filhos, era uma "imagem apagada", e conta que hoje tem uma filha estudando direito que deve concluir o curso em 2025, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Apesar de a universidade ser pública, Rita arca com os custos de passagem, livros, apostilas e outros materiais necessários aos estudos da filha.

Ela também conquistou a casa própria e o respeito dos colegas e de outras pessoas da sociedade, que notaram a importância do seu trabalho.

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Apesar disso, Rita avalia que a sociedade ainda precisa evoluir e fazer melhor a sua parte para que o trabalho dela, e dos demais profissionais da reciclagem, possa ser mais efetivo.

Muitas vezes as pessoas não separam o lixo e chega aqui tudo sujo. A sociedade precisa cooperar, é uma parceria, a sociedade faz a parte dela lá e a gente faz a nossa aqui.

Rita de Cássia

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